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domingo, 24 de março de 2013

Tipos populares portugueses III - Fernando da Ponte e Sousa - SECLA

Damos continuidade à publicação de figuras de tipos populares portugueses da autoria de Fernando da Ponte e Sousa (1902-1990),  para a SECLA, fábrica da qual foi sócio fundador e gerente juntamente com Alberto Pinto Ribeiro (1921-1989), de 1947 a 1955, retomando o cargo, entre 1966 e 1974.

Outras figuras da mesma série:
Tipos populares portugueses - Fernando da Ponte e Sousa - SECLA
Tipos populares portugueses II - Fernando da Ponte e Sousa - SECLA 
Tipos populares portugueses IV - Fernando da Ponte e Sousa - SECLA


Ponte e Sousa frequentou o atelier do escultor Leopoldo de Almeida (1898-1975), dai resultando a aprendizagem académica da modelação da figura humana, revelada em peças escultóricas de maior escala, produzidas em séries limitadas pela SECLA. 
A sua habilidade como modelador leva-o a conceber também serviços para a produção corrente, uns ecoando tardiamente a geometria Art Déco e outros adaptados a um gosto de cariz popular, procurando servir as necessidades do mercado. 
No entanto, é nas figuras populares humorísticas, em especial as que hoje publicamos, que melhor revela a sua capacidade de sintetização da forma. Esta série caricatural, por si modelada na década de 50, continuou em produção por vários anos, resultando em variações cromáticas e gráficas da autoria dos pintores responsáveis pela execução da decoração, que muitas vezes também assinam as peças.
Os exemplares que agora mostramos, no entanto, constituem excepção à regra, já que, pela concepção sumária, não permitem qualquer variação decorativa: duas figuras de mulheres da Nazaré, envoltas nas suas capas negras. 



Fernando da Ponte e Sousa - Nazarena, c.1955, SECLA. © PMC


Fernando da Ponte e Sousa - Nazarena, marca de fábrica, SECLA. © PMC



O traje típico da Nazaré é composto pelas famosas sete saias, das quais a exterior é plissada, de cor lisa e as seis interiores são de padrões variados, com orlas decoradas, combinadas com blusas de algodão florido. A complementar, o avental em seda bordada à mão e o cachené, lenço típico.
Deste traje faz também parte a capa preta, de fazenda de lã e o chapéu, com grande borla, do mesmo material.
A capa, protegendo do frio ou do calor, aparece amiúde retratada nos registos fotográficos da década de 50 e anteriores. As mulheres da Nazaré, esperavam os seus homens no regresso do mar, muitas vezes sentadas na areia, abrigadas na madrugada, pelas espessas capas negras. Abrigo protector, "tenda", "casa", a capa assume uma função fundamental nos comportamentos femininos e na preservação das relações sociais.



Nazaré, 1958. Fotografia de Louis Stettner (n.1922).



Nazaré, 1958. Fotografia de Carlos Afonso Dias (1930 - 2010).



Nazarenas - cartão postal, Anos 30.



Nazaré - cartão postal, Anos 60.



Ponte e Sousa trabalha nestas duas peças um dos traços identitários mais fortes das mulheres da Nazaré, como podemos comprovar observando as várias reportagens fotográficas da autoria de fotógrafos nacionais e internacionais, que pela região passaram. 
Ou melhor ainda na obra cinematográfica de Leitão de Barros (1896-1967), que trata magistralmente o tema no documentário "Nazaré, Praia de Pescadores" (1928) e mais tarde na docuficção "Maria do Mar" (1930), duas incontornáveis obras-primas do cinema mudo português.
Nas peças de Ponte e Sousa, o sintetismo é levado ao extremo. As figuras são retratadas agachadas, segundo uma composição piramidal, reveladora de uma aprendizagem clássica, pondo em causa ironicamente o conceito de estátua de capote, depreciativamente aplicado à estatuária do Estado Novo.
Este conceito refere-se à estatuária pública monumental que, tomando como modelo as propostas de Francisco Franco (1885-1955) consubstanciadas na estátua de Gonçalves Zarco, exibida na Avenida da Liberdade, em Lisboa, em 1928, desenvolve um conjunto de figuras históricas envolvidas em volumosas capas, dando origem a uma linguagem académica que, como qualquer academismo, se afasta das propriedades expressivas do modelo. 
Nesta categoria cabem por exemplo "D. Leonor", nas Caldas da Rainha, de 1935; "Salazar", retratado de borla e capelo, para a Exposição Internacional de Paris de 1937; "D. Dinis", na praça da Universidade de Coimbra, 1943, que o próprio Franco leva a estilizações decorativas academizantes. 
A tendência será seguida por escultores mais jovens, como Leopoldo de Almeida, em "Soberania", obra realizada em 1940, para a Exposição do Mundo Português e em "Ramalho Ortigão", para o Parque das Caldas da Rainha, 1954; ou Salvador Barata Feyo (1899-1990) com as estátuas de "Garrett", "Herculano" e "Antero", realizadas entre 1945 e 46, para citar apenas alguns exemplos de entre os inúmeros possíveis.
Obviamente Ponte e Sousa conhecia o meio das encomendas públicas, com que tinha convivido durante a prática no atelier de Leopoldo de Almeida. As suas pequenas e despretensiosas estatuetas, não deixando de o ser, conferem uma grau de sensibilidade criativa à representação do "capote", totalmente ausente da grande estatuária oficial. O capote ganha aqui uma dimensão doméstica, feminina e protectora, diametralmente oposta à expressão pretensamente heróica dos seus congéneres de grande escala.



Fernando da Ponte e Sousa - Nazarena, c.1955, SECLA. © PMC


Nazaré, 1958. Fotografia de Eduardo Varela Pécurto (n.1925).


Neste segundo exemplar há uma clara referência às inúmeras representações da Maternidade que, na década de 40 proliferaram, quer por via da imagética religiosa, quer através do seu contraponto neo-realista, de que damos como exemplo as peças do escultor Vasco Pereira da Conceição (1914-1992), pertencentes à colecção do Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian, provavelmente também baseadas nas mulheres da Nazaré, região da qual o artista é originário.
Mais uma vez as peças de Ponte e Sousa se afastam dos estereótipos propostos em ambos os casos, não servindo nem o modelo religioso nem o neo-realista. Assumem uma linguagem de enorme liberdade, inscrevendo-se na gramática do cartoon, nada estanha à cerâmica das Caldas pela via de Bordalo Pinheiro, mas agora com um tratamento verdadeiramente moderno, tanto formal como conceptualmente.



Vasco Pereira da Conceição - "Figura de Mulher", 1957 e "Maternidade", 1952. Terracota. Col. CAM-JAP. © CMP



Fernando da Ponte e Sousa - Nazarena, marca de fábrica, SECLA. © PMC


As duas peças estão marcadas com as iniciais do autor "FPS", a par com as marcas "SECLA", "Portugal" e numerações correspondentes ao modelo. Muitos dos exemplares, provavelmente posteriores, não apresentam o monograma de Ponte e Sousa.



Nazaré, 1954. Fotografia de Jean Dieuzaide (1921-2003).



As duas peças aqui publicadas pertencem à colecção P.M.C. a quem CMP* muito agradece, pelas suas contribuições, imprescindível colaboração e infinita paciência.



segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Tipos populares portugueses - Fernando da Ponte e Sousa - SECLA

Fernando da Ponte e Sousa (1902-1990) foi um dos sócios fundadores da SECLA (Sociedade de Exportação e Cerâmica, Lda.) em 1947, para onde concebeu serviços de produção corrente e peças escultóricas de edição limitada.
Em meados da década de 50 a fábrica produziu um conjunto de figuras modeladas por Ponte e Sousa, reproduzindo, de forma expressiva e sintética, tipos populares portugueses. Figuras de pastores, pescadores, vendedeiras, varinas, etc., cujo recorte caricatural é dado pela pose e expressão do corpo, já que o rosto é sumário, isento de feições.

Outras figuras da mesma série:
Tipos populares portugueses II - Fernando da Ponte e Sousa - SECLA  
Tipos populares portugueses III - Fernando da Ponte e Sousa - SECLA 
Tipos populares portugueses IV - Fernando da Ponte e Sousa - SECLA




Fernando da Ponte e Sousa - Guardador de porcos, c.1955, SECLA. © CMP



Fernando da Ponte e Sousa - Guardador de porcos, c.1955, SECLA. © CMP



Estas peças de pequeno formato, são decoradas com tintas de água, em cores fortes e planas, muitas vezes conjugadas com padrões gráficos contrastantes. Embora se integrem no vasto reportório de tipos regionais difundidos pelas artes decorativas e propaganda da época, em consonância  com as politicas do SNI, estas estatuetas são particularmente influenciadas pelo universo da banda desenhada internacional das décadas anteriores, como veremos em publicações seguintes. 
De notar que são também contemporâneas das abordagens pictóricas desenvolvidas por Hansi Staël  (1913-1961) a partir da observação de figuras populares da região das Caldas da Rainha e Nazaré, aplicadas em peças modelo para produção em série, da linha denominada "Motivos Portugueses". Duas visões complementares de temas semelhantes, propostas por diferentes autores, no contexto da produção da mesma unidade fabril.




Fernando da Ponte e Sousa - Guardador de porcos, c.1955, SECLA. © CMP



Fernando da Ponte e Sousa - Guardador de porcos, c.1955, SECLA. © CMP



Fernando da Ponte e Sousa - Guardador de porcos, c.1955, SECLA. © CMP


Começamos por publicar o Guardador de porcos, figura típica do Alentejo, região bem conhecida do autor, onde havia sido administrador da Herdade da Chaminé, antes de passar a residir nas Caldas, em 1947, a quando da formação da sociedade.
Como nos conta Alberto Pinto Ribeiro (1921-1989) em A Nova Cerâmica da Caldas (1989): "Ficaram a seu cargo as obras que eram necessárias, para o que mandou vir um grupo de operários alentejanos, que lá permaneceram vários anos. Era uma pessoa com boa experiência em fotografia e com gosto, tendo mesmo modelado algumas peças representando caracteres típicos da região, sobretudo figuras populares." 



Fernando da Ponte e Sousa - Guardador de porcos, c.1955, SECLA. © CMP



Fernando da Ponte e Sousa - Guardador de porcos, detalhe, SECLA. © CMP



Fernando da Ponte e Sousa - Guardador de porcos, detalhe, SECLA. © CMP



Fernando da Ponte e Sousa - Guardador de porcos, detalhes, SECLA. © CMP



Fernando da Ponte e Sousa - Guardador de porcos, detalhe, SECLA. © CMP



Fernando da Ponte e Sousa - Guardador de porcos, detalhe, SECLA. © CMP



Fernando da Ponte e Sousa - Guardador de porcos, marca, SECLA. © CMP


O Guardador de porcos, é retratado segundo um conjunto de características também difundidas pelos postais ilustrados, nas décadas de 30 e 40, muitas vezes em colecções, reunindo vários tipos populares portugueses, representados de forma mais ou menos estilizada, como pode observar-se no exemplar abaixo reproduzido.


Postal, Anos 30.


A figura é definida por um conjunto de adereços, de que fazem parte o cajado, o chapéu e o tarro, muito utilizado pelos guardadores de porcos e pastores alentejanos, bem como pelos trabalhadores agrícolas. O tarro é um recipiente de cortiça, com tampa, feito manualmente, destinado a transportar e conservar os alimentos.
Uma das particularidades curiosas nesta figura é o cajado, por ser um objecto destacável. Consiste numa pequena vara de madeira, que encaixa num orifício concebido para o efeito na base das mãos, como pode ver-se nas imagens acima, bem como o tarro pousado aos pés da figura.



Tarro -  11 cm x 24 cm, 1920. MNE



Modelo semelhante foi produzido como Pastor alentejano, mantendo o cajado em madeira e o tarro, e substituindo o suíno por uma ovelha. Desconhece-se qual das versões terá sido produzida em primeiro lugar, é possível que  fossem, desde logo, consideradas as duas possibilidades.


Fernando da Ponte e Sousa - Pastor, c.1955, SECLA. © CMP



Fernando da Ponte e Sousa - Pastor, c.1955, SECLA. © CMP


A datação proposta é apontada em função das informações fornecidas pelo catálogo Estúdio SECLA - Uma Renovação na Cerâmica Portuguesa, edição do Museu Nacional do Azulejo, 1999, segundo a qual Ponte e Sousa terá modelado figuras de tipos populares portugueses em meados da década de 50, no entanto a marcação referente ao modelo - P545, faz supor que sejam mais antigas, talvez do início da década.






sábado, 3 de novembro de 2012

Serviço de café - SECLA

Continuamos a publicação de peças de uso doméstico da SECLA, decoradas com  padrão de riscas verticais a preto sobre fundo branco, com interiores esmaltados a amarelo vivo.

Outras peças com o mesmo motivo decorativo:
Saleiros e Pimenteiros - SECLA
Prato coberto - SECLA
Galheteiros - SECLA  
Saleiros e Pimenteiros - SECLA
Caixas - SECLA 


Desta vez com um serviço de café em faiança cuja autoria do formato será provavelmente de Alberto Pinto Ribeiro (1921-1989) ou de Fernando da Ponte e Sousa (1902-1990).
CMP agradece qualquer informação sobre a autoria do formato ou do padrão.
O serviço é composto por uma cafeteira, um açucareiro, uma leiteira e seis chávenas (embora nas imagens abaixo só figurem cinco).


SECLA - serviço de café, Anos 50. © CMP



SECLA - serviço de café, Anos 50. © CMP


SECLA - serviço de café, Anos 50. © CMP



A cafeteira mede c.20 cm de altura.


SECLA - cafeteira, Anos 50. © CMP

SECLA - cafeteira, Anos 50. © CMP
SECLA - cafeteira, Anos 50. © CMP




SECLA - cafeteira, detalhe. © CMP



SECLA - cafeteira, marca de fábrica. © CMP


O açucareiro mede 10 cm de altura.


SECLA - açucareiro, Anos 50. © CMP
SECLA - açucareiro, Anos 50. © CMP


A leiteira mede 7,5 cm de altura.


SECLA - leiteira, Anos 50. © CMP
SECLA - leiteira, Anos 50. © CMP


A chávena mede 5,5 cm de altura.


SECLA - chávena e pires, Anos 50. © CMP
SECLA - chávena e pires, Anos 50. © CMP


 O pires mede 12,5 cm de diâmetro.


SECLA - pires, Anos 50. © CMP


Este serviço está apenas marcado PORTUGAL, colocando a sua datação provável no início da década de 50, uma vez que não utiliza nem o carimbo nem o punção SECLA.


SECLA - chávena e pires, marcas de fábrica. © CMP






sexta-feira, 30 de março de 2012

Jarro - Hansi Staël - SECLA

Jarro da autoria de Hansi Staël (1913-1961) produzido pelo Estúdio SECLA, por si fundado no início da década de 50.
Depois de chegada a Portugal em 1946, vinda de Estoclomo, onde havia permanecido durante a Guerra, Staël desenvolve várias disciplinas artísticas, chegando à cerâmica através de experiências efectuadas no atelier de João Fragoso (1913-2000).  A artista húngara terá demonstrado um interesse especial pela produção cerâmica das Caldas da Rainha provavelmente através de Fernando da Ponte e Sousa (1902-1990), entretanto tornado sócio maioritário da SECLA, com quem contactara no Estúdio-Escola de Cerâmica, fundado em Lisboa por Fragoso.
Imediatamente após a sua contratação pela SECLA para chefiar a secção de pintura, Hansi Staël inicia um processo de transformação profunda na linhas de produção da fábrica.
A atribuição de maior valor à exploração plástica das superfícies enfatizando a pintura, acabará por deixar de lado as formas tradicionais da cerâmica das Caldas, cuja gramática decorativa tinha por base o relevo.

Hansi Staël - jarro c. 1950, SECLA. © CMP

No caso deste jarro, não só não há relevo como também não existem elementos decorativos aplicados, a inovação está na própria concepção estrutural da forma.
É uma peça rodada e modelada em pasta vermelha, esmaltada a branco e pintada a verde sobre o vidrado, com apontamentos  rosa e amarelo, sobre os quais se intersectam segmentos de recta esgrafitados, criando signos lineares semelhantes a asteriscos.
Mede 17 x 20 x 12 cm, incluindo a asa que é composta  por duas fitas entrançadas.


Hansi Staël - jarro c. 1950, SECLA. © CMP

Hansi Staël - jarro c. 1950, SECLA. © CMP

Hansi Staël - jarro c. 1950, SECLA. © CMP

Hansi Staël - jarro, detalhe, SECLA. © CMP

Hansi Staël - jarro c. 1950, SECLA. © CMP

Hansi Staël - jarro c. 1950, SECLA. © CMP

Hansi Staël - jarro, detalhe da asa, SECLA. © CMP

Hansi Staël - jarro, detalhe da base, SECLA. © CMP

Hansi Staël - jarro, detalhe, SECLA. © CMP

Hansi Staël - jarro, detalhe da base, SECLA. © CMP

Hansi Staël - jarro, marca de fabrico, SECLA. © CMP

A base está marcada com o punção "SECLA" e o número "2", "Portugal" aparece escrito à mão. A mesma marcação é usada em peças com características e formatos completamente diferentes, levando-nos a concluir que nada tem a ver com o modelo ou decoração.
O formato é equivalente ao do jarro reproduzido na página 49 do catálogo Estúdio SECLA - Uma Renovação na Cerâmica Portuguesa, edição do Museu Nacional do Azulejo, 1999. Esta peça, atribuída a Hansi Staël, deverá ter sido o protótipo, uma vez que está  marcada com a palavra "MODELO" no interior da boca.


Hansi Staël - Modelo, SECLA. Publicada no catálogo Estúdio SECLA - Uma Renovação na Cerâmica Portuguesa, edição do Museu Nacional do Azulejo, 1999.

Embora no referido catálogo a datação proposta seja de c.1955, é provável que a concepção da peça seja anterior, já que na imagem abaixo reproduzida, de 1950, se pode ver um jarro em tudo semelhante, ainda que com uma asa simples.

As peças produzidas no Estúdio eram mostradas a par com outras da produção corrente, mais tradicionais, de modo a promover a imagem inovadora da fábrica e simultaneamente educar o gosto dos consumidores contribuindo para a sua renovação, como explica Alberto Pinto Ribeiro (1921-1989) em A Nova Cerâmica da Caldas (1989):
 "O aparecimento das novas Cerâmicas na SECLA não foi fácil de ser aceite pelo público menos ligado a novas e estranhas formas. A aceitação só foi conseguida gradualmente pela exposição em feiras, ao misturar a produção de peças de uso doméstico com a produção contemporânea criada por um grupo de artistas.
Não era uma imposição propositada, mas para lhe ir introduzindo as novas formas artísticas, que começaram a ser conhecidas."
A SECLA participou, durante dois anos, na Feira de Artesanato de Munique, pondo em prática a referida estratégia. No segundo ano, 1950, a unidade fabril viu algumas das suas peças seleccionadas pelo júri da feira, de entre os cinquenta e seis países representados.
A imagem mostra o espaço da SECLA no pavilhão português, durante uma visita do ministro alemão da Economia e futuro Chanceler, Ludwig Erhard (1897-1977), um dos grandes responsáveis pela recuperação económica da Alemanha no pós Guerra.
Enquanto ministro da Economia, Erhard fomentou o ensino das técnicas artesanais aplicadas a uma concepção moderna, através da criação de novas escolas de artes aplicadas, que muito contribuíram para o sucesso do prolífico design cerâmico alemão nas décadas subsequentes, renovando a indústria e dando emprego a milhares de operários especializados.


Espaço da SECLA na Feira de Artesanato de Munique, 1950. Imagem publicada em A Nova Cerâmica da Caldas (1989) da autoria de Alberto Pinto Ribeiro.

Como pode depreender-se das imagens, foram executadas variações da mesma forma, com decorações diferentes ou semelhantes.


Hansi Staël - covilhete com asa, c. 1950, SECLA. MdS Leilões

Estas peças de Hansi Staël demonstrem uma plasticidade dinâmica conferida por uma aparência de espontaneidade típica da produção de cariz popular. Ainda que esta aparência resulte da apropriação e tratamento consciente de algumas das características da tradição barrista portuguesa, de modo a incorporá-las na concepção de peças perfeitamente enquadradas no contexto internacional.
Vários ceramistas demonstraram internacionalmente preocupações semelhantes, nomeadamente na produção do Sul de França, da zona de Vallauris, onde, após a Segunda Guerra Mundial, se instalou um conjunto de artistas vindos das escolas de artes e arquitectura Parisienses, que, absorvendo as técnicas da produção local, a renovaram de forma profunda e duradoura.
Uma das figuras mais visíveis deste retorno às técnicas artesanais foi Pablo Picasso (1881-1973), cujo o trabalho desenvolvido na oficina Madoura, entre 1947 e 1971, estabeleceu novos parâmetros de exigência, tanto na produção local como internacional.


Cerâmicas de Picasso na oficina Madoura, Vallauris, c.1955.

Robert Picault (1919-2000), um dos elementos fundamentais da geração responsável por esta renovação, fez a sua formação em artes aplicadas em Paris, dedicando-se ao ensino do desenho no período imediato ao fim da Guerra.
Em 1945, juntamente com os colegas de trabalho Jean Derval (1925-2010) e Roger Capron (1922-2006), decide fundar um atelier de cerâmica. Picault mudou-se para a Riviera Francesa, instalando-se em Golfe Juan, onde ao mesmo tempo que ensinava, foi aprendendo a arte da cerâmica.
Capron juntou-se-lhe em 1946 e abriram o primeiro atelier, o famoso Callis. Picault desempenhava as funções de modelador, Capron de pintor, enquanto Derval tratava da expansão dos negócios em Paris.
Nesse mesmo ano, as oficinas Madoura e Callis juntamente com André Baud (1903-1986), organizam a primeira exposição de ceramistas de Vallauris, marcando o início de uma nova era para a região e para a cerâmica francesa.
Esta nova vaga de artistas aplica os grandes princípios do modernismo, fundindo formas expressionistas com uma sensibilidade mediterrânica. Duas tendências genéricas acabam por estabelecer-se, o interesse pelos temas animalistas e figuração humana e o interesse pelas decorações geométricas.


Robert Picault - Jarros, c.1950-60, Vallauris. Piasa

Robert Picault, integra a segunda opção, dedicando-se a explorar elementos decorativos geométricos de carácter abstracto. Estabeleceu-se individualmente, em 1948, logo desenvolvendo uma gramática decorativa particular, habitualmente aplicada em peças utilitárias.
Dominada por quadrados, círculos e triângulos, pintados à mão em tonalidades de castanho rosado, verde e azul sobre vidrado branco, esta gramática decorativa é pontuada por signos lineares esgrafitados, criando padrões complexos de execução livre.
A decoração do jarro de Staël aproxima-se do trabalho de Picault, não tanto pela forma, mas sobretudo pelo tratamento plástico da superfície, quer no cromatismo, quer no uso do esgrafito.
A produção de Picault alcançou imenso sucesso durante a década de 50, em 1955 a sua oficina já empregava 25 trabalhadores, dedicando-se também à produção de peças de estúdio de maior escala e  sendo vendida nos grandes armazéns internacionais.


Robert Picault - Jarro com asa dupla, 32 x 18 x 11 cm, c.1950-60, Vallauris. CornerShopDesign

Robert Picault - Jarro com asa dupla, 32 x 18 x 11 cm, c.1950-60, Vallauris. CornerShopDesign

Robert Picault - Jarro com asa dupla, marca de fabrico. CornerShopDesign


Robert Picault - Jarro, 29 x 10 cm, c.1950-60, Vallauris. CornerShopDesign

Robert Picault - Jarro, 29 x 10 cm, c.1950-60, Vallauris. CornerShopDesign

Robert Picault - Jarro, marca de fabrico. CornerShopDesign


Robert Picault - Prato compartimentado nº5, 22,5 x 21 cm, Vallauris, c.1970. eBay