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quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

"Daily Life" - Cruzeiro Seixas

O Surrealismo, fundado por André Breton (1896-1966) em 1924, constitui-se como um espaço laboratorial para a criação de objectos intrigantes, explorando as vivências do quotidiano na sua dimensão absurda ou evocando os mistérios do subconsciente, através de um lirismo onírico.
Os objectos surrealistas, descendentes directos dos ready-mades de Marcel Duchamp (1882-1968) e das assemblagens Dada, combinam elementos aparentemente estranhos entre si, suscitando leituras múltiplas, muitas vezes metafóricas. Organizam-se em diversas tipologias, por exemplo: o Objet Trouvé, vindo da tradição das colagens Cubistas, que, como o nome indica, consiste na manipulação de objectos encontrados; ou o Poème-Objet, construção inventada por Breton, agregando vários objectos ou fragmentos, combinados com a escrita.
Embora este movimento artístico se tenha manifestado em território nacional, pela primeira vez, em 1940, só mais tarde Artur do Cruzeiro Seixas (n.1920) se assumirá como uma das suas figuras de referência, sendo responsável pela criação de alguns dos objectos mais significantes, no contexto do Surrealismo em Portugal. A sua obra estende-se ao desenho, pintura e poesia, mas é através dos objectos que melhor concretiza uma surpreendente capacidade de síntese.
Integrará o colectivo "Os Surrealistas", liderado por Mário Cesariny de Vasconcelos (1923-2006), dissidente do Grupo Surrealista de Lisboa, após cisão ocorrida em 1949. Seguidamente viaja para Angola onde vive durante vários anos. Expõe em Luanda, em 1953 e 1957, regressando a Lisboa em 1964.
Desses anos é originário "Daily Life", objecto actualmente pertencente à colecção da Fundação Cupertino de Miranda, em Vila Nova de Famalicão, entidade que alberga um vasto espólio dedicado ao Surrealismo em Portugal e onde foi criado, em 1999, o CES - Centro de Estudos do Surrealismo.
Esta peça pode ser vista, até 17 de Março de 2013, na mostra RISO: Uma Exposição a Sério, na Fundação EDP - Museu da Electricidade, em Lisboa.
"Daily Life" pode considerar-se um objet trouvé, uma chávena de chá, manipulada pelo artista, cuja asa foi transferida do exterior para o interior, de modo a pôr em causa os seus atributos funcionais, mas sobretudo a possibilitar novas leituras associadas a práticas e comportamentos do quotidiano.



Cruzeiro Seixas - Daily Life, 1954. FCM



Cruzeiro Seixas - Daily Life, 1954. FCM



Cruzeiro Seixas - Daily Life, 1954. FCM


A chávena mede 7 cm de altura por 15 cm de diâmetro, na totalidade, sendo mostrada sobre um suporte de madeira coberto por uma redoma de vidro, ambos parte da construção original, datada de 1954. Tanto o objecto como o suporte estão assinados, como se pode verificar na imagem acima.



Cruzeiro Seixas - assinatura.



Cruzeiro Seixas - Daily Life, 1954. FCM



Cruzeiro Seixas - Daily Life, 1954. FCM


Uma outra versão do mesmo objecto, foi produzida em 2005, com o título “Chávena com asa por dentro, como todos nós”, numa edição limitada, exclusiva para os sócios do Clube de Coleccionadores da Vista Alegre
Esta edição reproduz um original datado de 1967, de uma chávena em porcelana da Vista Alegre, Modelo L, decorada com pequenas rosas pintadas à mão, a que foi alterado o posicionamento da asa, tal como no original.
Mostrada como um objecto precioso, a chávena de Cruzeiro Seixas, eleva-se a esse estatuto através da manipulação levada a cabo pelo artista. A louça usada diariamente, ou em  rituais sociais como o chá, incorpora uma dimensão humana associada e este uso, convocando as relações entre intimidade e memória. 
Os comuns objectos do quotidiano adquirem pelo do uso, qualidades humanas que os objectos preciosos ou raros nunca chegam a ter. Neste sentido, a subversão de objectos por todos conhecidos e por todos usados questiona as acções quotidianas, pondo em causa valores dados como adquiridos. 
Os objectos personificam-se, ensaiam gestos de timidez, abandonam as suas funções, dando lugar ao absurdo. Como acontece no "Bule", peça posterior, que podemos ver mais abaixo, falamos de objectos introvertidos, como pessoas.



Cruzeiro Seixas - Chávena com a asa por dentro, como todos nós, 2005. VA



Cruzeiro Seixas - Chávena com a asa por dentro, como todos nós, 2005. VA



Sobre a “Chávena com a asa por dentro...” diz Cruzeiro Seixas, em 2006, em Agulha - Revista de Cultura:
"É vastíssima a bibliografia do Surrealismo, mas nos anos em que me aconteceram os primeiros Objectos, era pouquíssimo o que me tinha chegado às mãos. Nos anos 40, o nosso grande mérito, foi o de reinventar por conta própria Dada. Picasso e os seus Papiers Collés, os Readymade de Duchamp, os Merz de Schwitters, são no entanto de 1912! Os primeiros Cadavres-exquis são de 1925. E a primeira exposição de Objectos realizou-se em Paris (que então era o centro do mundo), em 1936. Nada disto chegava a Portugal, e felizmente (ou infelizmente?) coisas destas são ainda hoje da maior actualidade.
Em qualquer dicionário se encontrarão definições do Objecto Surrealista. Lichtenberg, em 1798 deixou-nos um curioso inventário de uma colecção de Objectos Absurdos, em que figura uma dupla colher para alimentar crianças gémeas!
Como resistir a encontros como este? Trata-se de verdadeiros “coup de foudre”. É o inusitado, mas principalmente o sentido poético.
Considero os Objectos que realizei como sendo o melhor da minha obra; produzi centenas de desenhos e pinturas, mas apenas guardo comigo avaramente os Objectos, o que mostra a profundidade a que se encontram no mar da minha alma.
Mário Cesariny tem um verso que considero muito belo, de que ele próprio numa entrevista disse ignorar o sentido; Ama como a estrada começa. O mesmo direi do meu Objecto de 1951, “L’Opresseur”, que junta um cubo branco, uma esfera preta, uma velha torneira, uma pluma, e que no entanto figura num dicionário (“Fernand Hazan Éditeur”, 1973), pela mão de um dos próximos colaboradores de André Breton, o Jose Pierre, que de certa forma renovou a crítica pictural, publicando textos nas revistas surrealistas “La bréche”, “Le surréalisme même”, “L’Archibras”; etc., etc.



Cruzeiro Seixas - "L'Opresseur", 1951. FCM


No Objecto está sempre presente “L’amour fou” com os encontros mais inesperados. Que sabemos nós de um búzio exposto lado a lado com uma chave fora de uso na Feira da Ladra? O Conde de Lautréamont refere, genialmente, o encontro sobre uma mesa de anatomia de uma máquina de costura com um chapéu-de-chuva.
Por certo um excesso de liberdade foi posto nas mãos dos homens, pois parece que, muito mal dela sabemos ainda hoje fazer uso…
O Objecto pode testemunhar de um encontro sublime, mas também pode contrariar a função de um produto industrial, como fez Man Ray no seu “Cadeau”, um ferro de passar roupa, em que a parte que deve deslizar sobre os tecidos está cravejada de pregos.




Man Ray (1890-1976) - "Cadeau", 1921.



Quando em 1967 percorri algumas cerâmicas propondo a realização desta Chávena, a recepção era a mais hostil, como se lhes estivesse a propor a obscenidade das obscenidades.
Não quero deixar de lembrar que, tendo enviado ao Areal uma fotografia desta Chávena, ele sobre essa fotografia pintou, em 1971, um líquido tinto de sangue, de onde lutam para se evadir dois terríveis personagens.




António Areal (1934-1978) - desenho sobre fotografia de Cruzeiro Seixas, 1971.



Somos obrigados a reconhecer que as palavras não são suficientes para DIZER o homem. E a sua insuficiência tem-se tornado dramática; resta-nos a poesia, a revolta, a blasfémia, a liberdade interior!
Embora seja enormíssima a parte de humor expressa no Objecto Surrealista, será prudente que ninguém se deixe ficar apenas por aí. Essa é por certo uma das armadilhas que nos põe esta superior forma de comunicação. De facto o Objecto Surrealista está sempre pleno de humor negro, e foi dentro desse espírito que pus a circular a seguinte frase: Chávena com a asa por dentro, como a maioria de nós…"


A ideia de introversão já ensaiada em "Daily Life", é retomada em "Bule", abaixo reproduzido. Mais uma vez a funcionalidade é destruída, o bico, elemento definidor da identidade do objecto, remete-se ao seu interior, espreitando através de um orifício na tampa, qual periscópio de submarino. Ensaia-se novamente um gesto de timidez, dando lugar à introversão.
Ambos, bule e chávena,  poderiam integrar o universo de Lewis Carroll (1832-1898), recusando-se a servir a Hatter o famoso chá, a que foi eternamente condenado. Carroll, bastas vezes referenciado como percursor do surrealismo, não previu, no entanto, esta recusa...
Claramente, num jogo de géneros, a chávena assume o papel feminino, feita de delicada porcelana, ornamentada com motivos florais; enquanto ao bule, quer pela configuração, quer pela rudeza dos materiais, cabe obviamente o papel masculino.

Esta peça, cuja concepção data de 1957, é produzida pela Fábrica de Loiça de Sacavém, em 1970, numa edição de trinta exemplares.
O bule manipulado é em faiança, mede cerca de 11 cm de altura, sendo esmaltado a aerógrafo, a creme e ocre, à semelhança de outras peças produzidas por Sacavém na mesma época.



Cruzeiro Seixas - "Bule", Fábrica de Loiça de Sacavém, 1957-1970. CML


A propósito dos objectos de Cruzeiro Seixas citamos Méret Oppenheim (1913-1985), uma das surrealistas que melhor equacionou a dimensão doméstica e os procedimentos sociais tradicionalmente associados ao universo feminino.
Os seus objectos questionam o papel da mulher e o modo como o género feminino é percepcionado pelo género oposto, temática particularmente pertinente no contexto surrealista. Experimentado directamente pela artista, já que se moveu no seio do grupo surrealista de Paris, tendo sido modelo de diversas fotos de Man Ray.
Dois dos seus mais famosos objectos datam de 1936, o primeiro Object (Le Déjeuner en fourrure), consiste numa chávena forrada com pele de gazela  e o segundo Ma gouvernante, My Nurse, mein Kindermädchen, é composto por um par de sapatos de salto alto, amarrados, depostos sobre uma travessa metálica.



Méret Oppenheim - "Object (Le Déjeuner en fourrure)", 1936. MoMA


A obra de Oppenheim encerra uma evidente dimensão erótica, comum aos objectos de Cruzeiro Seixas. A evocação de uma pretensa domesticidade, onde o domínio privado é tornado público, como numa denúncia.
A oposição e complementaridade entre os olhares feminino e masculino, fica assim enunciada nas escolhas dos dois artistas.

Méret Oppenheim - "Ma gouvernante, My Nurse, mein Kindermädchen", 1936.




quinta-feira, 26 de abril de 2012

Varinas da série "Arte Nova" - Maria de Lourdes Castro - Fábrica de Loiça de Sacavém

Os temas folclóricos e regionais foram explorados abundantemente nas artes decorativas, durante a vigência do Estado Novo em Portugal, sendo parte essencial da construção da identidade nacional através de imagens muitas vezes estereotipadas e de apreensão fácil.
Vários artistas das sucessivas gerações do modernismo abordaram o tema de forma mais ou menos moderna, consoante as situações e exigências do contexto: exposições internacionais, cartazes e folhetos turísticos, delegações do SNI (Secretariado Nacional de Informação), etc.
Na produção cerâmica do pós Guerra, as figuras folclóricas começam a ser tratadas de modo menos ilustrativo,  revelando uma maior plasticidade das formas e sobretudo uma notória fuga ao carácter descritivo da imagem.
As figuras de varinas que Maria de Lourdes Castro (n.1934) concebeu para a série Arte Nova da Fábrica de Loiça de Sacavém, são um bom exemplo desta abordagem. 
A Figura de Varina A-18 e a Figura de Peixeira (Nazarena) A-27, com cerca de 20 cm de altura, contêm uma expressividade dada pelo tratamento das formas e aplicação das cores e um dinamismo expresso pelo gesto e pelo esvoaçar das vestes. Qualidades estas que acabam por demonstrar maior competência na modelação, provavelmente executada pelo escultor José Pedro (1907-1981), do que propriamente no desenho.


Maria de Lourdes Castro/FLS - Figura de Varina A-18 e Figura de Peixeira (Nazarena) A-27. © JMPF

Na tabela de preços de 1960, cedida pelo Centro de Documentação Manuel Joaquim Afonso do Museu de Cerâmica de Sacavém, estas figuras aparecem com o preço de 100$00, como pode ver-se abaixo. 
Destas páginas constam ainda os preços de um conjunto de peças já aqui referenciadas:

A-9 Galheteiro galinha
A-10 Floreiro patinho
A-11 Cinzeiro patinho
A-13 Prato cinzeiro
A-21 Jarro nº4
A-22 Tijela
A-23 Jarra nº2
A-24 Azevinho grande
A-26 Azevinho pequeno


Tabela de preços de 1960, Fábrica de Loiça de Sacavém. © CDMJA-MCS


A pose mais tradicional da Figura de Peixeira (Nazarena) A-27, segurando a canastra com uma das mãos e um grande peixe com a outra, garante a elegância do porte, remetendo a dinâmica para o movimento da saia e o esvoaçar do cachené. É de salientar o jogo de linhas curvas sobre a cintura, dado pelo entrelaçar do braço com o peixe.


Maria de Lourdes Castro/FLS - Figura de Peixeira (Nazarena) A-27. © JMPF



Maria de Lourdes Castro/FLS - Figura de Peixeira (Nazarena) A-27. © JMPF



Maria de Lourdes Castro/FLS - Figura de Peixeira (Nazarena) A-27. © JMPF



Maria de Lourdes Castro/FLS - Figura de Peixeira (Nazarena) A-27, marca de fábrica. © JMPF


Esta peça está representada na folha de modelos da série Arte Nova, abaixo reproduzida, cedida pelo CDMJA-MCS.
Desta folha constam também o Tigelão A-25, a Folha de Eucalipto A-29 (cujo preço se pode ver na tabela acima reproduzida) e o Copo A-35, já anteriormente aqui publicado.


Folha de modelos da série Arte Nova. © CDMJA-MCS

A Figura de Varina A-18, quebra a pose clássica para dar lugar a um dinamismo dramático. 
O braço no ar, o lenço e avental que esvoaçam, conferem-lhe uma dimensão cinematográfica, como uma personagem captada no desenrolar de uma acção. 
Figuras de vulto perfeito, mudando a cada diferente ângulo de visão, estas varinas são também objectos de grande fragilidade. 
Os membros superiores afastados do corpo e os tecidos esvoaçantes quebram facilmente, sendo difícil na actualidade encontrar peças intactas.


Maria de Lourdes Castro/FLS - Figura de Varina A-18. © JMPF


Maria de Lourdes Castro/FLS - Figura de Varina A-18. © JMPF

No caso desta figura, a marca não aparece pintada na base mas sim gravada à mão, apenas A-18.


Maria de Lourdes Castro/FLS - Figura de Varina A-18, marca de fábrica. © JMPF


CMP* agradece a colaboração de José Manuel Pinheiro de Figueiredo, não só pela cedência de imagens de peças da sua colecção, mas também pelo trabalho adjacente de pesquisa que está na origem desta publicação.
Agradece ainda a colaboração do Museu de Cerâmica de Sacavém, pelos esclarecimentos prestados e pela cedência de imagens do seu centro de documentação.



segunda-feira, 26 de março de 2012

Desenhos da série "Arte Nova" - Maria de Lourdes Castro - Fábrica de Loiça de Sacavém

Com o objectivo de complementar publicações anteriores e tornar visíveis mais alguns elementos e informações sobre a série Arte Nova da Fábrica de Loiça de Sacavém, publicamos a reprodução digitalizada de duas folhas de modelos referentes a esta série, pertencentes ao Centro de Documentação Manuel Joaquim Afonso do Museu de Cerâmica de Sacavém.
Na folha de modelos abaixo reproduzida, com a referência nº1563 do CDMJA-MCS, intitulada " Peças decorativas modelo Arte-Nova", podemos ver os seguintes modelos:

A-5 Cinzeiro sempre em pé
A-6 Caixa para cigarros
A-7 Frasco decorativo
A-8 Caixa para pó de arroz
A-9 Galheteiro galinha
A-10 Floreiro patinho
A-11 Cinzeiro patinho
A-13 Prato cinzeiro

 Folha de modelos da série Arte Nova. © CDMJA-MCS


Maria de Lourdes Castro/FLS - Cinzeiro sempre em pé A-5. © CDMJA-MCS Foto publicada no catálogo Maria de Lourdes Castro: Uma Exposição Biográfica, edição do Museu Nacional do Azulejo, 2005.

O Cinzeiro sempre em pé A-5, já aqui anteriormente publicado, aparece referido no catálogo Maria de Lourdes Castro: Uma Exposição Biográfica, edição do Museu Nacional do Azulejo, 2005, com a seguinte legenda: 
"Pequena taça, 1958-1959 
Faiança moldada e pintada, cozida a 1080º
6 x 13 x 11 cm
Assinada FLS/M.L.C., pintado a preto na base e não datada.
Executado na Fábrica de Louça de Sacavém
Colecção da autora"


Maria de Lourdes Castro/FLS - Frasco decorativo A-7, na foto acompanhado do copo A-35. © CDMJA-MCS © CMP

O Frasco decorativo A-7, aqui publicado, aparece acompanhado dos copos modelo A-35, sobre uma bandeja ou prato de grandes dimensões. Todos elementos apresentam decorações geométricas, sem marca de fábrica, e fazem parte do acervo do MCS.
Estas peças encontram-se em exibição na mostra A Geometria das Cores, que apresenta uma selecção de peças e desenhos de inspiração geométrica, produzidos sobretudo entre as décadas de 30 e 60.
A exposição, destinada a celebrar o 11º aniversário do Museu, estará patente até ao final de Março de 2012.

De outra folha de modelos, pertencente ao CDMJA-MCS, constam as seguintes peças:

A-21 Jarra nº4
A-22 Tijela
A-23 Jarra nº2
A-24 Azevinho grande
A-26 Azevinho pequeno


Folha de modelos da série Arte Nova. © CDMJA-MCS


Maria de Lourdes Castro/FLS - Jarra nº4 A-21. © CDMJA-MCS © HPS

A Jarra nº4 A-21, aqui publicada, embora apareça na folha com a designação "Jarra", pela sua forma e funcionalidade aproxima-se mais de um jarro ou gomil, contentor de líquidos.




Maria de Lourdes Castro/FLS - Jarra nº2 A-23. © CDMJA-MCS © MAFLS
A Jarra nº2 A-23, foi publicada pelo blogue Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém, bem como a folha de modelos que a inclui e outras peças e desenhos da série Arte Nova. A decoração deste exemplar é da autoria do pintor Nuno Lopes (1920-1974).



CMP* agradece ao Centro de Documentação Manuel Joaquim Afonso do Museu de Cerâmica de Sacavém a cedência de imagens dos seus arquivos bem como todas as informações prestadas, sem as quais seria impossível esta publicação. 
Agradece ainda ao autor do blogue Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém a cedência de imagens e informações, desejando que este profícuo intercâmbio se mantenha e fortaleça.


sábado, 25 de fevereiro de 2012

Jarro da série "Arte Nova"- Maria de Lourdes Castro - Fábrica de Loiça de Sacavém

Nos anos 50 a Fábrica de Loiça de Sacavém dá início à série Arte Nova, com a finalidade de renovar o design da sua produção, modernizando-o de forma a acompanhar as propostas de outras fábricas nacionais como a SECLA ou a Aleluia. A escolha da designação Arte Nova, responsável por alguns equívocos, já que nada tem a ver o movimento Art Nouveau, remete para dois conceitos fundamentais: a modernidade das formas e a sua base natural, uma vez que todas elas revelam uma liberdade biomórfica, também ela característica da Art Nouveau, mas aqui já sob influência dos movimentos escandinavos emergentes na década de 40 e a cerâmica italiana da década de 50.

Outras peças da mesma série:
Barco da série "Arte Nova" - Maria de Lourdes Castro - Fábrica de Loiça de Sacavém
Varinas da série "Arte Nova" - Maria de Lourdes Castro - Fábrica de Loiça de Sacavém
Desenhos da série "Arte Nova" - Maria de Lourdes Castro - Fábrica de Loiça de Sacavém
Pratos e Castiçal - Maria de Lourdes Castro - Fábrica de Loiça de Sacavém
Prato, garrafa e copos da série "Arte Nova" - Maria de Lourdes Castro - Fábrica de Loiça de Sacavém
Este jarro(a), parte da série Arte Nova, apenas marcado "Sacavem", aparece referenciado na folha de modelos da fábrica com a designação A-21 Jarra nº 4, podendo nele reconhecerem-se as  referidas características, a acrescer a uma enorme liberdade formal associada ao experimentalismo na utilização dos esmaltes, tanto na cor como nas texturas.


Maria de Lourdes Castro - Jarra nº 4 A-21, 24 x 22 cm, c.1960, FLS. © HPS



Maria de Lourdes Castro - Jarra nº 4 A-21, detalhe, c.1960, FLS. © HPS



Maria de Lourdes Castro - Jarra nº 4 A-21, detalhe, c.1960, FLS. © HPS



Maria de Lourdes Castro - Jarra nº 4 A-21, detalhe, c.1960, FLS. © HPS



Maria de Lourdes Castro - Jarra nº 4 A-21, detalhe, c.1960, FLS. © HPS



Maria de Lourdes Castro - Jarra nº 4 A-21, detalhe, c.1960, FLS. © HPS



Fábrica de Loiça de Sacavém - Jarra nº 4 A-21, marca de fábrica. © HPS


Concebidas por Maria de Lourdes Castro (n.1934), no período entre 1955 e 1959, as peças da série Arte Nova apresentam  características comuns no que diz respeito aos vidrados e às texturas, tirando partido dos escorridos, de modo a transpor para a cerâmica  a componente matérica típica do Informalismo ou o Expressionismo Abstracto, correntes artísticas dominantes nas décadas de 40 e 50.  Como pode verificar-se pelas peças abaixo reproduzidas.


Maria de Lourdes Castro - Cinzeiro Sempre em pé A-5, 6 x 13 x 11 cm, 1958-1959. Imagem publicada no catálogo Maria de Lourdes Castro: Uma Exposição Biográfica, edição do Museu Nacional do Azulejo, 2005.

Maria de Lourdes Castro - Jarro n.º 1 A-33, 23 cm de altura, c.1960, FLS. MdS Leilões


Abaixo pode ver-se outro gomil da série Arte Nova, produzido no final da década 50, com marca manuscrita na base "F. L. Sacavém A-44 B". Esta série manteve-se em produção até finais da década de 70.


Maria de Lourdes Castro - Jarro N.º 5 A-44, 35 x 15 cm, FLS. Camões Institute Center


Este tipo de forma foi ensaiado um pouco por toda a Europa, especialmente na Alemanha e em Itália, podendo também ser encontrado na América do Norte, de onde destacamos as peças fabricadas pela canadiana Blue Mountain Pottery.
Da produção italiana damos como exemplo um gomil da autoria de Matteo Di Lieto (1920-1970), célebre ceramista de Amalfi.  
Di Lieto fundou a oficina Arte Ceramica Amalfi em 1940, aí trabalhando até 1970, ano em que faleceu. O seu filho Gaspare continuou a tradição do uso de vidrados experimentais sobre formas elementares, até ao fecho da empresa em 2006, no entanto, os anos mais profícuos em experimentalismo e inovação foram para Di Lieto as décadas de 50 e 60.
O seu trabalho pode hoje ser visto no Museo della Ceramica, em Vietri sul Mare, um dos centros de maior tradição na cerâmica italiana.


Matteo Di Lieto - gomil, 33,5 cm de altura.

Matteo Di Lieto - gomil, 33,5 cm de altura.

Matteo Di Lieto - gomil, detalhe.

Matteo Di Lieto - gomil, marca de fabrico.

Por último, alguns exemplares concebidos na fábrica de cerâmica Zsolnay, situada em Pécs, na Hungria.
A Zsolnay estabeleceu-se em 1853, continuando a laborar na actualidade. Desempenhou um papel relevante no movimento de renovação das artes aplicadas desenvolvido durante a segunda metade do século XIX, procurando o crescimento tanto artístico como industrial. A fábrica conseguiu alcançar estes objectivos com enorme sucesso nacional e internacional, abraçando opções estéticas individuais de originalidade significativa e aderindo rapidamente às propostas modernistas da Secessão austríaca.
Após a II Guerra Mundial, a Zsolnay desenvolveu peças inovadoras, tanto formal como conceptualmente, sendo especialmente conhecidas as revestidas com esmaltes de eosina verdes e vermelhos. Das últimas, aqui mostramos alguns exemplares biomóficos com revestimento craquelé, de vários autores, datados da década de 60 do século XX.


Gabriella Törzsök - gomil, 31,5 x 12 cm, Zsolnay. eBay


Gabriella Törzsök - gomil, 31,5 x 12 cm, Zsolnay. eBay


Gabriella Törzsök - gomil, 31,5 x 12 cm, Zsolnay. eBay

Gabriella Törzsök - gomil, 31,5 x 12 cm, Zsolnay. eBay

Gabriella Törzsök - gomil, marca de fábrica. eBay


János Török - floreira tripé, 10,5 x 13 cm, Zsolnay. PorcelanaBrasil


András Sinkó - jarro zoomórfico, 25,4 x 15cm, Zsolnay. eBay

András Sinkó - jarro zoomórfico, 25,4 x 15cm, Zsolnay. eBay

János Török - jarro zoomórfico, 25,4 x 15cm, Zsolnay. eBay

András Sinkó - jarro zoomórfico, detalhe, Zsolnay. eBay

András Sinkó - jarro zoomórfico, detalhe, Zsolnay. eBay

András Sinkó - jarro zoomórfico, marca de fábrica. eBay



CMP* agradece a todos os coleccionadores a cedência de imagens de peças das suas colecções.
Agradece ainda, as indispensáveis informações cedidas pelo blogue Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém, as imagens cedidas pelo blogue Porcelana Brasil, os esclarecimentos prestados pelo investigador Walter del Pellegrino e, especialmente, os preciosos dados enviados pelo Museu de Cerâmica de Sacavém.