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quarta-feira, 10 de abril de 2019

Objectismo - Mobiliário contemporâneo integrando azulejos modernos

A Objectismo, Galeria, lançou recentemente uma linha de mobiliário contemporâneo, desenhada pelo galerista e arquitecto Nuno Cardoso. 
As peças foram apresentadas ao público na LAAF - Lisbon Art and Antiques Fair, organizada pela APA - Associação Portuguesa dos Antiquários, a decorrer na Cordoaria Nacional, Lisboa, de 6 a 14 de Abril de 2019.
Esta linha de mobiliário é caracterizada pela integração de azulejaria moderna, sendo inaugurada por um conjunto de mesas de apoio em vários tipos de madeira, com detalhes em latão e vidro.
A Objectismo Collection contempla a utilização de azulejaria industrial e de autor, maioritariamente provinda de antigos stocks ou salvada, prevendo o alargamento a outras peças de mobiliário, como floreiras ou aparadores, já em projecto.
Está ainda prevista a reedições de padrões azulejares de autores do movimento moderno português e também o uso de alguns padrões ainda em produção, como é o caso dos azulejos desenhados por Hansi Staël (1913-1961) para o Hotel Ritz, 1959, ainda produzidos pela Fábrica de Sant'Anna


Abaixo podemos ver imagens das mesas actualmente expostas no stand da Objectismo, na Cordoaria Nacional, integrando azulejos das fábricas Viúva Lamego, Lisboa, e das já desaparecidas Olarte, Aveiro e SECLA, Caldas da Rainha. Desta última, temos azulejos do ceramista Luís Ferreira da Silva (1928-2016), da década de 1960, embutidos em mesas do modelo Square.
O próximo modelo a sair será o Ellipse, contendo azulejos de padrão da autoria de Querubim Lapa (1925-2016), fabricados pela Viúva Lamego, c. 1954-56.



Mesas modelos Square e Frieze, design Nuno Cardoso, Objectismo, 2019. © CMP



Mesa modelo Frieze, detalhe, design Nuno Cardoso, Objectismo, 2019. © CMP



Mesas modelos Frieze e Facet, design Nuno Cardoso, Objectismo, 2019. © CMP



Mesas modelo Facet, design Nuno Cardoso, Objectismo, 2019. © CMP



Mesa modelo Facet, detalhe, design Nuno Cardoso, Objectismo, 2019. © CMP



Mesas modelo Square, design Nuno Cardoso, Objectismo, 2019. © CMP



Mesas modelo Square, design Nuno Cardoso, Objectismo, 2019. © CMP



Mesa modelo Square, design Nuno Cardoso, Objectismo, 2019. © CMP



Mesa modelo Square, design Nuno Cardoso, Objectismo, 2019. © CMP



Mesa modelo Hearts, design Nuno Cardoso, Objectismo, 2019. © CMP



Mesa modelo Hearts, detalhe, design Nuno Cardoso, Objectismo, 2019. © CMP



Mesa modelo Hearts, detalhe, design Nuno Cardoso, Objectismo, 2019. © CMP


Contactos:

Objectismo, Galeria
Rua D. Pedro V, 55,
1250-092 Lisboa
Portugal

facebook.com/ objectismo
instagram/ objectismo_gallery

Nuno Cardoso
nuno.l.cardoso@gmail.com
+914 024 825



terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Castiçal «Anjo» - Hansi Staël - SECLA

A artista de origem húngara Hansi Staël (1913-1961) iniciou em 1950 a sua colaboração com a SECLA, nas Caldas da Rainha, a convite do sócio maioritário Fernando da Ponte e Sousa (1902-1990). Fundadora do Estúdio SECLA, foi responsável pela actualização e adequação da produção da fábrica ao contexto internacional.
Chegada a Portugal em 1946, após permanência em Estocolmo durante a Guerra, onde trabalhou em ilustração, design têxtil e de objectos, entre outros para o armazém sueco Svenskt Tenn, Staël, que viajara bastante pelo centro da Europa durante o período entre as Guerras, tinha um espírito cosmopolita e estava a par das mais recentes tendências do design cerâmico internacional.
O seu trabalho revela influências directas da produção tradicional e moderna escandinava mas também da italiana que bem conhecia, sobretudo na pintura manual com uso de tintas de água. Aproxima a pintura cerâmica da técnica da aguarela que muito apreciava, registo onde sentia à-vontade e em que era tecnicamente fluente.
A espontaneidade da pintura a aguarela aliada a uma figuração de clara raiz escandinava, estão na origem das peças que hoje publicamos. O castiçal «Anjo», modelo P. 709, do qual mostramos alguns exemplares, faz parte de um vasto conjunto de peças para a produção corrente, criadas por Staël durante a década de 50, a serem reproduzidas por molde e diferenciadas com detalhes aplicados e pintura manual.



Hansi Staël - Castiçais «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, c.1955. © CMP


Hansi Staël - Castiçais «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, c.1955. © CMP


Hansi Staël - Castiçais «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, c.1955. © CMP


Hansi Staël - Castiçais «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, c.1955. © CMP



Hansi Staël - Castiçais «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, c.1955. © CMP


Durante a década de 30, um pouco por toda a Europa, recuperam-se elementos nacionalistas e regionalistas vindos das tradicionais artes e ofícios que, apropriados pela propaganda ou integrados na produção em série, servem a divulgação da imagem das várias nações em exposições internacionais.
Na Escandinávia está em curso um movimento de renovação do design e das artes decorativas que virá a consolidar-se após a Segunda Guerra como um dos mais influentes a nível mundial.
Hansi Staël, cuja formação artística se fez entre as Academias de Viena e Budapeste, aplica os seus conhecimentos à indústria, tomando opções inéditas em Portugal. Enceta na produção industrial uma relação entre artes e ofícios que dará frutos mesmo após a sua saída definitiva da fábrica em 1959, influenciando outras fábricas da região das Caldas e Alcobaça.



Hansi Staël - Castiçal «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, c.1955. © CMP


Hansi Staël - Castiçal «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, detalhe. © CMP



Hansi Staël - Castiçal «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, detalhe. © CMP



Hansi Staël - Castiçal «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, marcas de fábrica. © CMP


Estas peças estão assinadas "F.S.", a sigla do jovem Luís Ferreira da Silva (n.1928), que ingressa na SECLA em 1954. É contratado como pintor, trabalhando directamente com Hansí Staël enquanto encarregado da secção de pintura. Inicialmente as suas funções estavam restritas à reprodução de motivos decorativos criados por outros, em especial Staël, no entanto, a afirmação gradual das suas competências, permite-lhe dedicar-se também à criação de motivos decorativos.
Entretanto, continua a desenvolver actividade como artista plástico e em 1957 concorre à Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian, recebendo críticas que lhe garantem alguma visibilidade como escultor. Apesar disso, a sua actividade criativa dentro da unidade fabril continuava bastante limitada o que o leva a interromper temporariamente a colaboração com a SECLA em 1958, regressando mais tarde para fundar o chamado "Curral", onde desenvolverá um importante corpo de trabalho, assistido pelo oleiro rodista Guilherme Barroso.
Assim se justifica a opção pela datação aproximada destas peças em c.1955, sendo certamente posteriores a 1954 e muito provavelmente anteriores as 1957.


Hansi Staël - Castiçal «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, c.1955. © CMP



Hansi Staël - Castiçal «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, detalhe. © CMP



Hansi Staël - Castiçal «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, detalhe. © CMP


Tal como na cerâmica escandinava e em muitos outros casos na produção europeia desta época, os motivos ornamentais e os padrões decorativos são inspirados nos têxteis e nas rendas e bordados tradicionais.
Neste caso os elementos ornamentais usados são recriados a partir dos bordados de Viana do Castelo.
Como podemos observar, as vestes do anjo são decoradas na zona posterior com uma representação gráfica do bordado a crivo.



Hansi Staël - Castiçal «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, detalhe. © CMP



Detalhe de bordado de Viana do Castelo com elementos em crivo.

Linhas ondulantes e espirais, pontuadas por elementos repetitivos em forma de folha ou de lágrima, obedecem a composições centralizadas, sempre organizadas segundo um eixo de simetria. A paleta de cores primárias e secundárias é combinada com o branco e o preto.


Algibeira, primeira metade do Séc. XX, MAP e Colete feminino, 1938,  Museu N. Traje.


Na zona frontal das vestes aparecem representados dois corações lado a lado contendo a palavra "AMOR", elemento comum nos bordados ornamentais dos chamados Lenços de Amor, típicos das tradições folclóricas do Alto Minho.



Hansi Staël - Castiçal «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, detalhe. © CMP


Lenço de Amor, Viana do Castelo, Séc. XX, Museu de Arte Popular.



Hansi Staël - Castiçal «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, marcas de fábrica. © CMP



O exemplar abaixo, de pendor menos regionalista, apresenta uma decoração sintética e abstracta com uma paleta de cores reduzida, representando uma figura de cabelos louros, sem dúvida de aparência nórdica. 
O carácter internacionalista destas peças justifica-se pelas características dos mercados, já que a sua maioria se destinava a exportação.



Hansi Staël - Castiçal «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, c.1955. © CMP



Hansi Staël - Castiçal «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, detalhe. © CMP



Hansi Staël - Castiçal «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, detalhe. © CMP



Hansi Staël - Castiçal «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, detalhe. © CMP



Hansi Staël - Castiçal «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, detalhe. © CMP


Hansi Staël - Castiçal «Anjo», pintura de Ferreira da Silva, SECLA, marcas de fábrica. © CMP



No antigo museu da SECLA, situado numa dependência contígua à loja da fábrica, figuravam dois modelos P. 709, na imagem com a numeração 103 e 104. Segundo as informações que constavam nas respectivas legendas, são ambos modelados em pasta branca, com pintura a tintas de água. O 103 está assinado Staël e o 104 está assinado H.E. (Herculano Elias) com Staël e deverá ser datado da segunda metade da década de 50.


Hansi Staël - Castiçais modelo P. 709, antigo museu da SECLA. © CMP


Herculano Elias (n.1932), descendente de uma importante linhagem de ceramistas das Caldas da Rainha, ingressou como aprendiz na unidade fabril que viria a dar origem à SECLA logo na sua fundação, em 1945,  ainda sob a designação Fábrica de Cerâmica Mestre Francisco Elias, adoptada em homenagem ao seu tio-avô, criador da tradição caldense de miniaturas em barro.
A actividade de Herculano Elias na SECLA sofre um interregno entre 1947 e 1955, para formação como miniaturista e conclusão do curso de modelador cerâmico na Escola Industrial e Comercial Rafael Bordalo Pinheiro, entre outras actividades. De regresso à fábrica, colaborará directamente com Hansi Staël na modelação de vários murais, iniciando produção de cerâmica de autor em 1957. Mais tarde, em 1970, será o criador do gabinete de desenho e modelação para a execução de modelos de peças para exportação, sendo autor de muitos dos conhecidos padrões relevados que caracterizam a produção da SECLA na década de 70.
Abaixo podemos ver uma variação decorativa do exemplar assinado por Herculano Elias, apenas marcada "F.", inicial do pintor, cuja identidade desconhecemos.


Hansi Staël - Castiçal «Anjo», SECLA, c.1955. © Cristina Martins/Memórias da Secla


Hansi Staël - Castiçal «Anjo», SECLA, marcas de fábrica. © Cristina Martins/Memórias da Secla


Num catálogo de fábrica, da década de 50, o modelo P. 709 aparece descrito como Castiçal «Anjo» com altura aproximada de 16,5 cm .


Castiçal «Anjo», modelo P.709, imagem retirada de uma cópia de um catálogo de fábrica, Anos 50.



Este modelo, como pode verificar-se nas imagens abaixo, poderia incluir uma base de formato anelar que funcionaria como floreira.
A peça está assinada pela autora, como habitualmente acontece com os modelos.
Peças reproduzidas em série a partir dos modelos, poderão aparecer marcadas com a sigla do respectivo pintor seguida de "c/Staël", no entanto é também vulgar encontrarem-se outro tipo de marcações, como se comprova nos exemplares aqui publicados.



Hansi Staël - Castiçal modelo P. 709, "Modelo". © José Sequeira.



Hansi Staël - Castiçal modelo P. 709, "Modelo", assinatura. © José Sequeira.


Staël criou para a SECLA vários modelos de castiçais antropomórficos, representando figuras de anjo e outras. Como já referimos este tipo de castiçais é comum na produção tradicional escandinava, tendo sido igualmente recuperado por vários ceramistas nórdicos e adaptado a uma linguagem moderna.
Seguidamente mostramos alguns exemplos de origem dinamarquesa, da autoria de Bjørn Wiinblad (1918-2006), Lars Syberg (1903-1974) e da fábrica Hjorth.




Bjørn Wiinblad - castiçal em forma de anjo, 1988. Etsy


Bjørn Wiinblad é um reconhecido designer, ilustrador e ceramista dinamarquês. A sua produção é marcada por uma figuração bem humorada, plena de detalhes inspirados nos antigos elementos ornamentais de tradição escandinava. 
As figuras criadas por Wiinblad, ostentam habitualmente trajes de fim de século com decorações rebuscadas, muitas vezes compostas por elementos vegetalistas de registo complexo, aproximando-se do psicadelismo.
Para além das peças criadas em atelier próprio, Wiinblad desenhou peças para a fábrica dinamarquesa Nymolle e posteriormente celebrizou-se como designer para a fábrica de porcelana Rosenthal, concebendo inúmeras peças para a Studio-Linie, a linha de desenho de autor desta marca.



Bjørn Wiinblad - castiçal antropomórfico, 1977. Etsy


A fábrica de cerâmica Hjorth foi fundada em 1859 por Lauritz Adolph Hjort (1834-1912), em Ronne, a maior cidade da ilha de Bornholm, no Mar Baltico.
Inicialmente Lauritz Hjorth dedicou-se à criação de peças utilitárias, como jarros para água ou leite e a partir de 1862, centra-se na produção de objectos decorativos, jarras e figuras, recuperando a gramática ornamental da velha tradição escandinava. Esta produção foi abundantemente apresentada nas Exposições Mundiais, tornando-se bastante conhecida e comercializada internacionalmente.



Fábrica de cerâmica Hjorth - Par de castiçais em forma de anjo. Jamerantik



O dinamarquês Lars Syberg descende de uma família de ceramistas responsável pela modernização dos objectos de produção artesanal tradicional, adaptando-os ao quotidiano.
Concebeu inúmeros castiçais antropomórficos com pequenas variações entre si, aproximando a produção artesanal da produção em série.



Lars Syberg - castiçal antropomórfico. Etsy



CMP* agradece a todos os que durante o ano de 2013 participaram e colaboraram neste projecto de investigação e divulgação, desejando a todos um excelente 2014, repleto de novas descobertas.

Um agradecimento especial ao coleccionador José Sequeira, pela cedência de imagens de peças das suas colecções, à coleccionadora Cristina Martins, autora da página Memórias da Secla, à escultora e designer Marta Lucas e ao Pelouro da Cultura da Câmara Municipal das Caldas da Rainha, em especial ao Director do Centro de Artes, José Antunes, pela disponibilidade e colaboração, sem as quais não seria possível a corrente publicação. 



terça-feira, 2 de julho de 2013

Luiz Pacheco - "O Caso Ferreira da Silva"

No seguimento da anterior publicação Luiz Pacheco entrevista Luís Ferreira da Silva, reproduzimos agora o texto do mesmo autor, “O Caso Ferreira da Silva”.
Retomando antigas inquietações, Luiz Pacheco faz publicar este escrito de intervenção no folheto de título genérico "Maravilhas & Maravalhas Caldenses", em Outubro de 1966, anunciado como o primeiro de uma série. Este documento de dezoito páginas, impressas em stencil e  agrafadas, com tiragem de 100 exemplares numerados e assinados pelo editor, continha ainda uma carta ao ministro da Saúde e Assistência denunciando as debilidades da assistência materno-infantil nas Caldas da Rainha e o texto "Memorial, Na Morte de António Pedro". 
A publicação vem na sequência de outras anteriores, assinadas Delfim da Costa o Cangalheiro da Cidade, pseudónimo que servia de abrigo a vários autores. O escritor editava e vendia estes cadernos como fonte imediata de receitas, mas sobretudo pretendendo abalar o meio cultural e literário estabelecido, com conteúdos muitas vezes satíricos e de crítica de costumes.
O folheto imediatamente precedente, redigido apenas por Pacheco, foi lançado em Setembro de 1965, também nas Caldas da Rainha. Uma folha A3, dobrada em quatro, com o título "O Prato do Diabo. 30 Coplas de pé quebrado compostas e musicadas cantadas por Delfim da Costa, o Cangalheiro da Cidade". Essas coplas visavam os poetas sadinos, o filósofo António Quadros e o pintor Figueiredo Sobral (1926-2010), ridicularizado por Pacheco em várias ocasiões, após uma exposição de obras suas no Café Central, no Verão de 1965. Nestas quadras profere já elogiosa referência à produção da SECLA, a 'casa' de Ferreira da Silva:


(...)
Os que são de Arte ilustrados
Preferem uma outra tecla
Compram os barros assados
Na padaria da Secla. 
(...)



Conjunto de peças da autoria de Ferreira da Silva, SECLA, Anos 50 a 60. Colecção Jorge Ferreira, Caldas da Rainha. © CMP



Embora "O Caso Ferreira da Silva" se reporte à situação concreta do ceramista, aquando da atribuição, pela Fundação Calouste Gulbenkian,  de uma bolsa de estudo que permitirá a sua permanência em Paris, durante o ano seguinte, ele constitui sobretudo mais um documento de denúncia, entre os muitos produzidos por Pacheco, sobre a condição do artista (plástico ou literário) em Portugal, dos quais o mais lapidar seria "O Cachecol do Artista", que havia escrito sobre si próprio.


Luiz Pacheco, na Praça da República (também conhecida por 'Praça da Fruta') e no Casal da Rochida, Caldas da Rainha, c.1965.

Demonstrando genuína  preocupação com a situação de um amigo, Luiz Pacheco não deixa de tecer aguçada crítica ao modo com este se deixa tomar pelas circunstâncias, não permitindo que elas se alterem. Em carta dirigida a Jaime Salazar Sampaio (1925-2010), datada de 28 de Maio de 1966, Pacheco afirma sobre Ferreira da Silva: "ceramista dos melhores, dizem, que já duvido de tudo. Travei com este tipo, durante mais de um ano, aquele nosso conhecido combate: não te deixes ir abaixo! Faze o teu melhor! Luta pela tua Arte! Então esse orgulho?" Explica ainda que o artista teria acabado de perder, pela terceira vez, a bolsa da Gulbenkian e que recebera o Prémio Soares dos Reis do SNI, embora lhe tivesse afirmado que o recusara. "Falava-me numa homenagem a Espártaco em barro da Secla e o que faz é dançar o yé-yé. Coisa e outra, grandes dissabores ao procurar desviá-lo das meadas em que se debate!"


Ferreira da Silva, O Escriba (retrato de Luiz Pacheco), monotipia, Bombarral, 1966. Colecção do Partido Comunista Português (doação do escritor).

Luiz Pacheco resolve então tornar público este 'combate', editando "O Caso Ferreira da Silva":

"Uma cidade de passagem, sem vida cultural própria; um patronato guloso das horas, da imaginação criadora de quem o serve, e enredado, estandardizado no afã comercialista rotineiro; uma mulher limitada porém humaníssima nos seus anseios e reacções de fêmea, de mãe. Registo: uma esposa portuguesa, patrões egoístas portugueses, uma cidade pequenina e portuguesa conspiram, talvez inconscientemente, cada qual para seu lado, numa acção desconcertada mas não menos eficaz, não menos perigosa para a vítima; parecem todos apostados em; ou podem vir a estar em vias de DESTRUIR UM ARTISTA.
Como é de Caldas da Rainha que falo, era escusado dizer-lhe o nome, tão conhecido ele é. E não só nas Caldas, e não só no País inteiro (Prémio Soares dos Reis da Escultura, obtido em 1964 no Salão da Primavera da S.N.B.A.) mas internacionalmente. Um Artista português com audiência, com clientela internacional. ‘tá-qui diante de mim um papelinho impresso, dum senhoreco americano, Mister George H. Frost, de Nova-Iorque, bem explícito a tal respeito. Diz assim: “Unique studio pieces: each an original signed work of art. Pots, plaques, jars, jugs, bowls or purely imaginative creations; suitable for lamps, flower arrangements, etc., or to stand alone like fine statuary just for looking at and enjoying. Gay, witty, colorful, they are mostly the production of the portuguese ceramist, Ferreira da Silva”.



Publicidade às peças de Ferreira da Silva importadas para os EUA por George H. Frost, Frost Ceramic Imports, na publicação Building Products Guide for Interior Design and Decorating, 1960. Imagem publicada em A Nova Cerâmica da Caldas, da autoria de Alberto Pinto Ribeiro, 1989.


Ferreira da Silva - Garrafa decorativa, c.65 cm de altura, SECLA, década de 1960. Colecção do Museu da Cerâmica, Caldas da Rainha. © CMP



Mas este será, vamos! o ponto de vista do importador, de um Marchand que de tolo pouco tenha. E a crítica? Leia-se o nº37, Junho de 1962, da revista francesa Aujourd’hui, de Arte e Arquitectura, a pág. 55, numa nótula à II Exposição Gulbenkian, efectuada em Lisboa. Começa assim: “L’art portugais est à peu près inconnu à l’étranger. Les représentations officielles aux grandes biennales sont délaissées par la presque totalité des artistes portugais valables, les échanges culturels sont nuls et le Marché inexistant; on reste là-bas pratiquement coupé de la vie artistique internationale”. A entrada é desanimadora, mas passados 4 anos já, por certo, não se comprova pelos factos. Mas tenham a bondade de ler o último parágrafo da dita nótula: “Si les gravures exposées font état d’um mouvemente national assez intéressant (Cid, Charrua, Pomar), il n’en va pas de même avec la sculture oú, parmi de piètres oeuvres démodées (celles de Rocha, Cutileiro e Pomar mises à part) on ne saurait remarquer que l’inconformisme criant de Ferreira da Silva, par qui le scandale arriva à Lisbonne...” Assinado: J.A. França.



Capa da revista francesa Aujourd'Hui art et architecture, nº37, 1962.


Ferreira da Silva e escultura em ferro, exterior da SECLA, c.1966. Imagem publicada no Suplemento da Gazeta das Caldas dedicado a Ferreira da Silva, 28 de Dezembro de 2001.


Ferreira da Silva - Escultura de parede, ferro. Colecção Jorge Ferreira, Caldas da Rainha. © CMP



Ora esse é o drama actual (o talento por si só vale muito, mas se não zelarem por ele estiola) de Ferreira da Silva.
Conheço-o bem, a ele e ao seu drama. Há perto de dois anos, numa amizade atenta, numa camaradagem em que não lhe regateei louvores e apoios, mas soube ser também brusco e leal nos reparos, tive tempo de sobra para estudar e definir o seu tipo bastante singular. Dum ponto de vista estético, nele se congregam o artífice de vasta experiência com as características que marcam o Artista criador: carga instintiva, imaginação e, até, pendor humanista, porque é um revoltado de classe, um inconformista por temperamento. À humildade do artesão (é vê-lo na sua oficina da Secla, como reparei e sublinhei numa entrevista publicada no Jornal de Letras e Artes) alia-se o orgulho, a imponente, espectacular arrogância do Artista (é vê-lo cá fora na Praça, e isso Caldas inteira reparou já; é ouvi-lo como ataca, irado, as vaidadezinhas dos amadores, só simpáticos na sua pertinácia e, vá lá, úteis como público mais esclarecido num meio restrito como é o caldense).
Encaminhado desde muito novo para a vida artística, F.S. percorreu no campo da escultura, da cerâmica e também da gravura, desenho, pintura, todos os graus, cumpriu todas as tarefas, até atingir a posição de que hoje desfruta. É um profissional. Um mestre, principalmente em escultura e cerâmica. Quem sou eu, que percebo eu disso para o dizer? Mas di-lo (por exemplo) o Areal, o Nelson di Maggio, o Figueiredo Sobral. Repetiu-mo há dias a Clara de Oliveira que por duas vezes veio às Caldas aprender cerâmica com ele. Dizem-no, com a sua responsabilidade, os membros do júri da Fundação Gulbenkian que lhe atribuíram a bolsa, sem que o F.S. tenha nada do insistente maçador que não larga a Gulbenkian. Escreveu-lho o Sèlles Paez. Sabem-no todos os seus camaradas da Secla.



Ferreira da Silva, SECLA, c.1965. Imagem publicada no catálogo Estúdio SECLA - Uma Renovação na Cerâmica Portuguesa, edição do Museu Nacional do Azulejo, 1999.


Eu nem sei se os Caldenses já repararam bem, mas devem a este rapaz uma nova visão. Na verdade, vou a casa de um Amigo, a um consultório, visito um Mecenas e, de repente, estamos envolvidos numa atmosfera F.S., isto é, num mundo de formas e cor que o F.S. criou e é inconfundível. Aquele painel na Tertúlia, o belo mural em casa do Vítor Sebastião, o Ferro-velho do Vasco Luís (autêntico Museu F.S.), as esculturas e decorações do Inferno d’Azenha seriam, serão um dia lugar de romagem para turistas, a haver nesta terrinha um pouco de amor pelas coisas de cá, um serviço turístico a sério.



Fachada do Inferno d'Azenha, Caldas da Rainha. Fotografia © Margarida Araújo.


Inferno d'Azenha, Caldas da Rainha. Fotografia © Margarida Araújo. 


Ferreira da Silva - escultura em ferro, Inferno d'Azenha, Caldas da Rainha. Fotografia © Margarida Araújo.


Ferreira da Silva - placa cerâmica, Inferno d'Azenha, Caldas da Rainha. Fotografia © Margarida Araújo.



(...) Não lhe regateemos louvores, nem o poupemos em nossas críticas. Pergunta directa: como é que um Artista assim dotado pela Natureza e experimentado numa técnica, cuja bagagem cultural decerto não é tão extensa como seria de lhe exigir mas é muito mais vasta (e intensa, já que se trata de um instintivo, um sensual) do que ele aparenta; como é que um consagrado, já laureado, possuindo clientela e admiradores entre peritos, está em riscos de perecer (como Artista, bem entendido)? Isso é outra história, outra verdade. Na citada entrevista, Clara de Oliveira afirmou-me: “A Arte de F.S. não evoluiu nada de há um ano para cá”. Pode objectar-se que um ano, na vida de um Artista, conta pouco. Outrossim, poderá perguntar-se é se a criação do F.S. teria condições de evoluir, aqui, nesta encantadora pequena cidade de província, onde vale a pena vir só pelos pêcegos enormes... e aqui é que bate o ponto e somos todos aqui cúmplices ou culpados cada qual à sua escala nesta não-evolução. Caldas é um meio privilegiado para a criação artística, mas tanta facilidade conduz à dolce vita, ao farniente. Ao optimismo. E este, ao deixa andar, à repetição, à glóriola local que localmente se contenta. O mais precavido cai nisso. A tendência geral é para o nivelamento. Assim, meios esteticamente avançados, onde a competição é árdua, produzem artistas superiores; em meios de débil exigência, de vida fácil, os artistas são sugados para a facilidade, a não exigência consigo próprios. Falhos de convivência, de estímulo esclarecido, de público, em suma, tendem para o narcisismo, para a mitomania.
São palavras duras de ouvir?
A mim próprio as digo muitas vezes. No caso de Ferreira da Silva sabem-no muitos que não exagero. Que ele está nas melhores condições (de idade, de vigor oficinal, de ambições, de possibilidades materiais) de levar para a frente a sua criação. Dispõe de uma bolsa para se especializar em Paris. Façamos-lhe então uma homenagem pública e um favor pessoal que em nosso proveito reverterá (porque o que faz um Artista interessa a todos): incitemo-lo. Não o desviemos da sua carreira. Acreditemos nele e nela. O companheirismo fácil é cómodo. A convivência exige a lealdade. O caso (artístico) F.S. não está encerrado. Talvez, quem sabe?, vá entrar numa fase decisiva. Não estou, ninguém nas Caldas deve ficar, indiferente à sua personalidade como à sua obra futura."


Ferreira da Silva - Garrafa decorativa, 71,5 x 41 x 18 cm, SECLA, década de 1960. Colecção do Museu da Cerâmica, Caldas da Rainha. © CMP




Ferreira da Silva - Garrafa decorativa, 71,5 x 41 x 18 cm, SECLA, década de1960. Colecção do Museu da Cerâmica, Caldas da Rainha. © CMP



Ferreira da Silva - Garrafa decorativa, detalhe, SECLA, década de 1960. Colecção do Museu da Cerâmica, Caldas da Rainha. © CMP



Ferreira da Silva - Garrafa decorativa, c.75 cm de altura, SECLA, década de 1960. Colecção Jorge Ferreira, Caldas da Rainha. © CMP


Ferreira da Silva - Garrafa decorativa, detalhe, SECLA, década de 1960. Colecção Jorge Ferreira, Caldas da Rainha. © CMP


Ferreira da Silva - Garrafa decorativa, detalhe, SECLA, década de 1960. Colecção Jorge Ferreira, Caldas da Rainha. © CMP



Em 1967, Ferreira da Silva vai finalmente para Paris com bolsa da Fundação Gulbenkian. Ao deslumbramento cultural causado pela sua primeira saída do país, vem juntar-se a forte impressão causada pela entrada em ebulição do Maio de 68, que o marcará indelevelmente.
Desenvolve práticas de cerâmica e escultura na Academie de Paris - École Métiers d'Art (ENSAAMA), onde trabalha ainda técnicas como o vitral, o estafe ou a tapeçaria. Integra-se na diversidade de nacionalidades dos alunos que frequentavam a escola, como explica em entrevista à Gazeta das Caldas, Dezembro de 2001: "Já levava um conhecimento bom de cá que me dava a possibilidade de trabalhar com os professores e outros artistas. (...) Ainda hoje a minha formação continua agarrada a esses tempos."
A experiência parisiense não terá sido especialmente profícua em trabalho cerâmico. Embora em França, a cerâmica tivesse conhecido um enorme incremento após a II Guerra, com vários ceramistas vindos de Paris a estabelecerem-se no Sul, na região de Vallauris, as experiências desenvolvidas por Picasso na Madoura ou a obra de referência de George Jouve (1910-1964), este era um fenómeno aparentemente pouco absorvido pelos meios académicos. Assim, Ferreira da Silva parece não ter tido a oportunidade de prosseguir o experimentalismo que caracterizava o seu trabalho precedente, regressando a Portugal em Junho de 1968, com Maio ainda vivo na memória, pronto a operar uma viragem estética na sua produção cerâmica.  


Ferreira da Silva, Estúdio SECLA, 1968. Imagem publicada no Suplemento da Gazeta das Caldas dedicado a Ferreira da Silva, 28 de Dezembro de 2001.


Ferreira da Silva - placa cerâmica, SECLA, c.1969. Fotografia © Margarida Araújo.




Ver também:
Placas cerâmicas - Ferreira da Silva - SECLA
Candeeiro - Ferreira da Silva - SECLA



CMP* agradece ao coleccionador Jorge Ferreira e à fotografa e investigadora Margarida Araújo, pelas suas valiosas contribuições.


Nota: Transcrições de "O Caso Ferreira da Silva" e excertos de cartas, feitas a partir do suplemento da Gazeta das Caldas, de 11 de Janeiro de 2008, publicado aquando da morte de Luiz Pacheco. Imagens e informações adicionais retiradas do suplemento do mesmo jornal, dedicado a Ferreira da Silva, de 28 de Dezembro de 2001. Outras informações retiradas de: George, João Pedro - Puta que os Pariu!: A Biografia de Luiz Pacheco. Lisboa: Tinta da China, 2011.