Mostrar mensagens com a etiqueta António Areal. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta António Areal. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 2 de julho de 2013

Luiz Pacheco - "O Caso Ferreira da Silva"

No seguimento da anterior publicação Luiz Pacheco entrevista Luís Ferreira da Silva, reproduzimos agora o texto do mesmo autor, “O Caso Ferreira da Silva”.
Retomando antigas inquietações, Luiz Pacheco faz publicar este escrito de intervenção no folheto de título genérico "Maravilhas & Maravalhas Caldenses", em Outubro de 1966, anunciado como o primeiro de uma série. Este documento de dezoito páginas, impressas em stencil e  agrafadas, com tiragem de 100 exemplares numerados e assinados pelo editor, continha ainda uma carta ao ministro da Saúde e Assistência denunciando as debilidades da assistência materno-infantil nas Caldas da Rainha e o texto "Memorial, Na Morte de António Pedro". 
A publicação vem na sequência de outras anteriores, assinadas Delfim da Costa o Cangalheiro da Cidade, pseudónimo que servia de abrigo a vários autores. O escritor editava e vendia estes cadernos como fonte imediata de receitas, mas sobretudo pretendendo abalar o meio cultural e literário estabelecido, com conteúdos muitas vezes satíricos e de crítica de costumes.
O folheto imediatamente precedente, redigido apenas por Pacheco, foi lançado em Setembro de 1965, também nas Caldas da Rainha. Uma folha A3, dobrada em quatro, com o título "O Prato do Diabo. 30 Coplas de pé quebrado compostas e musicadas cantadas por Delfim da Costa, o Cangalheiro da Cidade". Essas coplas visavam os poetas sadinos, o filósofo António Quadros e o pintor Figueiredo Sobral (1926-2010), ridicularizado por Pacheco em várias ocasiões, após uma exposição de obras suas no Café Central, no Verão de 1965. Nestas quadras profere já elogiosa referência à produção da SECLA, a 'casa' de Ferreira da Silva:


(...)
Os que são de Arte ilustrados
Preferem uma outra tecla
Compram os barros assados
Na padaria da Secla. 
(...)



Conjunto de peças da autoria de Ferreira da Silva, SECLA, Anos 50 a 60. Colecção Jorge Ferreira, Caldas da Rainha. © CMP



Embora "O Caso Ferreira da Silva" se reporte à situação concreta do ceramista, aquando da atribuição, pela Fundação Calouste Gulbenkian,  de uma bolsa de estudo que permitirá a sua permanência em Paris, durante o ano seguinte, ele constitui sobretudo mais um documento de denúncia, entre os muitos produzidos por Pacheco, sobre a condição do artista (plástico ou literário) em Portugal, dos quais o mais lapidar seria "O Cachecol do Artista", que havia escrito sobre si próprio.


Luiz Pacheco, na Praça da República (também conhecida por 'Praça da Fruta') e no Casal da Rochida, Caldas da Rainha, c.1965.

Demonstrando genuína  preocupação com a situação de um amigo, Luiz Pacheco não deixa de tecer aguçada crítica ao modo com este se deixa tomar pelas circunstâncias, não permitindo que elas se alterem. Em carta dirigida a Jaime Salazar Sampaio (1925-2010), datada de 28 de Maio de 1966, Pacheco afirma sobre Ferreira da Silva: "ceramista dos melhores, dizem, que já duvido de tudo. Travei com este tipo, durante mais de um ano, aquele nosso conhecido combate: não te deixes ir abaixo! Faze o teu melhor! Luta pela tua Arte! Então esse orgulho?" Explica ainda que o artista teria acabado de perder, pela terceira vez, a bolsa da Gulbenkian e que recebera o Prémio Soares dos Reis do SNI, embora lhe tivesse afirmado que o recusara. "Falava-me numa homenagem a Espártaco em barro da Secla e o que faz é dançar o yé-yé. Coisa e outra, grandes dissabores ao procurar desviá-lo das meadas em que se debate!"


Ferreira da Silva, O Escriba (retrato de Luiz Pacheco), monotipia, Bombarral, 1966. Colecção do Partido Comunista Português (doação do escritor).

Luiz Pacheco resolve então tornar público este 'combate', editando "O Caso Ferreira da Silva":

"Uma cidade de passagem, sem vida cultural própria; um patronato guloso das horas, da imaginação criadora de quem o serve, e enredado, estandardizado no afã comercialista rotineiro; uma mulher limitada porém humaníssima nos seus anseios e reacções de fêmea, de mãe. Registo: uma esposa portuguesa, patrões egoístas portugueses, uma cidade pequenina e portuguesa conspiram, talvez inconscientemente, cada qual para seu lado, numa acção desconcertada mas não menos eficaz, não menos perigosa para a vítima; parecem todos apostados em; ou podem vir a estar em vias de DESTRUIR UM ARTISTA.
Como é de Caldas da Rainha que falo, era escusado dizer-lhe o nome, tão conhecido ele é. E não só nas Caldas, e não só no País inteiro (Prémio Soares dos Reis da Escultura, obtido em 1964 no Salão da Primavera da S.N.B.A.) mas internacionalmente. Um Artista português com audiência, com clientela internacional. ‘tá-qui diante de mim um papelinho impresso, dum senhoreco americano, Mister George H. Frost, de Nova-Iorque, bem explícito a tal respeito. Diz assim: “Unique studio pieces: each an original signed work of art. Pots, plaques, jars, jugs, bowls or purely imaginative creations; suitable for lamps, flower arrangements, etc., or to stand alone like fine statuary just for looking at and enjoying. Gay, witty, colorful, they are mostly the production of the portuguese ceramist, Ferreira da Silva”.



Publicidade às peças de Ferreira da Silva importadas para os EUA por George H. Frost, Frost Ceramic Imports, na publicação Building Products Guide for Interior Design and Decorating, 1960. Imagem publicada em A Nova Cerâmica da Caldas, da autoria de Alberto Pinto Ribeiro, 1989.


Ferreira da Silva - Garrafa decorativa, c.65 cm de altura, SECLA, década de 1960. Colecção do Museu da Cerâmica, Caldas da Rainha. © CMP



Mas este será, vamos! o ponto de vista do importador, de um Marchand que de tolo pouco tenha. E a crítica? Leia-se o nº37, Junho de 1962, da revista francesa Aujourd’hui, de Arte e Arquitectura, a pág. 55, numa nótula à II Exposição Gulbenkian, efectuada em Lisboa. Começa assim: “L’art portugais est à peu près inconnu à l’étranger. Les représentations officielles aux grandes biennales sont délaissées par la presque totalité des artistes portugais valables, les échanges culturels sont nuls et le Marché inexistant; on reste là-bas pratiquement coupé de la vie artistique internationale”. A entrada é desanimadora, mas passados 4 anos já, por certo, não se comprova pelos factos. Mas tenham a bondade de ler o último parágrafo da dita nótula: “Si les gravures exposées font état d’um mouvemente national assez intéressant (Cid, Charrua, Pomar), il n’en va pas de même avec la sculture oú, parmi de piètres oeuvres démodées (celles de Rocha, Cutileiro e Pomar mises à part) on ne saurait remarquer que l’inconformisme criant de Ferreira da Silva, par qui le scandale arriva à Lisbonne...” Assinado: J.A. França.



Capa da revista francesa Aujourd'Hui art et architecture, nº37, 1962.


Ferreira da Silva e escultura em ferro, exterior da SECLA, c.1966. Imagem publicada no Suplemento da Gazeta das Caldas dedicado a Ferreira da Silva, 28 de Dezembro de 2001.


Ferreira da Silva - Escultura de parede, ferro. Colecção Jorge Ferreira, Caldas da Rainha. © CMP



Ora esse é o drama actual (o talento por si só vale muito, mas se não zelarem por ele estiola) de Ferreira da Silva.
Conheço-o bem, a ele e ao seu drama. Há perto de dois anos, numa amizade atenta, numa camaradagem em que não lhe regateei louvores e apoios, mas soube ser também brusco e leal nos reparos, tive tempo de sobra para estudar e definir o seu tipo bastante singular. Dum ponto de vista estético, nele se congregam o artífice de vasta experiência com as características que marcam o Artista criador: carga instintiva, imaginação e, até, pendor humanista, porque é um revoltado de classe, um inconformista por temperamento. À humildade do artesão (é vê-lo na sua oficina da Secla, como reparei e sublinhei numa entrevista publicada no Jornal de Letras e Artes) alia-se o orgulho, a imponente, espectacular arrogância do Artista (é vê-lo cá fora na Praça, e isso Caldas inteira reparou já; é ouvi-lo como ataca, irado, as vaidadezinhas dos amadores, só simpáticos na sua pertinácia e, vá lá, úteis como público mais esclarecido num meio restrito como é o caldense).
Encaminhado desde muito novo para a vida artística, F.S. percorreu no campo da escultura, da cerâmica e também da gravura, desenho, pintura, todos os graus, cumpriu todas as tarefas, até atingir a posição de que hoje desfruta. É um profissional. Um mestre, principalmente em escultura e cerâmica. Quem sou eu, que percebo eu disso para o dizer? Mas di-lo (por exemplo) o Areal, o Nelson di Maggio, o Figueiredo Sobral. Repetiu-mo há dias a Clara de Oliveira que por duas vezes veio às Caldas aprender cerâmica com ele. Dizem-no, com a sua responsabilidade, os membros do júri da Fundação Gulbenkian que lhe atribuíram a bolsa, sem que o F.S. tenha nada do insistente maçador que não larga a Gulbenkian. Escreveu-lho o Sèlles Paez. Sabem-no todos os seus camaradas da Secla.



Ferreira da Silva, SECLA, c.1965. Imagem publicada no catálogo Estúdio SECLA - Uma Renovação na Cerâmica Portuguesa, edição do Museu Nacional do Azulejo, 1999.


Eu nem sei se os Caldenses já repararam bem, mas devem a este rapaz uma nova visão. Na verdade, vou a casa de um Amigo, a um consultório, visito um Mecenas e, de repente, estamos envolvidos numa atmosfera F.S., isto é, num mundo de formas e cor que o F.S. criou e é inconfundível. Aquele painel na Tertúlia, o belo mural em casa do Vítor Sebastião, o Ferro-velho do Vasco Luís (autêntico Museu F.S.), as esculturas e decorações do Inferno d’Azenha seriam, serão um dia lugar de romagem para turistas, a haver nesta terrinha um pouco de amor pelas coisas de cá, um serviço turístico a sério.



Fachada do Inferno d'Azenha, Caldas da Rainha. Fotografia © Margarida Araújo.


Inferno d'Azenha, Caldas da Rainha. Fotografia © Margarida Araújo. 


Ferreira da Silva - escultura em ferro, Inferno d'Azenha, Caldas da Rainha. Fotografia © Margarida Araújo.


Ferreira da Silva - placa cerâmica, Inferno d'Azenha, Caldas da Rainha. Fotografia © Margarida Araújo.



(...) Não lhe regateemos louvores, nem o poupemos em nossas críticas. Pergunta directa: como é que um Artista assim dotado pela Natureza e experimentado numa técnica, cuja bagagem cultural decerto não é tão extensa como seria de lhe exigir mas é muito mais vasta (e intensa, já que se trata de um instintivo, um sensual) do que ele aparenta; como é que um consagrado, já laureado, possuindo clientela e admiradores entre peritos, está em riscos de perecer (como Artista, bem entendido)? Isso é outra história, outra verdade. Na citada entrevista, Clara de Oliveira afirmou-me: “A Arte de F.S. não evoluiu nada de há um ano para cá”. Pode objectar-se que um ano, na vida de um Artista, conta pouco. Outrossim, poderá perguntar-se é se a criação do F.S. teria condições de evoluir, aqui, nesta encantadora pequena cidade de província, onde vale a pena vir só pelos pêcegos enormes... e aqui é que bate o ponto e somos todos aqui cúmplices ou culpados cada qual à sua escala nesta não-evolução. Caldas é um meio privilegiado para a criação artística, mas tanta facilidade conduz à dolce vita, ao farniente. Ao optimismo. E este, ao deixa andar, à repetição, à glóriola local que localmente se contenta. O mais precavido cai nisso. A tendência geral é para o nivelamento. Assim, meios esteticamente avançados, onde a competição é árdua, produzem artistas superiores; em meios de débil exigência, de vida fácil, os artistas são sugados para a facilidade, a não exigência consigo próprios. Falhos de convivência, de estímulo esclarecido, de público, em suma, tendem para o narcisismo, para a mitomania.
São palavras duras de ouvir?
A mim próprio as digo muitas vezes. No caso de Ferreira da Silva sabem-no muitos que não exagero. Que ele está nas melhores condições (de idade, de vigor oficinal, de ambições, de possibilidades materiais) de levar para a frente a sua criação. Dispõe de uma bolsa para se especializar em Paris. Façamos-lhe então uma homenagem pública e um favor pessoal que em nosso proveito reverterá (porque o que faz um Artista interessa a todos): incitemo-lo. Não o desviemos da sua carreira. Acreditemos nele e nela. O companheirismo fácil é cómodo. A convivência exige a lealdade. O caso (artístico) F.S. não está encerrado. Talvez, quem sabe?, vá entrar numa fase decisiva. Não estou, ninguém nas Caldas deve ficar, indiferente à sua personalidade como à sua obra futura."


Ferreira da Silva - Garrafa decorativa, 71,5 x 41 x 18 cm, SECLA, década de 1960. Colecção do Museu da Cerâmica, Caldas da Rainha. © CMP




Ferreira da Silva - Garrafa decorativa, 71,5 x 41 x 18 cm, SECLA, década de1960. Colecção do Museu da Cerâmica, Caldas da Rainha. © CMP



Ferreira da Silva - Garrafa decorativa, detalhe, SECLA, década de 1960. Colecção do Museu da Cerâmica, Caldas da Rainha. © CMP



Ferreira da Silva - Garrafa decorativa, c.75 cm de altura, SECLA, década de 1960. Colecção Jorge Ferreira, Caldas da Rainha. © CMP


Ferreira da Silva - Garrafa decorativa, detalhe, SECLA, década de 1960. Colecção Jorge Ferreira, Caldas da Rainha. © CMP


Ferreira da Silva - Garrafa decorativa, detalhe, SECLA, década de 1960. Colecção Jorge Ferreira, Caldas da Rainha. © CMP



Em 1967, Ferreira da Silva vai finalmente para Paris com bolsa da Fundação Gulbenkian. Ao deslumbramento cultural causado pela sua primeira saída do país, vem juntar-se a forte impressão causada pela entrada em ebulição do Maio de 68, que o marcará indelevelmente.
Desenvolve práticas de cerâmica e escultura na Academie de Paris - École Métiers d'Art (ENSAAMA), onde trabalha ainda técnicas como o vitral, o estafe ou a tapeçaria. Integra-se na diversidade de nacionalidades dos alunos que frequentavam a escola, como explica em entrevista à Gazeta das Caldas, Dezembro de 2001: "Já levava um conhecimento bom de cá que me dava a possibilidade de trabalhar com os professores e outros artistas. (...) Ainda hoje a minha formação continua agarrada a esses tempos."
A experiência parisiense não terá sido especialmente profícua em trabalho cerâmico. Embora em França, a cerâmica tivesse conhecido um enorme incremento após a II Guerra, com vários ceramistas vindos de Paris a estabelecerem-se no Sul, na região de Vallauris, as experiências desenvolvidas por Picasso na Madoura ou a obra de referência de George Jouve (1910-1964), este era um fenómeno aparentemente pouco absorvido pelos meios académicos. Assim, Ferreira da Silva parece não ter tido a oportunidade de prosseguir o experimentalismo que caracterizava o seu trabalho precedente, regressando a Portugal em Junho de 1968, com Maio ainda vivo na memória, pronto a operar uma viragem estética na sua produção cerâmica.  


Ferreira da Silva, Estúdio SECLA, 1968. Imagem publicada no Suplemento da Gazeta das Caldas dedicado a Ferreira da Silva, 28 de Dezembro de 2001.


Ferreira da Silva - placa cerâmica, SECLA, c.1969. Fotografia © Margarida Araújo.




Ver também:
Placas cerâmicas - Ferreira da Silva - SECLA
Candeeiro - Ferreira da Silva - SECLA



CMP* agradece ao coleccionador Jorge Ferreira e à fotografa e investigadora Margarida Araújo, pelas suas valiosas contribuições.


Nota: Transcrições de "O Caso Ferreira da Silva" e excertos de cartas, feitas a partir do suplemento da Gazeta das Caldas, de 11 de Janeiro de 2008, publicado aquando da morte de Luiz Pacheco. Imagens e informações adicionais retiradas do suplemento do mesmo jornal, dedicado a Ferreira da Silva, de 28 de Dezembro de 2001. Outras informações retiradas de: George, João Pedro - Puta que os Pariu!: A Biografia de Luiz Pacheco. Lisboa: Tinta da China, 2011. 





domingo, 14 de abril de 2013

Luiz Pacheco entrevista Luís Ferreira da Silva

A 21 de Junho de 1965, é publicada no Jornal de Letras e Artes uma entrevista a Luís Ferreira da Silva (n.1928) realizada pelo escritor e editor Luiz Pacheco (1925-2008), não identificado.
Em retiro forçado nas Caldas da Rainha, Pacheco estava a braços com a justiça, passando por extremas dificuldades económicas, já tornadas habituais, tanto pelo crescimento da prole, como pela incerteza do trabalho. A sua relação com a cidade estabelecera-se na infância, aí passando temporadas com o pai, em tratamento nas termas. O regresso às Caldas dá-se em finais de 1964, aí residindo com a família até 1967, ano em que é pela segunda vez encarcerado, desta feita na prisão local, sendo libertado no ano seguinte.
Durante a sua permanência na região, o escritor sedimenta relações de amizade, participando activamente na vida cultural da cidade, desenvolvendo discurso crítico, bastas vezes polémico, como sempre lhe foi característico, revelando, não raramente, enorme clarividência.
A sua proximidade com Ferreira da Silva, dá origem a dois documentos fundamentais para o entendimento, tanto do percurso do ceramista, como das circunstâncias que, nas Caldas da Rainha, enquadravam a produção de cerâmica moderna, e as suas repercussões no panorama artístico e industrial nacionais: a entrevista que hoje publicamos e o texto "O Caso Ferreira da Silva", impresso em 1966, no fascículo de título genérico "Maravilhas & Maravalhas Caldenses", que mais tarde publicaremos.


Luiz Pacheco e Ferreira da Silva, no Inferno D'Azenha, Caldas da Rainha, c.1965-66. Imagem publicada em "50 anos de Cerâmica Caldense 1930-1980", Casa da Cultura de Caldas da Rainha, 1990.


Em carta dirigida ao editor Bruno da Ponte (n.1932), datada de 18 de Junho de 1965, Luiz Pacheco pede-lhe que interceda a seu favor no Jornal de Letras e Artes, para que ali possa continuar a publicar alguns textos, nomeadamente a entrevista com Ferreira da Silva, que acabará por sair dias depois.
A 29 de Julho, após a publicação da entrevista, em carta dirigida a Mário Cesariny de Vasconcelos (1923-2006), na época a residir em Londres, Pacheco queixa-se mais uma vez das suas miseráveis condições de vida, "Nesse dia tinha eu ido à Secla (já te falo nesta) pedir algum dinheiro para as papas. Mas estava tão desanimado ou abatido, que passei uma hora ou mais a uns metros da porta da fábrica, e mais pertinho da porta do cemitério que é ali mesmo defronte, e nem coragem tive de pedir a massa."
Acrescenta ainda: "Por Letras e Artes: leste uma entrevista com o Ferreira da Silva. Falei-lhe em tempos que talvez aí por Londres se pudesse fazer uma exposição com peças dele, que são muito boas (como ceramista ele é Prémio Soares dos Reis (SNI) de escultura, mas depois de lhe atribuírem o prémio não lho pagaram ou ele não aceitou, é um caso confuso que ainda não pude tirar a limpo, razão por que a minha entrevista não se lhe refere). A coisa creio que teria interesse para o Dácio na sua qualidade oficial e despesas nenhumas, porque a Secla (fábrica onde o Ferreira da Silva todo lo manda, como artista, tá visto) poria aí as peças embaladas, seguradas, etc. Não sei se sabes que a produção ceramista é toda para fora (América principalmente) de modo que a exposição honraria o nome português e traria honra e proveito duma maneira geral. (...) Não descures este assunto, que suponho fácil de concretizar e muito proveitoso para Mano e Mano. Aliás, o FS que é um tímido e um inábil do ponto de vista da propaganda pessoal (levei 6 meses para lhe arrancar esta entrevista, começada logo em Janeiro) merece apoio. Ele tem tido bolsas da Gulbenkian para ir ao estrangeiro, mas duas vezes não lhe deram passaporte, doutra foi ele que se desleixou com uma matrícula ou documento que era preciso. Um empurrão, um estímulo para o libertar aqui das Caldas, eram justos, e foi isso que tentei começar com a entrevista. E se há mais tempo não te falei nisto ou ao Dácio era porque a entrevista seria o cartão de apresentação."

A 4 de Agosto, Mário Cesariny responde: "De Ferreira da Silva há o seguinte: hipótese de uma exposição na Casa de Portugal, em Londres. Se lhe agrada a ideia, ele que envie para aqui, Walton St., para o Dácio, o melhor que tiver em fotografias de obras FS."

Aparentemente a exposição não chegou a realizar-se, continuando Luiz Pacheco a interessar-se pela obra de Ferreira da Silva, posicionando-se publica e particularmente em sua defesa sempre que possível, como se comprovará com a publicação, no ano seguinte, de "O Caso Ferreira da Silva".



Ferreira da Silva, Caldas da Rainha, 1965. Um reenquadramento desta imagem ilustra a entrevista no Jornal de Letras e Artes.


A entrevista ao Jornal de Letras e Artes , tem como título A cerâmica é uma arte de cozinha, cem por cento pantagruélica!.
A frase de Ferreira da Silva, que Pacheco inteligentemente escolhe para título, dá o mote, definindo-o como essencialmente  um experimentalista.
Através deste texto ficamos a conhecer as referências artísticas do ceramista, bem com as suas reflexões sobre o trabalho dos artistas que, sem conhecimentos técnicos, se aventuraram na cerâmica, nomeadamente os que colaboraram com a SECLA ou que nas suas oficinas trabalharam.
Ferreira da Silva traça ainda um panorama da chamada cerâmica da Caldas, passado e presente, segundo uma perspectiva muito própria, bem como das possibilidades da sua internacionalização.


* * * * * *


"FERREIRA DA SILVA:
«A cerâmica é uma arte de cozinha, cem por cento pantagruélica!»

Não foi nada fácil conseguir esta entrevista. Ferreira da Silva, pelos entendidos considerado o nosso melhor ceramista actual (também com boas provas já dadas na escultura, gravura, desenho), mostra-se de uma modéstia que roça pela timidez. Habitualmente cáustico e expansivo, de um saudável inconformismo nas suas opiniões como nas atitudes, ao falar de si e do seu labor artístico ladeia a nossa curiosidade, sorri a medo, como que envergonhado...
E não é uma das facetas mais desconcertantes, menos cativantes,  da sua personalidade de artista, o contraste que observamos, em repetidas visitas ao seu «atelier» da Secla, nas Caldas da Rainha, desse gros gaillard apontando uma que outra peça sua, dando pormenores da factura, dos materiais nela usados, com um ar aparentemente vago, recolhido, aguardando a opinião alheia numa calma de artesão, sabedor e seguro do seu ofício, discreto nas ambições, consciente do caminho que pisa – e tendo nós na lembrança o seu arranjo e firmeza noutras ocasiões, a sua independência de espírito, de um homem do seu tempo, de um português civicamente empenhado nos valores que lhe incumbe defender.
A cerâmica caldense conta em Ferreira da Silva, mais do que um seu categorizado representante contemporâneo, conta nele antes como um inovador, que sabe aliar uma longa experiência oficinal a um gosto moderno, um perfeito domínio da técnica oleira à rebusca de novos materiais, o funcionalismo de certas peças ao sentido decorativo doutras, criando um estilo inconfundível no granitado da pasta, no colorido dos vidrados, na vasta gama de formas insólitas ou arcaizantes que procuram estilizar motivos tradicionais.
Está neste momento a apurar um processo inteiramente original (que lhe custou dois anos de experiências) com o emprego de pigmentos, entre eles o urânio e o cobalto, que metalizam a elevadas temperaturas. E as suas últimas produções são colagens, formadas por resíduos de louça industrial e objectos de série (tudo aquilo que os americanos compram entre nós por lhes sair muito mais barato do que na Itália ou no Japão...), em volumes assimétricos, como que estilhaçados, duma visão grotesca de um mundo que ainda não esqueceu Hiroxima.



Ferreira da Silva - Prato decorativo, 62,7 cm de diâmetro. SECLA, 1964. Imagem publicada em A Nova Cerâmica da Caldas, da autoria de Alberto Pinto Ribeiro, 1989.



Ferreira da Silva - Prato decorativo, 62,7 cm de diâmetro. SECLA, 1964. Imagem publicada no catálogo Estúdio SECLA - Uma Renovação na Cerâmica Portuguesa, edição do Museu Nacional do Azulejo, 1999.



Ferreira da Silva (que nasceu no Porto em 1930 [sic]), dos 14 aos 17 anos frequentou a Escola Técnica de Coimbra, tendo sido depois operário ceramista em Coimbra, Bombarral e Alcobaça, passando sucessivamente por todas as modalidades da profissão, desde forneiro, vidrador, modelador, pintor, até ceramista, concorreu a todos os certames da S.N.B.A. denominados Exposições Gerais de Artes Plásticas, dos Independentes, dos Artistas de Hoje, etc. Obras suas estiveram expostas em Espanha, Itália, Alemanha, Suécia. Realizou este ano uma exposição individual na Galeria 111 e vai muito em breve apresentar as suas últimas criações de escultura cerâmica na Galeria Divulgação, do Porto. Foi esse o pretexto para uma breve troca de impressões, que supomos do maior interesse para os nossos leitores recolher nestas colunas. Falando de cerâmica caldense, o nome que imediatamente nos ocorre é o de Rafael Bordalo Pinheiro que, a partir de 1884, imprimiu aos barros das Caldas um surto renovador, aliás seguindo a esteira preconizada por Bernard Palissy, um francês que vivera três séculos antes dele (1510-1599).
Quisemos por isso saber a opinião que um artista contemporâneo, e trabalhando na mesma região com idêntica matéria-prima, teria acerca de tão ilustre antepassado:
- No aspecto geral a obra de Bordalo Pinheiro é melancólica – responde-nos Ferreira da Silva, com um sorriso irónico. -  Bordalo foi um artista dotado, mas sujeito ao academismo, daí o quase sempre primário naturalismo das suas faianças. Sofrendo as influências estéticas da época em que viveu, o seu conceito de Arte restringia-o a transplantar a verdade objectiva para as suas criações, e frequentemente com um aglomerado de elementos decorativos que revelam um gosto abstruso.
Foi um caricaturista viril e atento, simbolizou factos políticos em pequenas figuras ainda hoje flagrantes de graça, soube caracterizar os tipos populares, dando-lhes vida e movimento, com uma intuição e um poder de observação geniais. Preferia isto ao pacato lirismo dos céus luminosos, aos fundos uniformes de atelier, à transparência das flores, à moleza dos frutos; àquelas naturezas-mortas que estavam então na moda. A louça caricatural de Bordalo surge-nos como uma intransigente e lúcida defesa do quotidiano. Não discordo dele nessa sua tendência para amar o progresso social, que nas suas caricaturas e barros se reflecte, sugerindo os caminhos que a tal levam. Mas, como é natural,  o meu conceito de cerâmica é hoje outro...
- Que muito gostaríamos que expusesse aos nossos leitores – atalhamos. 
- A cerâmica é uma arte de cozinha, cem por cento pantagruélica. Arte do fogo e da terra, uma das mais antigas manifestações do engenho humano e ainda hoje presente na vida de todos os dias, quer no aspecto funcional quer no aspecto decorativo, utilizando os métodos mais avançados (em Valadares temos uma estufa atómica, a única existente na Europa ocidental) como nas eras primitivas saía modelada pelas mãos rudes dos nossos bisavós das cavernas... Entendo a cerâmica, pelo menos a que eu faço, ou vou descobrindo, como uma forma de escultura policromada. Aquilo que se chama cerâmica caldense não passa, actualmente, dum gosto importado, ou da masturbação do que o Bordalo, na sua maioria, importou do Palissy...
Industrialmente, a cerâmica portuguesa vive para o mercado externo, isto no que respeita à louça utilitária. Para as peças únicas, de faiança artística, já vamos tendo um público esclarecido no mercado interno.



Ferreira da Silva - Recipientes, SECLA, Anos 60. Imagem publicada em A Nova Cerâmica da Caldas, da autoria de Alberto Pinto Ribeiro, 1989.



- Como profissional, para quem a modelação do barro não tem segredos, que pensa V. daqueles artistas (pintores ou escultores) que fazem esporadicamente cerâmica, que tentam a sua habilidade como ceramistas?
- As qualidades inatas de pouco servem ao artista se não forem amadurecidas, se não encontrarem possibilidades de se desenvolverem de um modo coerente. Quando um artista se interessa por uma matéria plástica, ainda não utilizada por ele, e tenta exprimir-se através dela, surge o conflito. O que se pretende dizer não se ajusta, ou dificilmente se ajusta, ao material que não se domina por completo, à técnica ainda incerta. Descobre-se, então, a existência dum terreno escorregadio, onde o nosso caminho é vacilante. Chamemos-lhe o ofício, a esse terreno vasto, essa longa paciência da aprendizagem e da prática artesanal. E, a pouco e pouco, vamos constatando também que a consciência do Artista não se fortalecerá senão na medida em que estiver criando uma sólida consciência profissional.
Esta consciência profissional será, assim, o esteio, sempre presente e sempre necessário a todos os voos da inspiração criadora; mas temos por outro lado de entendê-la, não como coisa limitada, abêcê rotineiro a decorar na escola, a imitar dos mestres e a repetir pela vida fora, mas como todo o aspecto da Cultura: num constante evoluir, em perpétua transformação. Como qualquer obra de Arte, uma cerâmica é sempre resultante de uma luta, melhor: de uma série de lutas. Desde o momento em que nasce na mente do Artista àquele em que cede o lugar a outra, processa-se um mixto de conquista e descoberta, no qual a vontade do Artista é rudemente posta à prova. E o preço da sua concreção encontra-se lá, precisamente onde o caminho lhe surgir mais árduo, a porta mais cerrada a todas as evasivas e a todas as tentações de facilidade.
- Fale-nos das influências que experimentou.
- Como todos os artistas sofri influências. Principalmente de José Dias Coelho, de Júlio Pomar (na minha fase neo-realista) e de António Areal, cuja influência e cultura muito admiro. Aprendi muito, também, com António Quadros, o pintor – nada de confusões! E não quero esquecer o nome de Afonso Angélico, um oleiro cá das Caldas, com quem durante dois anos fiz o meu último tirocínio na profissão.
Ir buscar o barro aos barreiros, escolhê-lo no próprio local, amassá-lo à catanada, trabalhá-lo como um honrado artífice de Barcelos, doseá-lo com outros materiais, escolher o processo de metalização, estudar a temperatura de cozedura são coisas dispensáveis, é certo, para quem disponha de uma aperfeiçoada engrenagem industrial... Mas não serão igualmente atributos (escolhos e vitórias) da própria profissão? Era esta a pergunta que eu gostava de fazer, e faço sempre que vem a propósito, a todos os ceramistas amadores, por muito respeitáveis que me pareçam as suas tentativas, ou reconhecendo até o elevado mérito de algumas delas.
- Como encara o papel da crítica portuguesa de artes plásticas, especialmente em relação à cerâmica?
- Antes de responder a essa pergunta melindrosa, tenho que abrir um preâmbulo... Sempre foi próprio da condição humana, o julgar. Ora a produção de faianças tornou-se uma indústria em larga escala. Quando a indústria se mascara de Arte, ou esta e a produção utilitária quase se confundem, é necessário valorizar e desvalorizar, julgar portanto. Para a criação de uma obra de Arte não basta, porém, adquirir uma certa habilidade técnica, mais ou menos divulgável; nem a exploração mais ou menos talentosa de certos motivos facilmente comercializáveis... 
Não pretendo deplorar, de modo algum, o facto das obras de Arte valerem dinheiro. Felizmente que o valem!... Mas acho censurável que muita produção meramente funcional se apresente como obra de Arte. Não precisamos de muitas obras, temos tantas, já tantas – para deitar fora!... Precisamos é de criações adultas: isto de produzir muito (e muito à pressa), sem olhar às consequências, é um sintoma do espírito mercantil que hoje domina certas camadas. Não quero acusar ninguém, e muito menos aqueles que se têm mostrado interessados em praticar nas cerâmicas (há os que nem cerâmicas fazem, mas falam!). Quero apenas denunciar uma condenável conduta portuguesa, acentuada nos últimos tempos, a qual pode chamar-se teorismo, que tem agravado o já lamentável estado de confusão e penumbra da nossa triste atmosfera artística.
- Portanto, uma crítica esclarecedora e honesta é indispensável, não é onde quer chegar?
- Com certeza. Mas a posição é perigosa. Sabe porquê? Porque hoje em dia somos todos críticos, todos fazemos crítica... Ora em meu entender, para conseguir ser um verdadeiro crítico de cerâmica é necessária uma pré-experiência, além de intuição e espírito crítico. Mas não é recomendável supor que toda a gente que, em Portugal, faz crítica de cerâmica possua esse privilégio...



Ferreira da Silva - Jarra, 31,5 cm de altura. SECLA, Anos 60.



- Projectos imediatos?
- Permita-me que não lhe responda, abonando-me com um exemplo venerável: Kafka quis que as suas obras fossem destruídas pelo mesmo imperativo que lhe impediu concluí-las: é que elas não tinham conclusão possível. Concluí-las, seria para Kafka  ter resolvido o mistério da vida, ter cortado o nó-górdio da sua angústia... Cada nova obra era uma nova interrogação – e ao mesmo tempo uma tentativa de resposta: concluir alguma, seria ter achado esta.
Não tenho por isso projectos... Viajo, como diria o Pessoa. Mas há muito que desejava prestar homenagem (com uma peça de escultura policromada por processo cerâmico) a um herói antigo, que lutou à sua maneira contra a servidão dos homens, contra a própria servidão: Espártaco. E nessa homenagem gostaria que ficasse englobada, significante, uma adesão pessoal a todos quantos, à sua maneira, hoje tentam o mesmo."


Peças de Ferreira da Silva na SECLA, Anos 60. Imagem publicada em A Nova Cerâmica da Caldas, da autoria de Alberto Pinto Ribeiro, 1989.




Nota: A entrevista é transcrita respeitando a grafia da época. Os excertos de cartas provêm do suplemento da Gazeta das Caldas, de 11 de Janeiro de 2008, publicado aquando da morte de Luiz Pacheco. Informações adicionais retiradas de: George, João Pedro - Puta que os Pariu!: A Biografia de Luiz Pacheco. Lisboa: Tinta da China, 2011.







-----------------------------

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

"Daily Life" - Cruzeiro Seixas

O Surrealismo, fundado por André Breton (1896-1966) em 1924, constitui-se como um espaço laboratorial para a criação de objectos intrigantes, explorando as vivências do quotidiano na sua dimensão absurda ou evocando os mistérios do subconsciente, através de um lirismo onírico.
Os objectos surrealistas, descendentes directos dos ready-mades de Marcel Duchamp (1882-1968) e das assemblagens Dada, combinam elementos aparentemente estranhos entre si, suscitando leituras múltiplas, muitas vezes metafóricas. Organizam-se em diversas tipologias, por exemplo: o Objet Trouvé, vindo da tradição das colagens Cubistas, que, como o nome indica, consiste na manipulação de objectos encontrados; ou o Poème-Objet, construção inventada por Breton, agregando vários objectos ou fragmentos, combinados com a escrita.
Embora este movimento artístico se tenha manifestado em território nacional, pela primeira vez, em 1940, só mais tarde Artur do Cruzeiro Seixas (n.1920) se assumirá como uma das suas figuras de referência, sendo responsável pela criação de alguns dos objectos mais significantes, no contexto do Surrealismo em Portugal. A sua obra estende-se ao desenho, pintura e poesia, mas é através dos objectos que melhor concretiza uma surpreendente capacidade de síntese.
Integrará o colectivo "Os Surrealistas", liderado por Mário Cesariny de Vasconcelos (1923-2006), dissidente do Grupo Surrealista de Lisboa, após cisão ocorrida em 1949. Seguidamente viaja para Angola onde vive durante vários anos. Expõe em Luanda, em 1953 e 1957, regressando a Lisboa em 1964.
Desses anos é originário "Daily Life", objecto actualmente pertencente à colecção da Fundação Cupertino de Miranda, em Vila Nova de Famalicão, entidade que alberga um vasto espólio dedicado ao Surrealismo em Portugal e onde foi criado, em 1999, o CES - Centro de Estudos do Surrealismo.
Esta peça pode ser vista, até 17 de Março de 2013, na mostra RISO: Uma Exposição a Sério, na Fundação EDP - Museu da Electricidade, em Lisboa.
"Daily Life" pode considerar-se um objet trouvé, uma chávena de chá, manipulada pelo artista, cuja asa foi transferida do exterior para o interior, de modo a pôr em causa os seus atributos funcionais, mas sobretudo a possibilitar novas leituras associadas a práticas e comportamentos do quotidiano.



Cruzeiro Seixas - Daily Life, 1954. FCM



Cruzeiro Seixas - Daily Life, 1954. FCM



Cruzeiro Seixas - Daily Life, 1954. FCM


A chávena mede 7 cm de altura por 15 cm de diâmetro, na totalidade, sendo mostrada sobre um suporte de madeira coberto por uma redoma de vidro, ambos parte da construção original, datada de 1954. Tanto o objecto como o suporte estão assinados, como se pode verificar na imagem acima.



Cruzeiro Seixas - assinatura.



Cruzeiro Seixas - Daily Life, 1954. FCM



Cruzeiro Seixas - Daily Life, 1954. FCM


Uma outra versão do mesmo objecto, foi produzida em 2005, com o título “Chávena com asa por dentro, como todos nós”, numa edição limitada, exclusiva para os sócios do Clube de Coleccionadores da Vista Alegre
Esta edição reproduz um original datado de 1967, de uma chávena em porcelana da Vista Alegre, Modelo L, decorada com pequenas rosas pintadas à mão, a que foi alterado o posicionamento da asa, tal como no original.
Mostrada como um objecto precioso, a chávena de Cruzeiro Seixas, eleva-se a esse estatuto através da manipulação levada a cabo pelo artista. A louça usada diariamente, ou em  rituais sociais como o chá, incorpora uma dimensão humana associada e este uso, convocando as relações entre intimidade e memória. 
Os comuns objectos do quotidiano adquirem pelo do uso, qualidades humanas que os objectos preciosos ou raros nunca chegam a ter. Neste sentido, a subversão de objectos por todos conhecidos e por todos usados questiona as acções quotidianas, pondo em causa valores dados como adquiridos. 
Os objectos personificam-se, ensaiam gestos de timidez, abandonam as suas funções, dando lugar ao absurdo. Como acontece no "Bule", peça posterior, que podemos ver mais abaixo, falamos de objectos introvertidos, como pessoas.



Cruzeiro Seixas - Chávena com a asa por dentro, como todos nós, 2005. VA



Cruzeiro Seixas - Chávena com a asa por dentro, como todos nós, 2005. VA



Sobre a “Chávena com a asa por dentro...” diz Cruzeiro Seixas, em 2006, em Agulha - Revista de Cultura:
"É vastíssima a bibliografia do Surrealismo, mas nos anos em que me aconteceram os primeiros Objectos, era pouquíssimo o que me tinha chegado às mãos. Nos anos 40, o nosso grande mérito, foi o de reinventar por conta própria Dada. Picasso e os seus Papiers Collés, os Readymade de Duchamp, os Merz de Schwitters, são no entanto de 1912! Os primeiros Cadavres-exquis são de 1925. E a primeira exposição de Objectos realizou-se em Paris (que então era o centro do mundo), em 1936. Nada disto chegava a Portugal, e felizmente (ou infelizmente?) coisas destas são ainda hoje da maior actualidade.
Em qualquer dicionário se encontrarão definições do Objecto Surrealista. Lichtenberg, em 1798 deixou-nos um curioso inventário de uma colecção de Objectos Absurdos, em que figura uma dupla colher para alimentar crianças gémeas!
Como resistir a encontros como este? Trata-se de verdadeiros “coup de foudre”. É o inusitado, mas principalmente o sentido poético.
Considero os Objectos que realizei como sendo o melhor da minha obra; produzi centenas de desenhos e pinturas, mas apenas guardo comigo avaramente os Objectos, o que mostra a profundidade a que se encontram no mar da minha alma.
Mário Cesariny tem um verso que considero muito belo, de que ele próprio numa entrevista disse ignorar o sentido; Ama como a estrada começa. O mesmo direi do meu Objecto de 1951, “L’Opresseur”, que junta um cubo branco, uma esfera preta, uma velha torneira, uma pluma, e que no entanto figura num dicionário (“Fernand Hazan Éditeur”, 1973), pela mão de um dos próximos colaboradores de André Breton, o Jose Pierre, que de certa forma renovou a crítica pictural, publicando textos nas revistas surrealistas “La bréche”, “Le surréalisme même”, “L’Archibras”; etc., etc.



Cruzeiro Seixas - "L'Opresseur", 1951. FCM


No Objecto está sempre presente “L’amour fou” com os encontros mais inesperados. Que sabemos nós de um búzio exposto lado a lado com uma chave fora de uso na Feira da Ladra? O Conde de Lautréamont refere, genialmente, o encontro sobre uma mesa de anatomia de uma máquina de costura com um chapéu-de-chuva.
Por certo um excesso de liberdade foi posto nas mãos dos homens, pois parece que, muito mal dela sabemos ainda hoje fazer uso…
O Objecto pode testemunhar de um encontro sublime, mas também pode contrariar a função de um produto industrial, como fez Man Ray no seu “Cadeau”, um ferro de passar roupa, em que a parte que deve deslizar sobre os tecidos está cravejada de pregos.




Man Ray (1890-1976) - "Cadeau", 1921.



Quando em 1967 percorri algumas cerâmicas propondo a realização desta Chávena, a recepção era a mais hostil, como se lhes estivesse a propor a obscenidade das obscenidades.
Não quero deixar de lembrar que, tendo enviado ao Areal uma fotografia desta Chávena, ele sobre essa fotografia pintou, em 1971, um líquido tinto de sangue, de onde lutam para se evadir dois terríveis personagens.




António Areal (1934-1978) - desenho sobre fotografia de Cruzeiro Seixas, 1971.



Somos obrigados a reconhecer que as palavras não são suficientes para DIZER o homem. E a sua insuficiência tem-se tornado dramática; resta-nos a poesia, a revolta, a blasfémia, a liberdade interior!
Embora seja enormíssima a parte de humor expressa no Objecto Surrealista, será prudente que ninguém se deixe ficar apenas por aí. Essa é por certo uma das armadilhas que nos põe esta superior forma de comunicação. De facto o Objecto Surrealista está sempre pleno de humor negro, e foi dentro desse espírito que pus a circular a seguinte frase: Chávena com a asa por dentro, como a maioria de nós…"


A ideia de introversão já ensaiada em "Daily Life", é retomada em "Bule", abaixo reproduzido. Mais uma vez a funcionalidade é destruída, o bico, elemento definidor da identidade do objecto, remete-se ao seu interior, espreitando através de um orifício na tampa, qual periscópio de submarino. Ensaia-se novamente um gesto de timidez, dando lugar à introversão.
Ambos, bule e chávena,  poderiam integrar o universo de Lewis Carroll (1832-1898), recusando-se a servir a Hatter o famoso chá, a que foi eternamente condenado. Carroll, bastas vezes referenciado como percursor do surrealismo, não previu, no entanto, esta recusa...
Claramente, num jogo de géneros, a chávena assume o papel feminino, feita de delicada porcelana, ornamentada com motivos florais; enquanto ao bule, quer pela configuração, quer pela rudeza dos materiais, cabe obviamente o papel masculino.

Esta peça, cuja concepção data de 1957, é produzida pela Fábrica de Loiça de Sacavém, em 1970, numa edição de trinta exemplares.
O bule manipulado é em faiança, mede cerca de 11 cm de altura, sendo esmaltado a aerógrafo, a creme e ocre, à semelhança de outras peças produzidas por Sacavém na mesma época.



Cruzeiro Seixas - "Bule", Fábrica de Loiça de Sacavém, 1957-1970. CML


A propósito dos objectos de Cruzeiro Seixas citamos Méret Oppenheim (1913-1985), uma das surrealistas que melhor equacionou a dimensão doméstica e os procedimentos sociais tradicionalmente associados ao universo feminino.
Os seus objectos questionam o papel da mulher e o modo como o género feminino é percepcionado pelo género oposto, temática particularmente pertinente no contexto surrealista. Experimentado directamente pela artista, já que se moveu no seio do grupo surrealista de Paris, tendo sido modelo de diversas fotos de Man Ray.
Dois dos seus mais famosos objectos datam de 1936, o primeiro Object (Le Déjeuner en fourrure), consiste numa chávena forrada com pele de gazela  e o segundo Ma gouvernante, My Nurse, mein Kindermädchen, é composto por um par de sapatos de salto alto, amarrados, depostos sobre uma travessa metálica.



Méret Oppenheim - "Object (Le Déjeuner en fourrure)", 1936. MoMA


A obra de Oppenheim encerra uma evidente dimensão erótica, comum aos objectos de Cruzeiro Seixas. A evocação de uma pretensa domesticidade, onde o domínio privado é tornado público, como numa denúncia.
A oposição e complementaridade entre os olhares feminino e masculino, fica assim enunciada nas escolhas dos dois artistas.

Méret Oppenheim - "Ma gouvernante, My Nurse, mein Kindermädchen", 1936.