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sábado, 24 de setembro de 2011

Azulejos - Conceição Silva - SECLA

Em meados dos Anos 50, o arquitecto Conceição Silva (1922-1982) foi convidado  por Alberto Pinto Ribeiro (1921-1989), fundador da SECLA e seu condiscípulo na Escola de Belas-Artes de Lisboa, a desenhar um azulejo para revestimentos interiores e exteriores, o chamado 5x5, produzido nos anos seguintes com enorme sucesso.
Este azulejo foi profusamente utilizado durante a década seguinte, tal como muitos outros, produzidos por diversas fábricas, segundo os mesmos princípios: relevo de formas geométricas, em negativo ou positivo, com vidrados monocromáticos lisos, opacos ou transparentes, baços ou brilhantes.
Conceição Silva, percursor da renovação da arquitectura de interiores, sobretudo em espaços comerciais de referência na baixa Lisboeta, como a Rampa ou a livraria do Diário de Notícias, manteve a colaboração com a SECLA no o seu projecto Hotel do Mar em Sesimbra, para onde encomendou um serviço de mesa exclusivo e uma linha de acessórios e peças decorativas que contribuíram para a definição da imagem do hotel.
O arquitecto é ainda autor do azulejo 10x20 cm, concebido especialmente para a Praça do Marquês de Pombal em Lisboa, tendo ganho para a SECLA o concurso da Câmara Municipal que permitiu a aplicação de 3000 m2 de área de azulejo, numa das praças centrais da cidade.


Conceição Silva / SECLA, azulejo 5x5, vidrado mel. © CMP

Reforçando as características funcionais da azulejaria tradicional, este género de revestimento é muito mais resistente às alterações climáticas e à passagem do tempo, do que o reboco pintado, tão utilizado na arquitectura portuguesa e cuja manutenção é bastante mais dispendiosa por ser necessária mais frequentemente.
Cumpre a tradição, associando o espírito funcional a um vocabulário moderno, permitindo a criação de enormes superfícies de cor,  animadas por texturas que proporcionam eficientes efeitos gráficos, visíveis a grandes distancias.
Como pode verificar-se no edifício da década de 60, reproduzido abaixo, situado na esquina da Avenida Óscar Monteiro Torres com a Rua David de Sousa em Lisboa, onde a totalidade da superfície exterior é revestida com o azulejo da autoria de Conceição Silva para a SECLA, em vidrado azul.



Edifício com revestimento em azulejos 5x5, azul, Conceição Silva / SECLA © CMP


Edifício com revestimento em azulejos 5x5, azul, Conceição Silva / SECLA © CMP



Edifício com revestimento em azulejos 5x5, azul, Conceição Silva / SECLA © CMP


Conceição Silva / SECLA, revestimento em azulejos 5x5, azul.  © CMP

Conceição Silva / SECLA, revestimento em azulejos 5x5, azul.  © CMP

Conceição Silva / SECLA, revestimento em azulejos 5x5, azul.  © CMP


Conceição Silva / SECLA, revestimento em azulejos 5x5, azul.  © CMP


Conceição Silva / SECLA, revestimento em azulejos 5x5, azul.  © CMP


Conceição Silva / SECLA, revestimento em azulejos 5x5, azul.  © CMP


O mesmo azulejo, disposto de forma diferente, reveste parte das fachadas da Pastelaria Biarritz, situada no Largo Frei Heitor Pinto, em Alavalade.


Fachada lateral da Pastelaria Biarritz, azulejos 5x5, azul, Conceição Silva / SECLA © CMP

Pastelaria Biarritz, azulejos 5x5, azul, Conceição Silva / SECLA © CMP



Estes azulejos foram também muito utilizados no revestimento de zonas de transição entre interior e exterior.
No caso reproduzido abaixo, o vestíbulo de um edifício  situado na Rua Oliveira Martins em Lisboa, são usados exemplares com vidrado cor de mel, estabelecendo uma boa ligação entre as tonalidades quentes dos painéis de madeira, presentes no interior e na pala exterior e o brilho metálico da caixilharia em alumínio.
Aqui o efeito de padrão é criado a partir de um jogo entre horizontais e verticais, obtido através da rotação dos módulos, contribuindo para um resultado substancialmente diferente do visível no edifício reproduzido acima, demonstrando algumas das variações de aplicação possíveis .

Vestíbulo com revestimento em azulejos 5x5, mel, Conceição Silva / SECLA © CMP
Conceição Silva / SECLA, revestimento em azulejos 5x5, mel.  © CMP

Detalhe de revestimento em azulejos 5x5, mel, Conceição Silva / SECLA.  © CMP

Detalhe de revestimento em azulejos 5x5, mel, Conceição Silva / SECLA.  © CMP


Detalhe de revestimento em azulejos 5x5, mel, Conceição Silva / SECLA.  © CMP


Rectangular ou quadrado, fabricado em vários tamanhos, estes tipo de azulejo tornou-se  excessivamente popular durante a década de 70. 
Foi usado como revestimento exterior de inúmeros  edifícios, muitas vezes em soluções facilitistas, com profusas aplicações em construções de  desenho duvidoso, ao sabor das conveniências económicas ou do gosto dos empreiteiros, acabando por cair em desuso durante a década de 80.



segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Vestíbulo de edifício na Av. EUA, Lisboa - Cecília de Sousa

Os novos bairros orientais de Lisboa desenvolveram-se ao longo dos Anos 40, segundo  planos  do arquitecto e urbanista João Guilherme Faria da Costa (1906-1971), seguindo-se-lhes o conjunto da Av. dos Estados Unidos da América, situado a noroeste dos anteriores, parte integrante de uma concepção abrangente, prevendo cerca cinco mil habitantes. 
O projecto entrava em ruptura com o princípio tradicional de rua-corredor, ainda em vigor na Av. de Roma, propondo a implantação de edifícios assentes sobre pilotis, de maior escala, perpendiculares à via de circulação.
A urbanização desta artéria é composta por várias fases de construção, sendo os conjuntos habitacionais da responsabilidade de diferentes equipas de arquitectos. 


Av. dos EUA, 1958. O referido edifício pode ver-se do lado esquerdo. AML


Nestas edificações, a colaboração de artistas plásticos e a incorporação de intervenções artísticas, sobretudo na fase inicial, até finais da década de 50, deve-se tanto a imposições legislativas, como à genuína vontade de desenvolvimento de um trabalho integrado por parte de arquitectos e artistas, na concretização dos princípios fundamentais do modernismo.
Num dos edifícios do lado Oeste, projecto de 1957 da autoria do arquitecto Licínio Cruz (1914-?),  a ceramista Cecília de Sousa (n.1937) é convidada a colaborar na concepção do vestíbulo, elaborando um conjunto azulejar composto por  vários planos, capaz de materializar a relação entre interior/exterior. 



Edifício na Av. dos EUA, arquitecto Lucínio Cruz, 1957. © CMP


Instalado numa antecâmara totalmente envidraçada, o painel, articulado em três paredes, contribui para definir um espaço de transição, funcionando em diálogo permanente com o exterior.


Vista exterior do vestíbulo. © CMP


Cecília de Sousa concluiu o Curso de Cerâmica da Escola de Artes Decorativas António Arroio em 1955, tendo sido, nesse mesmo ano, convidada a integrar a equipa da Fábrica Viúva Lamego como pintora de loiça.
O seu espírito de iniciativa e qualidades criativas garantiram-lhe o privilégio de desenvolver experiências como autora nas instalações da fábrica, acabando por contribuir para a actualização do catálogo de produtos da empresa, em especial as encomendas de gosto moderno. 
Mestre Leite da Silva, um dos proprietários da Viúva Lamego, havia iniciado a atribuição de  oficinas individuais a artistas com o convite feito a Jorge Barradas (1894-1971), cerca de 1945, sendo esta prática continuada  com ceramistas das gerações seguintes, como Manuel Cargaleiro (n.1927) ou Querubim Lapa (n.1925), promovendo a consolidação da cerâmica de autor de linguagem moderna, na segunda metade do século XX. 
Na senda dos seus predecessores, em 1957, Cecília de Sousa acede a espaço oficinal próprio, um casulo, como se chamavam estas oficinas individuais, que ficara vago com a ida do seu  mestre, Manuel Cargaleiro,  para Paris.   
Nesse mesmo ano, a ceramista expõe  individualmente pela primeira vez, na Rampa. Espaço singular, a Rampa propôs uma renovação no contexto do modernismo em Portugal,  seguindo a tradição do arts & crafts, dedicava-se a comercializar objectos utilitários de autor com qualidades e acabamentos de produção manual. 
A mítica loja, projectada em 1956 por Conceição Silva (1922-1982) com a colaboração de José Santa Rita (1929-2001), rapidamente  adquiriu o estatuto de referência no panorama das artes decorativas em Portugal.  



Inauguração da primeira exposição de Cecília de Sousa na Rampa, 1957. Imagem publicada no catálogo A minha segunda casa... Cecília de Sousa, obra cerâmica 1954-2004, edição do Museu Nacional do Azulejo, 2004.


Cecília de Sousa inicia então uma profícua colaboração com o arquitecto  Conceição Silva, no desenvolvimento de inúmeros revestimentos e guarnições cerâmicas, trabalhando ainda noutros tantos projectos com os arquitectos Lucínio Cruz, Andrade Barreto e Oskar Pinto Lobo (1913-1995) e com os designers José Espinho e Carlos Ribeiro.
Na sua primeira experiência arquitectónica, o vestíbulo na Av. EUA, a ceramista concebe um painel articulado em três secções, enquadrando a porta do ascensor.
  

Vista geral. © CMP


 © CMP

Nesta obra inicial, de maior escala, Cecília de Sousa resolve de forma eficiente os problemas de escala dos elementos pictóricos e de adequação das tonalidades cromáticas, que, a partir de uma gradação de cinzas, vão adquirindo a textura pétrea do restante revestimento, fundindo-se numa atmosfera una.


Plano lateral, pode ver-se a aproximação do painel ao restante revestimento. © CMP


Neste painel, a autora utiliza uma técnica já anteriormente ensaiada em peças de pequena escala, onde várias velaturas sobrepostas são obtidas através de sucessivas cozeduras e raspagens do vidro. 
Este é o processo tradicional para retoque de peças de faiança, em que uma fina camada de cola é aplicada para facilitar a aplicação da seguinte camada de tinta. 
A ceramista transforma assim um processo que anteriormente servia para corrigir erros técnicos, num recurso meramente plástico, aumentando a noção de profundidade das texturas e os valores tácteis da superfície pictórica.


Detalhe da superfície. © CMP


© CMP


Detalhe do plano frontal, pode ver-se a articulação entre os elementos pictóricos a o painel metálico do elevador. © CMP


Assinatura com data de 1959. © CMP


Ainda de referir, neste mesmo vestíbulo, o puxador da porta que dá para o exterior, constituído por uma placa cerâmica, com cores quentes em vidrados de altas temperaturas.




© CMP




Detalhe do puxador da porta da rua. © CMP