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sábado, 23 de julho de 2016

Azulejaria moderna na exposição Fragmentos de Cor | Azulejos do Museu de Lisboa II


Continuação de: Azulejaria moderna na exposição Fragmentos de Cor | Azulejos do Museu de Lisboa I

Nota prévia: centrando-se apenas na produção do século XX, esta é a segunda de duas publicações cujo texto é integralmente reproduzido das legendas da exposição Fragmentos de Cor | Azulejos do Museu de Lisboa, que permanecerá no Pavilhão Preto do Museu de Lisboa - Palácio Pimenta até 25 de Setembro de 2016. 

Esta mostra permite a rara oportunidade de ver exemplares de azulejaria outrora integrados em edifícios da cidade de Lisboa, salvos e preservados graças à acção de cidadãos, serviços e funcionários autárquicos, contribuindo para reforçar a evidência de que a cidade seria muito mais rica e interessante caso tivesse sido possível a conservação destas obras in situ
Vale a pena continuar a tentar, começando pela visita a uma exposição motivadora.  



§ § §



Após um breve interregno que sucedeu à Exposição do Mundo Português, em 1940, o azulejo reapareceu associado às novas tendências da arquitectura moderna de expressão internacionalista, em grande parte devido à abertura a artistas jovens, da Fábrica de Cerâmica Viúva Lamego, dirigida por Mestre Eduardo Leite. À obra de pendor figurativo de Jorge Barradas, desenvolvida a partir de 1945, sucedem-se criações modernas muito variadas, como as seriadas de Fred Kradolfer (ver publicação anterior) e Hansi Staël, ou a associação de sugestões figurativas e de formas geométricas livres, admiravelmente conjugadas por Maria Keil no painel da Avenida Infante Santo (fragmento exposto) ou nas decorações das estações iniciais do Metropolitano de Lisboa.



Jorge Barradas - Talhas com temas de Lisboa, Fábrica Viúva Lamego, 1947. © CMP



Par de talhas com temas de Lisboa, da autoria de Jorge Barradas (1894-1971), executado na Fábrica Viúva Lamego, em 1947.
Peças cerâmicas de cariz decorativo, com pintura de acentuada delicadeza representando figuras populares de Lisboa, designadamente as vendedoras ambulantes de flores e fruta, tendo por fundo casario típico, afins de litografias com a mesma temática e inspiradas em ilustrações do autor na primeira fase da sua carreira. As tampas são rematadas com a modelação de um dos símbolos presente nas armas da cidade: a barca.
Estes exemplares foram encomendados para a decoração de algumas salas (República e Rosa Araújo) do edifício dos Passos do Concelho, aquando das comemorações do oitavo centenário da conquista de Lisboa aos mouros. 



Jorge Barradas - Talha, detalhe, Fábrica Viúva Lamego, 1947. © CMP



Jorge Barradas - Talhas com temas de Lisboa, Fábrica Viúva Lamego, 1947. © CMP



Jorge Barradas - Talha, detalhe, Fábrica Viúva Lamego, 1947. © CMP



Jorge Barradas - Talha, detalhe, Fábrica Viúva Lamego, 1947. © CMP



Jorge Barradas - Talha, detalhe, Fábrica Viúva Lamego, 1947. © CMP



Jorge Barradas foi um dos mais destacados precursores da cerâmica moderna em Portugal, nomeadamente a partir da primeira exposição de azulejos e cerâmicas, realizada no Palácio Foz (SNI) em 1945, na qual o painel abaixo reproduzido foi apresentado. No exemplar, Barradas parece ter sido inspirado em alguma pintura italiana do Quattrocento.
Este painel representa a Virgem Maria ofertando um fruto ao Menino ao seu colo. O tema surge sobre um fundo de árvores e casas, sendo envolvido por uma cercadura estilizada com vasos, ramagens floridas e um par de pássaros, na parte superior, ao centro.



Jorge Barradas - Virgem com Menino e Fruto, Fábrica Viúva Lamego, 1945. © CMP


Jorge Barradas - Virgem com Menino e Fruto, Fábrica Viúva Lamego, 1945. © CMP



Painel mural O Mar (fragmento) da autoria de Maria Keil (1914-2012), proveniente da Avenida Infante Santo, Lisboa. Executado na Fábrica Viúva Lamego, em 1958-59.
Composição parcial de um painel de formato rectangular, de grande dimensão, que constitui um dos referentes da obra de Maria Keil e da azulejaria moderna portuguesa. Representa um pescador de pé, a exibir um barco à vela e com uma criança ao colo, tendo como fundo outras embarcações do mesmo tipo. Toda esta figuração joga de maneira conexa e notável com as formas geométricas, as quais são constituídas a partir de uma matriz de losangos e fusos que variam com excepcional elasticidade de escala e proporção ao longo do painel, criando, por sua vez, uma malha que sugere as redes da faina da pesca.
O programa decorativo, de forte pendor geométrico, conjugava-se de forma admirável com o suporte arquitectónico onde se encontrava aplicado, de tal forma que, uma extensa escada que o atravessava, diagonalmente, era assimilada pela composição decorativa do painel, não constituindo elemento estranho ou intromissor.
Na Avenida Infante Santo, no muro onde estava o painel original (de que faz parte o fragmento exposto), foi colocado nos inícios deste século, uma réplica, feita a partir dos cartões originais da artista e produzida pela mesma fábrica, a Viúva Lamego.



Maria Keil - Fragmento do painel O MarFábrica Viúva Lamego, 1958-59. © CMP



Maria Keil - Fragmento do painel O Mar, detalhe, Fábrica Viúva Lamego, 1958-59. © CMP



Maria Keil - Fragmento do painel O Mar, detalhe, Fábrica Viúva Lamego, 1958-59. © CMP



Vista parcial da exposição Fragmentos de Cor | Azulejos do Museu de Lisboa. © CMP



Azulejos de padrão criados por Hansi Staël (1913-1961) para o Hotel Ritz, executados na Fábrica de Sant'Anna, c. 1957-58.
Padronagem moderna inspirada nas antigas composições de azulejo ponta de diamante. A decoração a azul, a verde, a roxo, a amarelo e a negro, em contraste com o esmalte branco, é realizada através de dois azulejos iguais, que se intercalam. organizando dessa forma pirâmides com e sem truncagem no vértice. Este padrão é conhecido por Ritz, por ter sido utilizado no bar do hotel com aquele nome, em Lisboa.



Hansi Staël - Detalhe do padrão Ritz, Fábrica de Sant'Anna, c. 1957-58. © CMP


Padrão formado por quatro azulejos diferentes, em tons predominantes de verde e amarelo, dando origem a uma composição dinâmica e geométrica, característica do início do movimento moderno em Portugal, no qual a artista Hansi Staël, de origem germano-húngara, teve um papel assinalável.
Este padrão foi concebido como ensaio para a decoração do revestimento da fachada norte do Hotel Ritz, em Lisboa e rejeitado, tendo a versão definitiva o mesmo desenho, mas com a substituição da cor verde por azul.


Hansi Staël - Ensaio de padrão para o Hotel Ritz, Fábrica de Sant'Anna, c. 1957-58. © CMP



Vista parcial da exposição Fragmentos de Cor | Azulejos do Museu de Lisboa. © CMP



Painel da antiga Livraria Ática, na Rua Alexandre Herculano, em Lisboa. Da autoria de José de Almada de Negreiros (1893-1970), executado na Fábrica Viúva Lamego, em 1955.
Painel decorativo em pintura policroma, que revestia a parede defronte da entrada da antiga Livraria Ática. Apresenta diversas figuras que reflectem a excepcional expressividade dos desenhos do autor. Ao meio da composição, a cena maternal num pequeno espelho de água.


Almada Negreiros - Painel da antiga Livraria Ática, Fábrica Viúva Lamego, 1955. © CMP



Almada Negreiros - Painel da antiga Livraria Ática, detalhe, Fábrica Viúva Lamego, 1955. © CMP


Almada Negreiros - Painel da antiga Livraria Ática, detalhe, Fábrica Viúva Lamego, 1955. © CMP



Almada Negreiros - Painel da antiga Livraria Ática, detalhe, Fábrica Viúva Lamego, 1955. © CMP



Painel de azulejos, Alto de Santa Catarina, da autoria de Manuel Cargaleiro (n. 1927), realizado na Fábrica Viúva Lamego, em 1969.
Painel policromo constituído por azulejos decorados individualmente com signos de cariz geometrizante e abstracto. É comum na obra do artista as composições recriarem aspectos e/ou sensações derivadas da malha urbana da cidade. 



Manuel Cargaleiro - Painel Alto de Santa Catarina, Fábrica Viúva Lamego, 1969. © CMP 


Maqueta da decoração em azulejos, em arte final (1993), do projecto para a cozinha de um apartamento na Rua dos Correiros, em Lisboa, ilustrando o projecto de revestimento de azulejos, da autoria de Querubim Lapa (1925-2016), realizado em 1988.
Na decoração, as paredes transformam-se num palco do imaginário associado à comida, com integração de cenas irónicas. Sobre o lava-loiça, uma figura masculina, de pé, quase totalmente envolvida por diversos tipos de peixes, assenta num plano aquático cuja linha do horizonte é recortada por barcos. No lado contrário, uma figura feminina, encontra-se coberta por frutos da terra, numa recriação de Pomona, a deusa da abundância e dos pomares. Vitualhas diversas surgem penduradas, como peixes (um deles fumando cachimbo) e carnes, respectivamente, sobre a chaminé e sobre um armário. Os aspectos divertidos ganham particular expressão nas representações debaixo de uma janela, com uma raposa sentada, tocando flauta junto de galináceos. Na profusão decorativa da complexa e irreverente composição, que não se esgota na descrição, Querubim remete para tradições iconográficas ligadas ao azulejo e à cozinha tradicional, percebendo-se influências das figurações híbridas maneiristas conciliadas aos excessos do barroco.


Querubim Lapa - Maqueta para cozinha, 1993, projecto executado da Fábrica Viúva Lamego, 1988. © CMP


Painel Cais das Colunas, realizado por Querubim Lapa nas oficinas da Escola António Arroio, em Lisboa, 1991.
Composição de azulejos cuja decoração foi obtida pela antiga técnica de aresta moldada, revestidos de vidrado de cor verde, corado com óxido de cobre. Representa linhas ondulantes na base, alusivas ao Rio Tejo, as duas colunas do cais do Terreiro do Paço e, distribuídas aleatoriamente, esferas armilares de duas dimensões, evocando o emblema do rei D. Manuel (1469-1521) que este mandou gravar em azulejos sevilhanos, nos inícios de Quinhentos, para decorar o Paço Real de Sintra.



Querubim Lapa - Painel Cais da Colunas, oficina da Escola António Arroio, 1991. © CMP



Querubim Lapa - Painel Cais da Colunas, detalhe, oficina da Escola António Arroio, 1991. © CMP



Painel cerâmico realizado pelo mesmo autor, nas oficinas da Escola António Arroio, em 1992, revela a capacidade criativa de Querubim Lapa, autor de uma obra múltipla que se revela tanto do ponto de vista técnico como em termos imagéticos. 
A composição é em grande parte formada por dois azulejos diferentes que insinuam perfis anatómicos e se repetem, alternando em xadrez. 
Esta matriz é alvo de um jogo de nuances ao nível da textura, cor e brilho dos vidrados, de beloe feito plástico, metamorfoseando-se, na parte superior do painel, ao centro, na silhueta de uma cabeça humana representada de perfil.


Querubim Lapa - Painel relevado, oficina da Escola António Arroio, 1992. © CMP



Querubim Lapa - Painel relevado, detalhe, oficina da Escola António Arroio, 1992. © CMP






domingo, 17 de julho de 2016

Azulejaria moderna na exposição Fragmentos de Cor | Azulejos do Museu de Lisboa I




Nota prévia: centrando-se apenas na produção do século XX, esta é a primeira de duas publicações cujo texto é integralmente reproduzido das legendas da exposição Fragmentos de Cor | Azulejos do Museu de Lisboa, que permanecerá no Pavilhão Preto do Museu de Lisboa - Palácio Pimenta até 25 de Setembro de 2016. 

Esta mostra permite a rara oportunidade de ver exemplares de azulejaria outrora integrados em edifícios da cidade de Lisboa, salvos e preservados graças à acção de cidadãos, serviços e funcionários autárquicos, contribuindo para reforçar a evidência de que a cidade seria muito mais rica e interessante caso tivesse sido possível a conservação destas obras in situ
Vale a pena continuar a tentar, começando pela visita a uma exposição motivadora.    



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O Museu de Lisboa dispõe de uma vasta coleção de azulejaria que, pelo número, variedade e qualidade dos exemplares, se afirma como uma das mais importantes do país, constituída, sobretudo, por azulejos provenientes  de edifícios demolidos ou remodelados, de  prédios em ruínas ou de intervenções arqueológicas
Tendo por objetivo dar a conhecer tão importante acervo, a presente exposição, comissariada por José Meco, um dos mais reputados especialistas nesta área, procura mostrar alguns dos melhores exemplares da coleção do Museu de Lisboa numa perspectiva diacrónica, desde o século XVI até à atualidade, exibindo exemplares, tanto de interior como de exterior, representativos de diferentes estilos e funcionalidades.


Exposição Fragmentos de Cor | Azulejos do Museu de Lisboa. © CMP


No início do século XX, as manifestações eclécticas e românticas do período anterior foram renovadas através de duas tendências dominantes, a Arte Nova, adoptada pela burguesia ligada ao comércio e indústria, presente na decoração das lojas (como a Casa Gomes Ferreira, na Baixa), e uma produção de tendência nacionalista e historicista, favorecida pelas camadas mais tradicionalistas e conservadoras, desenvolvida por Pereira Cão, Enrique Casanova, Leopoldo Battistini e Jorge Colaço, o principal mentor desta corrente.



Vista parcial da exposição Fragmentos de Cor | Azulejos do Museu de Lisboa. © CMP



O painel de azulejos, Por minha prima, com moldura original, é uma obra de Jorge Colaço (1868-1942) e foi realizado na Fábrica de Loiça de Sacavém, c. 1916.
Composição de cariz historicista em pintura policroma, com emolduramentos em madeira com ornatos neogóticos, que constituiu presente do pintor Jorge Colaço a uma prima, Jeanne Schmidt Lafourcade Rey Colaço (1858-1957), quando do seu casamento com o médico Leonardo de Sousa de Castro Freire. A noiva era filha do pianista e compositor Alexandre Rey Colaço, irmã da actriz Amélia Rey Colaço e mãe do arquitecto Leonardo Rey Colaço de Castro Freire. O painel representa um cavaleiro cristão, medieval, empenhando uma flor na mão direita e o escudo com a divisa "Por Minha Prima" na mão esquerda. A cena tem por fundo uma paisagem com castelo e uma ponte. Dois pequenos painéis heráldicos referentes aos noivos, com os nomes "Leonardo" e "Jeanne", ladeiam a composição.
Nos azulejos realizados até 1923 na Fábrica de Sacavém, com placas de "pó de pedra", Colaço, pintou sobre o vidrado incolor já cozido, obtendo assim efeitos aguarelados esbatidos, muito característicos da primeira fase da sua produção artística, que divergem da pintura tradicional do azulejo.



Jorge ColaçoPainel, Por minha prima, Fábrica de Loiça de Sacavém, c. 1916. © CMP



Jorge Colaço - Painel, Por minha prima, Fábrica de Loiça de Sacavém, c. 1916, detalhe. © CMP



Júlio A. César da Silva - painel publicitário, Fábrica de Loiça de Sacavém, inícios do século XX. © CMP 


O painel de azulejos Arte Nova, de cariz publicitário, realizado na Fábrica de Loiça de Sacavém, por Júlio A. César da Silva, no primeiro quartel do século XX, realiza uma alegoria à electricidade, representada por uma figura feminina, de pé, assente sobre globo terrestre, empunhado uma lâmpada com a mão direita levantada.
Encontrava-se aplicado na fachada de um estabelecimento comercial de artigos eléctricos, já destruído, na Rua Áurea, em Lisboa, apresentando em cima a legenda do nome da loja: Júlio Gomes Ferreira & Cª.
Este tipo de composições em azulejo foi frequente nos finais da centúria de oitocentos e primeiras décadas do século seguinte, período durante o qual pequenos industriais e comerciantes, através de uma hábil aliança entre a linguagem decorativa e publicitária procuravam atrair clientes aos seus estabelecimentos e transmitir, em simultâneo, uma nota de urbanidade e modernidade. Entre as lojas que então recorreram a este género de painéis (algumas já desaparecidas ou que mudaram de ramo), destacam-se a leitaria A Camponeza, o Animatógrafo do Rossio, a Padaria Inglesa e o Café Royal.



Júlio A. César da Silva - painel publicitário, Fábrica de Loiça de Sacavém, inícios do século XX, detalhe. © CMP



Júlio A. César da Silva - painel publicitário, Fábrica de Loiça de Sacavém, inícios do século XX, detalhe. © CMP



Júlio A. César da Silva - painel publicitário, Fábrica de Loiça de Sacavém, inícios do século XX, detalhe. © CMP



Vista parcial da exposição Fragmentos de Cor | Azulejos do Museu de Lisboa. © CMP



Conjunto de painéis, realizados na Fábrica de Cerâmica Constância, em 1905, que constituíam parte da decoração exterior da frente do antigo Café Royal, fundado em 1904. As composições figurativas, em azul de cobalto, estão assinadas P. Bonnatove (?) e representam: ambiente interior de café, com personagem sentada a uma mesa; figura feminina, subordinando legenda com anúncio (Água Castelo). As cenas estão envolvidas por cercaduras, relevadas policromas, Arte Nova, da autoria de Viriato Silva, que faziam o contorno dos vãos das portas, integrando vides, parras, cachos de uva, formando nos remates superiores de cada porta, ao centro, uma cabeça feminina.
Este estabelecimento, que se situava na esquina da Praça Duque da Terceira para a Rua do Alecrim, possuía uma das mais belas fachadas de Lisboa, em azulejos daquela corrente estética.



P. Bonnatove e Viriato Silva - painéis da fachada do antigo Café Royal, Fábrica Constância, 1905. © CMP


Composição figurativa, em cores quentes e de expressão sensual, características da estética Arte Nova, representando seis figuras masculinas, com contornos definidos, nuas da cintura para cima, trabalhando numa fundição. A peça estava aplicada no frontão de uma oficina de fundição, destruída, situada na Rua dos Remédios à Lapa, em Lisboa, e fazia par com uma outra, similar do ponto de vista técnico e decorativo, alusiva a uma forja. Este painel foi realizado por José António Jorge Pinto (1875-1945), principal pintor de azulejos Arte Nova, na Fábrica de Campolide, em 1906.



José António Jorge Pinto - painel A Fundição, Fábrica de Campolide, 1906. © CMP


As Arts Déco triunfaram na Europa no final da 1ª Guerra Mundial, em 1918, mantendo-se durante duas décadas e substituindo a liberdade formal da Arte Nova por motivos mais depurados e geometrizados, de excelente design, cuja essência é mais gráfica do que volumétrica. Para além da vasta produção de azulejos aerografados da Fábrica de Loiça de Sacavém, destacaram-se as criações da oficina de azulejos da Fábrica Lusitânia, ao Arco do Cego em Lisboa, dirigida por António Costa, onde o discreto relevo utilizado na separação das cores planas era obtido através de tubagem, como nos exemplares expostos, provenientes da fachada da loja da própria fábrica.



Oficina de António Costa - placa toponímica e painéis da antiga loja da Fábrica Lusitânia, c.1930-39.  © CMP


Silhares de azulejos policromos de estilo Arts Déco, formando composições geometrizantes. Foram decoradas através de tubagem (tubelining), técnica exclusivamente utilizada em Portugal pela Fábrica de Cerâmica Lusitânia, que consistia na aplicação com bisnagas, de barro líquido que caia em fio sobre a chacota, formando desse modo os limites relevados das decorações que eram seguidamente esmaltadas, sugerindo de certa forma as antigas técnicas hispano-mouriscas da aresta.
Estes exemplares, criados na oficina de azulejos dirigida por António Costa naquela unidade fabril, c. 1930-39, constituíam parte da ornamentação da fachada da loja da Fábrica Lusitânia, na Rua do Arco do Cego, Lisboa, servindo de suporte informativo ao tipo de materiais ali comercializados. O primeiro integra a legenda GRÉS/ REFRATÁRIOS, enquanto o outro, fazia a separação entre os artigos publicitados. Foram recolhidos pelo Museu da Cidade, em 1988, aquando da demolição da fábrica.


Oficina de António Costa - painel da fachada da antiga loja da Fábrica Lusitânia, c.1930-39.  © CMP



Oficina de António Costa - painel da fachada da antiga loja da Fábrica Lusitânia, c.1930-39.  © CMP



Oficina de António Costa - painel da fachada da antiga loja da Fábrica Lusitânia, detalhe, c.1930-39.  © CMP



Oficina de António Costa - painel da fachada da antiga loja da Fábrica Lusitânia, detalhe, c.1930-39.  © CMP



Fred Kradolfer (1903-1968) foi precursor em Portugal do design gráfico, tendo a sua actividade estendida desde as artes gráficas ao vitral, à cerâmica e à publicidade. 
Kradolfer é o autor do revestimento azulejar da Confeitaria de Santos, executado na Fábrica de Sant'Anna, Lisboa, e meados do século XX. Composição de feição bastante gráfica, organizadas de modo seriado, alternando três azulejos diferentes: um com uma barca e os corvos (Armas de Lisboa) sobre um fundo de linhas paralelas, simulando ondas; outro, só a repetir essas linhas; e o restante, com simplificadas volutas, enquadrando traços arqueados, dispostos na vertical e que intercalam silhuetas de aves. Os dois exemplares, ambos em verde e vermelho, mas com as cores trocadas entre si, encontravam-se a revestir uma confeitaria na zona de Santos-o-Velho.




Fred Kradolfer - azulejos da antiga Confeitaria de Santos, Fábrica de Sant'Anna, meados do Séc. XX. © CMP 



Fred Kradolfer - azulejos da antiga Confeitaria de Santos, Fábrica de Sant'Anna, meados do Séc. XX. © CMP 



Fred Kradolfer - azulejos da antiga Confeitaria de Santos, Fábrica de Sant'Anna, meados do Séc. XX. © CMP 



Vista parcial da exposição Fragmentos de Cor | Azulejos do Museu de Lisboa. © CMP


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segunda-feira, 1 de junho de 2015

Painéis da Casa da Sorte, Lisboa - Querubim Lapa

A Casa da Sorte, situada na confluência entre a Rua Ivens e a Rua Garret, no coração do Chiado, em Lisboa, consubstancia um dos mais completos e integrados projectos conjuntos, realizados por um arquitecto e um artista, no século XX, em Portugal. 
Resultante da colaboração do arquitecto Francisco Conceição Silva (1922-1982) com o ceramista Querubim Lapa (n.1925), este estabelecimento comercial está actualmente desocupado e prestes a ser reconvertido. 
Urge, uma vez mais, chamar à atenção para a sua importância no contexto da história da arte e da arquitectura portuguesas, pelo seu carácter único e excepcional. 
Defendendo a protecção deste edifício, em que exterior e interior constituem um todo, uno e indissociável, fazemos votos de que seja devidamente conservado e celebrado pelos seus novos proprietários.



Querubim Lapa - fachada da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP



Querubim Lapa - fachada da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963. Fotografia de Garcia Nunes, 1966  AML




A Casa da Sorte do Chiado, projectada em 1962 e inaugurada no ano seguinte, representa o culminar da colaboração entre artista e arquitecto, que vinha a ser desenvolvida e aprimorada desde 1955, com a participação de Querubim Lapa no projecto da loja Rampa, situada no Largo Rafael Bordalo Pinheiro e posteriormente destruída.
A fachada da Rampa, um corajoso rasgo de modernidade, era constituída por um plano envidraçado deixando ver todo o interior da loja, apenas seccionado pelo pórtico concebido pelo ceramista, um aro em betão revestido por placas cerâmicas policromadas que enquadrava uma porta igualmente em vidro, dando continuidade à restante fachada.
Querubim Lapa, cujo primeiro trabalho para arquitectura fora o desenho do revestimento azulejar de padrão para o Centro Comercial do Restelo, a convite do seu autor, o arquitecto Raul Chorão Ramalho (1914-2002), terá no pórtico da Rampa a sua primeira intervenção estrutural num projecto arquitectónico. Já que Conceição Silva pensará a fachada em função do pórtico, tal como este é concebido em função da sua integração na fachada.
Obra maior, a maturidade atingida na Casa da Sorte só é possível após um vasto conjunto de experiências, entre as quais podemos destacar os painéis relevados para os pavilhões portugueses no Comptoir Suisse; na Exposição Universal de Bruxelas e o grande mural da pastelaria Mexicana (actual motivo de preocupação). 



Querubim Lapa - pórtico da loja Rampa, Viúva Lamego, 1955. Imagem publicada na revista Atrium, nº1, 1959.



A instituição comercial Casa da Sorte foi fundada em Braga, em 1933, por António Augusto Nogueira da Silva (1901-1976), com a missão de desenvolver e expandir a Lotaria Nacional, transformando-se a longo prazo no maior requisitante oficial da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. 
A empresa cresceu rapidamente, abrindo lojas no Porto, Lisboa e Coimbra, em 1938, 1940 e 1948, respectivamente. Seguidamente expandiu-se para as províncias ultramarinas de Angola e Moçambique, com vários novos estabelecimentos, entre 1952 e 1970.
A primeira loja em Lisboa, inaugurada na Praça D. Pedro IV, em 1940, contém uma representação tridimensional de grande escala da Rainha D. Leonor, cerâmica da autoria de Jorge Barradas (1894-1971). No entanto, esta é uma peça independente, pensada como uma homenagem à fundadora das Misericórdias e acrescentada posteriormente, já na década de 60, sem relação directa com o projecto arquitectónico. Nogueira da Silva, apreciador de cerâmica, é responsável por várias encomendas de monta a Jorge Barradas, destinadas à sua habitação em Braga, actual Museu Nogueira da Silva, onde ainda se encontram expostas.
Assim, seria Barradas o natural escolhido para trabalhar no projecto do Chiado, tendo sido ele o responsável pela indicação do jovem Querubim Lapa, seu companheiro de trabalho na fábrica Viúva Lamego, onde ambos tinham ateliers individuais.




Querubim Lapa - fachada da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP


Com o projecto de Conceição Silva, a cerâmica irá alcançar um peso determinante na concepção do espaço. Na loja do Chiado, arquitecto e artista trabalham conjuntamente na criação de um objecto cuja orgânica assenta na expressão plástica dada pelo revestimento das paredes. Um espaço de pequenas dimensões, onde a fachada, sóbria de claros azuis e brancos, perfeitamente integrada num contexto de construção Pombalina, funciona em continuidade com o interior, através de uma suave transição cromática, enquadrando uma surpresa dominada por uma paleta de cores quentes e formas exuberantes. 
Na Casa da Sorte do Chiado, Querubim Lapa utiliza placas cerâmicas de grande formato em alternativa ao azulejo convencional. Numa sensível intervenção, suficientemente conservadora no exterior, de modo a evitar o conflito com a envolvente, propõe uma leitura moderna da paleta de cores herdada da azulejaria Pombalina, explorando as texturas e os vidrados em toda a superfície dos revestimentos exterior e interior.
Segundo explicações dadas pelo artista, a dimensão das placas cerâmicas terá sido a maior possível, 20 x 30 cm, respeitando as condicionantes de execução existentes na fábrica de cerâmica Viúva Lamego. O desenho do espaço foi concebido pelo arquitecto em função destas dimensões, tomadas como módulo no sentido clássico do termo, unidade de medida para a concepção do espaço. Não estamos portanto perante uma obra de fachada, pelo contrário, a articulação entre interior e exterior é determinante no entendimento do espaço, concebido como obra de arte total.



Querubim Lapa - fachada da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP



Querubim Lapa - detalhe da fachada da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP



Querubim Lapa - fachada da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP



Querubim Lapa - detalhe da fachada da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP



Querubim Lapa - detalhe da fachada da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP


A temática tratada na figuração desenvolvida nos revestimentos cerâmicos, está centrada em referências ao jogo, segundo uma leitura aberta e universal da ideia de destino, sorte ou azar. Os números, o pentagrama ou os signos zodiacais, são elementos facilmente identificáveis, tanto no exterior como no interior. 


Querubim Lapa - detalhe da fachada da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP



Querubim Lapa - detalhe da fachada da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP



Querubim Lapa - detalhe do revestimento do interior da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP


Querubim Lapa - detalhe do revestimento do interior da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP



Querubim Lapa - revestimento do interior da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP



Querubim Lapa - painel com espelhos, interior da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP



Querubim Lapa - detalhe do revestimento do interior da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP



Querubim Lapa - detalhe do revestimento do interior da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP



Querubim Lapa - detalhe do revestimento, com espelho, interior da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP



Querubim Lapa - detalhe do revestimento do interior da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP



Querubim Lapa - detalhe do revestimento do interior da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP



Querubim Lapa - detalhe do revestimento do interior da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP



Querubim Lapa - detalhe do revestimento do interior da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP



Atelier Conceição Silva - detalhe dos puxadores de porta, Casa da Sorte, 1963.  © CMP


A Casa da Sorte do Chiado, contém também a primeira experiência em cobre esmaltado realizada por Querubim Lapa, um painel executado nas oficinas da Escola de Artes Decorativas António Arroio, onde o artista leccionava.
Seguindo a temática tratada nos revestimentos das paredes, o número como alegoria do destino, este friso decorativo está suspenso na parede por de trás do balcão, ao nível do olhar dos espectadores que dele se aproximem.

A técnica da esmaltagem sobre placas de cobre, sofre nesta época uma renovação paralela à acontecida na cerâmica de autor, sendo particularmente utilizada em pormenores decorativos em arquitectura, mobiliário e objectos de menor escala. Um dos artistas que mais se destacou no seu uso foi Luís Ralha (1935-2008), autor de frisos decorativos, puxadores de portas e também de pequenos objectos que pontuavam os interiores modernos. A ele se devem os puxadores das portas do Hotel do Mar, 1963, ou as placas esmaltadas embutidas no mobiliário desenhado por Daciano da Costa (1930-2005) para a Reitoria da Universidade de Lisboa, em 1961.

Os esmaltes de Querubim Lapa para a Casa da Sorte, destacam-se pela densidade das cores e solidez das formas, constituindo um contraponto à fluidez e transparência cromática por si obtidas nos revestimentos das paredes. Esta intensidade de azuis ultramarinos e vermelhos estará, por sua vez, em perfeita consonância com os painéis em madeira de tonalidades quentes que revestem o balcão e a parede de fundo.



Querubim Lapa - painel em cobre esmaltado, Casa da Sorte, 1963.  © CMP



Querubim Lapa - detalhes do painel em cobre esmaltado, Casa da Sorte, 1963.  © CMP



Como afirma Rui Afonso Santos em "Querubim Lapa | Cerâmicas", Ed. Inapa, 2001: 
"Ao seu termo, a Casa da Sorte resultou num projecto notável de arquitectura e decoração, com perfeita unidade e integração plástica, ainda hoje intacta e felizmente preservada."
Esperemos que assim continue por muitos anos, a bem da conservação do património arquitectónico e artístico do século XX, em Portugal.





Nota: As fotografias que ilustram esta publicação foram obtidas em 2011, com a Casa da Sorte aberta ao público e em plena laboração. 
Abaixo podem ver-se imagens que ilustram o seu estado actual.



Querubim Lapa - fachada da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP



Querubim Lapa - fachada da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP