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segunda-feira, 17 de junho de 2019

POP & TUTTI FRUTTI | O Vidro em Portugal nos Anos 60 & 70 - Museu do Vidro, Marinha Grande

A exposição POP & TUTTI FRUTTI | O VIDRO EM PORTUGAL NOS ANOS 60 & 70 | Coleção Pedro Moura Carvalho, inaugura no próximo dia 6 de Julho, no Museu do Vidro, na Marinha Grande.
Esta será a primeira mostra realizada em Portugal dedicada ao design de vidro desenvolvido em fábricas nacionais, desde finais da década de 1950 até cerca de 1980, considerando produção industrial e de autor.
Muitos dos artistas que fizeram experiências em vidro nas fábricas da Marinha Grande, foram igualmente fundamentais na afirmação da cerâmica de autor em Portugal, como: Jorge Vieira (1922-1998); Hansi Staël (1913-1961); Alice Jorge (1924-2008); Tom (Thomaz de Mello) (1906-1990) e Júlio Pomar (1926-2018). Também no design para a indústria cerâmica surgem nomes que se distinguiram no design de vidro, como Maria Helena Matos (1924-2017) ou Gerald Gulotta (1921-2018).
A cerâmica e o vidro são tecnologias afins, que congregam saberes comuns, despertando muitas vezes interesse nos mesmos criadores. Assim, a exposição POP & TUTTI FRUTTI, promete ser fundamental para o entendimento destas duas indústrias, após a II Guerra Mundial, e das suas relações com o contexto e mercados internacionais.



Carmo Valente - Pormenor de jarras Burma, c. 1974. Fábrica-Escola Irmãos Stephens, Marinha Grande. Fotografia: Jorge Soares, Arquivo Museu do Vidro.
 


Com curadoria do historiador de arte e coleccionador, Pedro Moura Carvalho, também responsável pelo catálogo, POP & TUTTI FRUTTI apresenta um conjunto de cerca de 120 peças de vidro português pertencentes à sua colecção. 
Pedro Moura Carvalho propõe-nos, não só, a divulgação deste importante acervo, produzido durante um período de tempo ainda pouco estudado, como também a revelação de novos dados sobre esta produção, resultante da investigação que tem vindo a desenvolver.



Maria Helena Matos - Pormenor de jarros Chicago, c. 1965. Fábrica-Escola Irmãos Stephens, Marinha Grande. Fotografia: Jorge Soares, Arquivo Museu do Vidro.




Como se afirma no texto de apresentação da mostra: "As peças em exposição distinguem-se pela contemporaneidade e organicidade das formas, texturas e pela ousadia das cores; são inspiradas na Arte Pop e na Space Age que se vivia então, enquadrando-se perfeitamente nas revoluções de costumes em tons tutti frutti que transformaram o Ocidente."




João Eduardo Marinho - Pormenor de jarro Orion, 1972. Autores desconhecidos - Pormenor jarra Adágio, 1972 (laranja) e Pormenor jarra Bari, 1974 (encarnada). Fábrica-Escola Irmãos Stephens, Marinha Grande. Fotografia: Jorge Soares, Arquivo Museu do Vidro.



Nesta exposição, poderão ser vistas peças concebidas por Alice Jorge, Ascenso Belmonte, Carmo Valente, Eduardo Marinho, Gerald Gullota, Hansi Staël, Jorge Vieira, Margarida de Ávila e Maria Helena Matos, produzidas nas fábricas, A Central - J. Ferreira Custódio, Crisal, Fábrica-Escola Irmãos Stephens e Ivima, na Marinha Grande.

Mais informação em: https://www.facebook.com/events/710996802654370/




Museu do Vidro - Palácio Stephens, Praça Guilherme Stephens, Marinha Grande.







quarta-feira, 10 de abril de 2019

Objectismo - Mobiliário contemporâneo integrando azulejos modernos

A Objectismo, Galeria, lançou recentemente uma linha de mobiliário contemporâneo, desenhada pelo galerista e arquitecto Nuno Cardoso. 
As peças foram apresentadas ao público na LAAF - Lisbon Art and Antiques Fair, organizada pela APA - Associação Portuguesa dos Antiquários, a decorrer na Cordoaria Nacional, Lisboa, de 6 a 14 de Abril de 2019.
Esta linha de mobiliário é caracterizada pela integração de azulejaria moderna, sendo inaugurada por um conjunto de mesas de apoio em vários tipos de madeira, com detalhes em latão e vidro.
A Objectismo Collection contempla a utilização de azulejaria industrial e de autor, maioritariamente provinda de antigos stocks ou salvada, prevendo o alargamento a outras peças de mobiliário, como floreiras ou aparadores, já em projecto.
Está ainda prevista a reedições de padrões azulejares de autores do movimento moderno português e também o uso de alguns padrões ainda em produção, como é o caso dos azulejos desenhados por Hansi Staël (1913-1961) para o Hotel Ritz, 1959, ainda produzidos pela Fábrica de Sant'Anna


Abaixo podemos ver imagens das mesas actualmente expostas no stand da Objectismo, na Cordoaria Nacional, integrando azulejos das fábricas Viúva Lamego, Lisboa, e das já desaparecidas Olarte, Aveiro e SECLA, Caldas da Rainha. Desta última, temos azulejos do ceramista Luís Ferreira da Silva (1928-2016), da década de 1960, embutidos em mesas do modelo Square.
O próximo modelo a sair será o Ellipse, contendo azulejos de padrão da autoria de Querubim Lapa (1925-2016), fabricados pela Viúva Lamego, c. 1954-56.



Mesas modelos Square e Frieze, design Nuno Cardoso, Objectismo, 2019. © CMP



Mesa modelo Frieze, detalhe, design Nuno Cardoso, Objectismo, 2019. © CMP



Mesas modelos Frieze e Facet, design Nuno Cardoso, Objectismo, 2019. © CMP



Mesas modelo Facet, design Nuno Cardoso, Objectismo, 2019. © CMP



Mesa modelo Facet, detalhe, design Nuno Cardoso, Objectismo, 2019. © CMP



Mesas modelo Square, design Nuno Cardoso, Objectismo, 2019. © CMP



Mesas modelo Square, design Nuno Cardoso, Objectismo, 2019. © CMP



Mesa modelo Square, design Nuno Cardoso, Objectismo, 2019. © CMP



Mesa modelo Square, design Nuno Cardoso, Objectismo, 2019. © CMP



Mesa modelo Hearts, design Nuno Cardoso, Objectismo, 2019. © CMP



Mesa modelo Hearts, detalhe, design Nuno Cardoso, Objectismo, 2019. © CMP



Mesa modelo Hearts, detalhe, design Nuno Cardoso, Objectismo, 2019. © CMP


Contactos:

Objectismo, Galeria
Rua D. Pedro V, 55,
1250-092 Lisboa
Portugal

facebook.com/ objectismo
instagram/ objectismo_gallery

Nuno Cardoso
nuno.l.cardoso@gmail.com
+914 024 825



sábado, 23 de julho de 2016

Azulejaria moderna na exposição Fragmentos de Cor | Azulejos do Museu de Lisboa II


Continuação de: Azulejaria moderna na exposição Fragmentos de Cor | Azulejos do Museu de Lisboa I

Nota prévia: centrando-se apenas na produção do século XX, esta é a segunda de duas publicações cujo texto é integralmente reproduzido das legendas da exposição Fragmentos de Cor | Azulejos do Museu de Lisboa, que permanecerá no Pavilhão Preto do Museu de Lisboa - Palácio Pimenta até 25 de Setembro de 2016. 

Esta mostra permite a rara oportunidade de ver exemplares de azulejaria outrora integrados em edifícios da cidade de Lisboa, salvos e preservados graças à acção de cidadãos, serviços e funcionários autárquicos, contribuindo para reforçar a evidência de que a cidade seria muito mais rica e interessante caso tivesse sido possível a conservação destas obras in situ
Vale a pena continuar a tentar, começando pela visita a uma exposição motivadora.  



§ § §



Após um breve interregno que sucedeu à Exposição do Mundo Português, em 1940, o azulejo reapareceu associado às novas tendências da arquitectura moderna de expressão internacionalista, em grande parte devido à abertura a artistas jovens, da Fábrica de Cerâmica Viúva Lamego, dirigida por Mestre Eduardo Leite. À obra de pendor figurativo de Jorge Barradas, desenvolvida a partir de 1945, sucedem-se criações modernas muito variadas, como as seriadas de Fred Kradolfer (ver publicação anterior) e Hansi Staël, ou a associação de sugestões figurativas e de formas geométricas livres, admiravelmente conjugadas por Maria Keil no painel da Avenida Infante Santo (fragmento exposto) ou nas decorações das estações iniciais do Metropolitano de Lisboa.



Jorge Barradas - Talhas com temas de Lisboa, Fábrica Viúva Lamego, 1947. © CMP



Par de talhas com temas de Lisboa, da autoria de Jorge Barradas (1894-1971), executado na Fábrica Viúva Lamego, em 1947.
Peças cerâmicas de cariz decorativo, com pintura de acentuada delicadeza representando figuras populares de Lisboa, designadamente as vendedoras ambulantes de flores e fruta, tendo por fundo casario típico, afins de litografias com a mesma temática e inspiradas em ilustrações do autor na primeira fase da sua carreira. As tampas são rematadas com a modelação de um dos símbolos presente nas armas da cidade: a barca.
Estes exemplares foram encomendados para a decoração de algumas salas (República e Rosa Araújo) do edifício dos Passos do Concelho, aquando das comemorações do oitavo centenário da conquista de Lisboa aos mouros. 



Jorge Barradas - Talha, detalhe, Fábrica Viúva Lamego, 1947. © CMP



Jorge Barradas - Talhas com temas de Lisboa, Fábrica Viúva Lamego, 1947. © CMP



Jorge Barradas - Talha, detalhe, Fábrica Viúva Lamego, 1947. © CMP



Jorge Barradas - Talha, detalhe, Fábrica Viúva Lamego, 1947. © CMP



Jorge Barradas - Talha, detalhe, Fábrica Viúva Lamego, 1947. © CMP



Jorge Barradas foi um dos mais destacados precursores da cerâmica moderna em Portugal, nomeadamente a partir da primeira exposição de azulejos e cerâmicas, realizada no Palácio Foz (SNI) em 1945, na qual o painel abaixo reproduzido foi apresentado. No exemplar, Barradas parece ter sido inspirado em alguma pintura italiana do Quattrocento.
Este painel representa a Virgem Maria ofertando um fruto ao Menino ao seu colo. O tema surge sobre um fundo de árvores e casas, sendo envolvido por uma cercadura estilizada com vasos, ramagens floridas e um par de pássaros, na parte superior, ao centro.



Jorge Barradas - Virgem com Menino e Fruto, Fábrica Viúva Lamego, 1945. © CMP


Jorge Barradas - Virgem com Menino e Fruto, Fábrica Viúva Lamego, 1945. © CMP



Painel mural O Mar (fragmento) da autoria de Maria Keil (1914-2012), proveniente da Avenida Infante Santo, Lisboa. Executado na Fábrica Viúva Lamego, em 1958-59.
Composição parcial de um painel de formato rectangular, de grande dimensão, que constitui um dos referentes da obra de Maria Keil e da azulejaria moderna portuguesa. Representa um pescador de pé, a exibir um barco à vela e com uma criança ao colo, tendo como fundo outras embarcações do mesmo tipo. Toda esta figuração joga de maneira conexa e notável com as formas geométricas, as quais são constituídas a partir de uma matriz de losangos e fusos que variam com excepcional elasticidade de escala e proporção ao longo do painel, criando, por sua vez, uma malha que sugere as redes da faina da pesca.
O programa decorativo, de forte pendor geométrico, conjugava-se de forma admirável com o suporte arquitectónico onde se encontrava aplicado, de tal forma que, uma extensa escada que o atravessava, diagonalmente, era assimilada pela composição decorativa do painel, não constituindo elemento estranho ou intromissor.
Na Avenida Infante Santo, no muro onde estava o painel original (de que faz parte o fragmento exposto), foi colocado nos inícios deste século, uma réplica, feita a partir dos cartões originais da artista e produzida pela mesma fábrica, a Viúva Lamego.



Maria Keil - Fragmento do painel O MarFábrica Viúva Lamego, 1958-59. © CMP



Maria Keil - Fragmento do painel O Mar, detalhe, Fábrica Viúva Lamego, 1958-59. © CMP



Maria Keil - Fragmento do painel O Mar, detalhe, Fábrica Viúva Lamego, 1958-59. © CMP



Vista parcial da exposição Fragmentos de Cor | Azulejos do Museu de Lisboa. © CMP



Azulejos de padrão criados por Hansi Staël (1913-1961) para o Hotel Ritz, executados na Fábrica de Sant'Anna, c. 1957-58.
Padronagem moderna inspirada nas antigas composições de azulejo ponta de diamante. A decoração a azul, a verde, a roxo, a amarelo e a negro, em contraste com o esmalte branco, é realizada através de dois azulejos iguais, que se intercalam. organizando dessa forma pirâmides com e sem truncagem no vértice. Este padrão é conhecido por Ritz, por ter sido utilizado no bar do hotel com aquele nome, em Lisboa.



Hansi Staël - Detalhe do padrão Ritz, Fábrica de Sant'Anna, c. 1957-58. © CMP


Padrão formado por quatro azulejos diferentes, em tons predominantes de verde e amarelo, dando origem a uma composição dinâmica e geométrica, característica do início do movimento moderno em Portugal, no qual a artista Hansi Staël, de origem germano-húngara, teve um papel assinalável.
Este padrão foi concebido como ensaio para a decoração do revestimento da fachada norte do Hotel Ritz, em Lisboa e rejeitado, tendo a versão definitiva o mesmo desenho, mas com a substituição da cor verde por azul.


Hansi Staël - Ensaio de padrão para o Hotel Ritz, Fábrica de Sant'Anna, c. 1957-58. © CMP



Vista parcial da exposição Fragmentos de Cor | Azulejos do Museu de Lisboa. © CMP



Painel da antiga Livraria Ática, na Rua Alexandre Herculano, em Lisboa. Da autoria de José de Almada de Negreiros (1893-1970), executado na Fábrica Viúva Lamego, em 1955.
Painel decorativo em pintura policroma, que revestia a parede defronte da entrada da antiga Livraria Ática. Apresenta diversas figuras que reflectem a excepcional expressividade dos desenhos do autor. Ao meio da composição, a cena maternal num pequeno espelho de água.


Almada Negreiros - Painel da antiga Livraria Ática, Fábrica Viúva Lamego, 1955. © CMP



Almada Negreiros - Painel da antiga Livraria Ática, detalhe, Fábrica Viúva Lamego, 1955. © CMP


Almada Negreiros - Painel da antiga Livraria Ática, detalhe, Fábrica Viúva Lamego, 1955. © CMP



Almada Negreiros - Painel da antiga Livraria Ática, detalhe, Fábrica Viúva Lamego, 1955. © CMP



Painel de azulejos, Alto de Santa Catarina, da autoria de Manuel Cargaleiro (n. 1927), realizado na Fábrica Viúva Lamego, em 1969.
Painel policromo constituído por azulejos decorados individualmente com signos de cariz geometrizante e abstracto. É comum na obra do artista as composições recriarem aspectos e/ou sensações derivadas da malha urbana da cidade. 



Manuel Cargaleiro - Painel Alto de Santa Catarina, Fábrica Viúva Lamego, 1969. © CMP 


Maqueta da decoração em azulejos, em arte final (1993), do projecto para a cozinha de um apartamento na Rua dos Correiros, em Lisboa, ilustrando o projecto de revestimento de azulejos, da autoria de Querubim Lapa (1925-2016), realizado em 1988.
Na decoração, as paredes transformam-se num palco do imaginário associado à comida, com integração de cenas irónicas. Sobre o lava-loiça, uma figura masculina, de pé, quase totalmente envolvida por diversos tipos de peixes, assenta num plano aquático cuja linha do horizonte é recortada por barcos. No lado contrário, uma figura feminina, encontra-se coberta por frutos da terra, numa recriação de Pomona, a deusa da abundância e dos pomares. Vitualhas diversas surgem penduradas, como peixes (um deles fumando cachimbo) e carnes, respectivamente, sobre a chaminé e sobre um armário. Os aspectos divertidos ganham particular expressão nas representações debaixo de uma janela, com uma raposa sentada, tocando flauta junto de galináceos. Na profusão decorativa da complexa e irreverente composição, que não se esgota na descrição, Querubim remete para tradições iconográficas ligadas ao azulejo e à cozinha tradicional, percebendo-se influências das figurações híbridas maneiristas conciliadas aos excessos do barroco.


Querubim Lapa - Maqueta para cozinha, 1993, projecto executado da Fábrica Viúva Lamego, 1988. © CMP


Painel Cais das Colunas, realizado por Querubim Lapa nas oficinas da Escola António Arroio, em Lisboa, 1991.
Composição de azulejos cuja decoração foi obtida pela antiga técnica de aresta moldada, revestidos de vidrado de cor verde, corado com óxido de cobre. Representa linhas ondulantes na base, alusivas ao Rio Tejo, as duas colunas do cais do Terreiro do Paço e, distribuídas aleatoriamente, esferas armilares de duas dimensões, evocando o emblema do rei D. Manuel (1469-1521) que este mandou gravar em azulejos sevilhanos, nos inícios de Quinhentos, para decorar o Paço Real de Sintra.



Querubim Lapa - Painel Cais da Colunas, oficina da Escola António Arroio, 1991. © CMP



Querubim Lapa - Painel Cais da Colunas, detalhe, oficina da Escola António Arroio, 1991. © CMP



Painel cerâmico realizado pelo mesmo autor, nas oficinas da Escola António Arroio, em 1992, revela a capacidade criativa de Querubim Lapa, autor de uma obra múltipla que se revela tanto do ponto de vista técnico como em termos imagéticos. 
A composição é em grande parte formada por dois azulejos diferentes que insinuam perfis anatómicos e se repetem, alternando em xadrez. 
Esta matriz é alvo de um jogo de nuances ao nível da textura, cor e brilho dos vidrados, de beloe feito plástico, metamorfoseando-se, na parte superior do painel, ao centro, na silhueta de uma cabeça humana representada de perfil.


Querubim Lapa - Painel relevado, oficina da Escola António Arroio, 1992. © CMP



Querubim Lapa - Painel relevado, detalhe, oficina da Escola António Arroio, 1992. © CMP






terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Castiçal «Anjo» - Hansi Staël - SECLA

A artista de origem húngara Hansi Staël (1913-1961) iniciou em 1950 a sua colaboração com a SECLA, nas Caldas da Rainha, a convite do sócio maioritário Fernando da Ponte e Sousa (1902-1990). Fundadora do Estúdio SECLA, foi responsável pela actualização e adequação da produção da fábrica ao contexto internacional.
Chegada a Portugal em 1946, após permanência em Estocolmo durante a Guerra, onde trabalhou em ilustração, design têxtil e de objectos, entre outros para o armazém sueco Svenskt Tenn, Staël, que viajara bastante pelo centro da Europa durante o período entre as Guerras, tinha um espírito cosmopolita e estava a par das mais recentes tendências do design cerâmico internacional.
O seu trabalho revela influências directas da produção tradicional e moderna escandinava mas também da italiana que bem conhecia, sobretudo na pintura manual com uso de tintas de água. Aproxima a pintura cerâmica da técnica da aguarela que muito apreciava, registo onde sentia à-vontade e em que era tecnicamente fluente.
A espontaneidade da pintura a aguarela aliada a uma figuração de clara raiz escandinava, estão na origem das peças que hoje publicamos. O castiçal «Anjo», modelo P. 709, do qual mostramos alguns exemplares, faz parte de um vasto conjunto de peças para a produção corrente, criadas por Staël durante a década de 50, a serem reproduzidas por molde e diferenciadas com detalhes aplicados e pintura manual.



Hansi Staël - Castiçais «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, c.1955. © CMP


Hansi Staël - Castiçais «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, c.1955. © CMP


Hansi Staël - Castiçais «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, c.1955. © CMP


Hansi Staël - Castiçais «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, c.1955. © CMP



Hansi Staël - Castiçais «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, c.1955. © CMP


Durante a década de 30, um pouco por toda a Europa, recuperam-se elementos nacionalistas e regionalistas vindos das tradicionais artes e ofícios que, apropriados pela propaganda ou integrados na produção em série, servem a divulgação da imagem das várias nações em exposições internacionais.
Na Escandinávia está em curso um movimento de renovação do design e das artes decorativas que virá a consolidar-se após a Segunda Guerra como um dos mais influentes a nível mundial.
Hansi Staël, cuja formação artística se fez entre as Academias de Viena e Budapeste, aplica os seus conhecimentos à indústria, tomando opções inéditas em Portugal. Enceta na produção industrial uma relação entre artes e ofícios que dará frutos mesmo após a sua saída definitiva da fábrica em 1959, influenciando outras fábricas da região das Caldas e Alcobaça.



Hansi Staël - Castiçal «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, c.1955. © CMP


Hansi Staël - Castiçal «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, detalhe. © CMP



Hansi Staël - Castiçal «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, detalhe. © CMP



Hansi Staël - Castiçal «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, marcas de fábrica. © CMP


Estas peças estão assinadas "F.S.", a sigla do jovem Luís Ferreira da Silva (n.1928), que ingressa na SECLA em 1954. É contratado como pintor, trabalhando directamente com Hansí Staël enquanto encarregado da secção de pintura. Inicialmente as suas funções estavam restritas à reprodução de motivos decorativos criados por outros, em especial Staël, no entanto, a afirmação gradual das suas competências, permite-lhe dedicar-se também à criação de motivos decorativos.
Entretanto, continua a desenvolver actividade como artista plástico e em 1957 concorre à Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian, recebendo críticas que lhe garantem alguma visibilidade como escultor. Apesar disso, a sua actividade criativa dentro da unidade fabril continuava bastante limitada o que o leva a interromper temporariamente a colaboração com a SECLA em 1958, regressando mais tarde para fundar o chamado "Curral", onde desenvolverá um importante corpo de trabalho, assistido pelo oleiro rodista Guilherme Barroso.
Assim se justifica a opção pela datação aproximada destas peças em c.1955, sendo certamente posteriores a 1954 e muito provavelmente anteriores as 1957.


Hansi Staël - Castiçal «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, c.1955. © CMP



Hansi Staël - Castiçal «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, detalhe. © CMP



Hansi Staël - Castiçal «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, detalhe. © CMP


Tal como na cerâmica escandinava e em muitos outros casos na produção europeia desta época, os motivos ornamentais e os padrões decorativos são inspirados nos têxteis e nas rendas e bordados tradicionais.
Neste caso os elementos ornamentais usados são recriados a partir dos bordados de Viana do Castelo.
Como podemos observar, as vestes do anjo são decoradas na zona posterior com uma representação gráfica do bordado a crivo.



Hansi Staël - Castiçal «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, detalhe. © CMP



Detalhe de bordado de Viana do Castelo com elementos em crivo.

Linhas ondulantes e espirais, pontuadas por elementos repetitivos em forma de folha ou de lágrima, obedecem a composições centralizadas, sempre organizadas segundo um eixo de simetria. A paleta de cores primárias e secundárias é combinada com o branco e o preto.


Algibeira, primeira metade do Séc. XX, MAP e Colete feminino, 1938,  Museu N. Traje.


Na zona frontal das vestes aparecem representados dois corações lado a lado contendo a palavra "AMOR", elemento comum nos bordados ornamentais dos chamados Lenços de Amor, típicos das tradições folclóricas do Alto Minho.



Hansi Staël - Castiçal «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, detalhe. © CMP


Lenço de Amor, Viana do Castelo, Séc. XX, Museu de Arte Popular.



Hansi Staël - Castiçal «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, marcas de fábrica. © CMP



O exemplar abaixo, de pendor menos regionalista, apresenta uma decoração sintética e abstracta com uma paleta de cores reduzida, representando uma figura de cabelos louros, sem dúvida de aparência nórdica. 
O carácter internacionalista destas peças justifica-se pelas características dos mercados, já que a sua maioria se destinava a exportação.



Hansi Staël - Castiçal «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, c.1955. © CMP



Hansi Staël - Castiçal «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, detalhe. © CMP



Hansi Staël - Castiçal «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, detalhe. © CMP



Hansi Staël - Castiçal «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, detalhe. © CMP



Hansi Staël - Castiçal «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, detalhe. © CMP


Hansi Staël - Castiçal «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, marcas de fábrica. © CMP



No antigo museu da SECLA, situado numa dependência contígua à loja da fábrica, figuravam dois modelos P. 709, na imagem com a numeração 103 e 104. Segundo as informações que constavam nas respectivas legendas, são ambos modelados em pasta branca, com pintura a tintas de água. O 103 está assinado Staël e o 104 está assinado H.E. (Herculano Elias) com Staël e deverá ser datado da segunda metade da década de 50.


Hansi Staël - Castiçais modelo P. 709, antigo museu da SECLA. © CMP


Herculano Elias (n.1932), descendente de uma importante linhagem de ceramistas das Caldas da Rainha, ingressou como aprendiz na unidade fabril que viria a dar origem à SECLA logo na sua fundação, em 1945,  ainda sob a designação Fábrica de Cerâmica Mestre Francisco Elias, adoptada em homenagem ao seu tio-avô, criador da tradição caldense de miniaturas em barro.
A actividade de Herculano Elias na SECLA sofre um interregno entre 1947 e 1955, para formação como miniaturista e conclusão do curso de modelador cerâmico na Escola Industrial e Comercial Rafael Bordalo Pinheiro, entre outras actividades. De regresso à fábrica, colaborará directamente com Hansi Staël na modelação de vários murais, iniciando produção de cerâmica de autor em 1957. Mais tarde, em 1970, será o criador do gabinete de desenho e modelação para a execução de modelos de peças para exportação, sendo autor de muitos dos conhecidos padrões relevados que caracterizam a produção da SECLA na década de 70.
Abaixo podemos ver uma variação decorativa do exemplar assinado por Herculano Elias, apenas marcada "F.", inicial do pintor, cuja identidade desconhecemos.


Hansi Staël - Castiçal «Anjo», SECLA, c.1955. © Cristina Martins/Memórias da Secla


Hansi Staël - Castiçal «Anjo», SECLA, marcas de fábrica. © Cristina Martins/Memórias da Secla


Num catálogo de fábrica, da década de 50, o modelo P. 709 aparece descrito como Castiçal «Anjo» com altura aproximada de 16,5 cm .


Castiçal «Anjo», modelo P.709, imagem retirada de uma cópia de um catálogo de fábrica, Anos 50.



Este modelo, como pode verificar-se nas imagens abaixo, poderia incluir uma base de formato anelar que funcionaria como floreira.
A peça está assinada pela autora, como habitualmente acontece com os modelos.
Peças reproduzidas em série a partir dos modelos, poderão aparecer marcadas com a sigla do respectivo pintor seguida de "c/Staël", no entanto é também vulgar encontrarem-se outro tipo de marcações, como se comprova nos exemplares aqui publicados.



Hansi Staël - Castiçal modelo P. 709, "Modelo". © José Sequeira.



Hansi Staël - Castiçal modelo P. 709, "Modelo", assinatura. © José Sequeira.


Staël criou para a SECLA vários modelos de castiçais antropomórficos, representando figuras de anjo e outras. Como já referimos este tipo de castiçais é comum na produção tradicional escandinava, tendo sido igualmente recuperado por vários ceramistas nórdicos e adaptado a uma linguagem moderna.
Seguidamente mostramos alguns exemplos de origem dinamarquesa, da autoria de Bjørn Wiinblad (1918-2006), Lars Syberg (1903-1974) e da fábrica Hjorth.




Bjørn Wiinblad - castiçal em forma de anjo, 1988. Etsy


Bjørn Wiinblad é um reconhecido designer, ilustrador e ceramista dinamarquês. A sua produção é marcada por uma figuração bem humorada, plena de detalhes inspirados nos antigos elementos ornamentais de tradição escandinava. 
As figuras criadas por Wiinblad, ostentam habitualmente trajes de fim de século com decorações rebuscadas, muitas vezes compostas por elementos vegetalistas de registo complexo, aproximando-se do psicadelismo.
Para além das peças criadas em atelier próprio, Wiinblad desenhou peças para a fábrica dinamarquesa Nymolle e posteriormente celebrizou-se como designer para a fábrica de porcelana Rosenthal, concebendo inúmeras peças para a Studio-Linie, a linha de desenho de autor desta marca.



Bjørn Wiinblad - castiçal antropomórfico, 1977. Etsy


A fábrica de cerâmica Hjorth foi fundada em 1859 por Lauritz Adolph Hjort (1834-1912), em Ronne, a maior cidade da ilha de Bornholm, no Mar Baltico.
Inicialmente Lauritz Hjorth dedicou-se à criação de peças utilitárias, como jarros para água ou leite e a partir de 1862, centra-se na produção de objectos decorativos, jarras e figuras, recuperando a gramática ornamental da velha tradição escandinava. Esta produção foi abundantemente apresentada nas Exposições Mundiais, tornando-se bastante conhecida e comercializada internacionalmente.



Fábrica de cerâmica Hjorth - Par de castiçais em forma de anjo. Jamerantik



O dinamarquês Lars Syberg descende de uma família de ceramistas responsável pela modernização dos objectos de produção artesanal tradicional, adaptando-os ao quotidiano.
Concebeu inúmeros castiçais antropomórficos com pequenas variações entre si, aproximando a produção artesanal da produção em série.



Lars Syberg - castiçal antropomórfico. Etsy



CMP* agradece a todos os que durante o ano de 2013 participaram e colaboraram neste projecto de investigação e divulgação, desejando a todos um excelente 2014, repleto de novas descobertas.

Um agradecimento especial ao coleccionador José Sequeira, pela cedência de imagens de peças das suas colecções, à coleccionadora Cristina Martins, autora da página Memórias da Secla, à escultora e designer Marta Lucas e ao Pelouro da Cultura da Câmara Municipal das Caldas da Rainha, em especial ao Director do Centro de Artes, José Antunes, pela disponibilidade e colaboração, sem as quais não seria possível a corrente publicação.