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sábado, 23 de julho de 2016

Azulejaria moderna na exposição Fragmentos de Cor | Azulejos do Museu de Lisboa II


Continuação de: Azulejaria moderna na exposição Fragmentos de Cor | Azulejos do Museu de Lisboa I

Nota prévia: centrando-se apenas na produção do século XX, esta é a segunda de duas publicações cujo texto é integralmente reproduzido das legendas da exposição Fragmentos de Cor | Azulejos do Museu de Lisboa, que permanecerá no Pavilhão Preto do Museu de Lisboa - Palácio Pimenta até 25 de Setembro de 2016. 

Esta mostra permite a rara oportunidade de ver exemplares de azulejaria outrora integrados em edifícios da cidade de Lisboa, salvos e preservados graças à acção de cidadãos, serviços e funcionários autárquicos, contribuindo para reforçar a evidência de que a cidade seria muito mais rica e interessante caso tivesse sido possível a conservação destas obras in situ
Vale a pena continuar a tentar, começando pela visita a uma exposição motivadora.  



§ § §



Após um breve interregno que sucedeu à Exposição do Mundo Português, em 1940, o azulejo reapareceu associado às novas tendências da arquitectura moderna de expressão internacionalista, em grande parte devido à abertura a artistas jovens, da Fábrica de Cerâmica Viúva Lamego, dirigida por Mestre Eduardo Leite. À obra de pendor figurativo de Jorge Barradas, desenvolvida a partir de 1945, sucedem-se criações modernas muito variadas, como as seriadas de Fred Kradolfer (ver publicação anterior) e Hansi Staël, ou a associação de sugestões figurativas e de formas geométricas livres, admiravelmente conjugadas por Maria Keil no painel da Avenida Infante Santo (fragmento exposto) ou nas decorações das estações iniciais do Metropolitano de Lisboa.



Jorge Barradas - Talhas com temas de Lisboa, Fábrica Viúva Lamego, 1947. © CMP



Par de talhas com temas de Lisboa, da autoria de Jorge Barradas (1894-1971), executado na Fábrica Viúva Lamego, em 1947.
Peças cerâmicas de cariz decorativo, com pintura de acentuada delicadeza representando figuras populares de Lisboa, designadamente as vendedoras ambulantes de flores e fruta, tendo por fundo casario típico, afins de litografias com a mesma temática e inspiradas em ilustrações do autor na primeira fase da sua carreira. As tampas são rematadas com a modelação de um dos símbolos presente nas armas da cidade: a barca.
Estes exemplares foram encomendados para a decoração de algumas salas (República e Rosa Araújo) do edifício dos Passos do Concelho, aquando das comemorações do oitavo centenário da conquista de Lisboa aos mouros. 



Jorge Barradas - Talha, detalhe, Fábrica Viúva Lamego, 1947. © CMP



Jorge Barradas - Talhas com temas de Lisboa, Fábrica Viúva Lamego, 1947. © CMP



Jorge Barradas - Talha, detalhe, Fábrica Viúva Lamego, 1947. © CMP



Jorge Barradas - Talha, detalhe, Fábrica Viúva Lamego, 1947. © CMP



Jorge Barradas - Talha, detalhe, Fábrica Viúva Lamego, 1947. © CMP



Jorge Barradas foi um dos mais destacados precursores da cerâmica moderna em Portugal, nomeadamente a partir da primeira exposição de azulejos e cerâmicas, realizada no Palácio Foz (SNI) em 1945, na qual o painel abaixo reproduzido foi apresentado. No exemplar, Barradas parece ter sido inspirado em alguma pintura italiana do Quattrocento.
Este painel representa a Virgem Maria ofertando um fruto ao Menino ao seu colo. O tema surge sobre um fundo de árvores e casas, sendo envolvido por uma cercadura estilizada com vasos, ramagens floridas e um par de pássaros, na parte superior, ao centro.



Jorge Barradas - Virgem com Menino e Fruto, Fábrica Viúva Lamego, 1945. © CMP


Jorge Barradas - Virgem com Menino e Fruto, Fábrica Viúva Lamego, 1945. © CMP



Painel mural O Mar (fragmento) da autoria de Maria Keil (1914-2012), proveniente da Avenida Infante Santo, Lisboa. Executado na Fábrica Viúva Lamego, em 1958-59.
Composição parcial de um painel de formato rectangular, de grande dimensão, que constitui um dos referentes da obra de Maria Keil e da azulejaria moderna portuguesa. Representa um pescador de pé, a exibir um barco à vela e com uma criança ao colo, tendo como fundo outras embarcações do mesmo tipo. Toda esta figuração joga de maneira conexa e notável com as formas geométricas, as quais são constituídas a partir de uma matriz de losangos e fusos que variam com excepcional elasticidade de escala e proporção ao longo do painel, criando, por sua vez, uma malha que sugere as redes da faina da pesca.
O programa decorativo, de forte pendor geométrico, conjugava-se de forma admirável com o suporte arquitectónico onde se encontrava aplicado, de tal forma que, uma extensa escada que o atravessava, diagonalmente, era assimilada pela composição decorativa do painel, não constituindo elemento estranho ou intromissor.
Na Avenida Infante Santo, no muro onde estava o painel original (de que faz parte o fragmento exposto), foi colocado nos inícios deste século, uma réplica, feita a partir dos cartões originais da artista e produzida pela mesma fábrica, a Viúva Lamego.



Maria Keil - Fragmento do painel O MarFábrica Viúva Lamego, 1958-59. © CMP



Maria Keil - Fragmento do painel O Mar, detalhe, Fábrica Viúva Lamego, 1958-59. © CMP



Maria Keil - Fragmento do painel O Mar, detalhe, Fábrica Viúva Lamego, 1958-59. © CMP



Vista parcial da exposição Fragmentos de Cor | Azulejos do Museu de Lisboa. © CMP



Azulejos de padrão criados por Hansi Staël (1913-1961) para o Hotel Ritz, executados na Fábrica de Sant'Anna, c. 1957-58.
Padronagem moderna inspirada nas antigas composições de azulejo ponta de diamante. A decoração a azul, a verde, a roxo, a amarelo e a negro, em contraste com o esmalte branco, é realizada através de dois azulejos iguais, que se intercalam. organizando dessa forma pirâmides com e sem truncagem no vértice. Este padrão é conhecido por Ritz, por ter sido utilizado no bar do hotel com aquele nome, em Lisboa.



Hansi Staël - Detalhe do padrão Ritz, Fábrica de Sant'Anna, c. 1957-58. © CMP


Padrão formado por quatro azulejos diferentes, em tons predominantes de verde e amarelo, dando origem a uma composição dinâmica e geométrica, característica do início do movimento moderno em Portugal, no qual a artista Hansi Staël, de origem germano-húngara, teve um papel assinalável.
Este padrão foi concebido como ensaio para a decoração do revestimento da fachada norte do Hotel Ritz, em Lisboa e rejeitado, tendo a versão definitiva o mesmo desenho, mas com a substituição da cor verde por azul.


Hansi Staël - Ensaio de padrão para o Hotel Ritz, Fábrica de Sant'Anna, c. 1957-58. © CMP



Vista parcial da exposição Fragmentos de Cor | Azulejos do Museu de Lisboa. © CMP



Painel da antiga Livraria Ática, na Rua Alexandre Herculano, em Lisboa. Da autoria de José de Almada de Negreiros (1893-1970), executado na Fábrica Viúva Lamego, em 1955.
Painel decorativo em pintura policroma, que revestia a parede defronte da entrada da antiga Livraria Ática. Apresenta diversas figuras que reflectem a excepcional expressividade dos desenhos do autor. Ao meio da composição, a cena maternal num pequeno espelho de água.


Almada Negreiros - Painel da antiga Livraria Ática, Fábrica Viúva Lamego, 1955. © CMP



Almada Negreiros - Painel da antiga Livraria Ática, detalhe, Fábrica Viúva Lamego, 1955. © CMP


Almada Negreiros - Painel da antiga Livraria Ática, detalhe, Fábrica Viúva Lamego, 1955. © CMP



Almada Negreiros - Painel da antiga Livraria Ática, detalhe, Fábrica Viúva Lamego, 1955. © CMP



Painel de azulejos, Alto de Santa Catarina, da autoria de Manuel Cargaleiro (n. 1927), realizado na Fábrica Viúva Lamego, em 1969.
Painel policromo constituído por azulejos decorados individualmente com signos de cariz geometrizante e abstracto. É comum na obra do artista as composições recriarem aspectos e/ou sensações derivadas da malha urbana da cidade. 



Manuel Cargaleiro - Painel Alto de Santa Catarina, Fábrica Viúva Lamego, 1969. © CMP 


Maqueta da decoração em azulejos, em arte final (1993), do projecto para a cozinha de um apartamento na Rua dos Correiros, em Lisboa, ilustrando o projecto de revestimento de azulejos, da autoria de Querubim Lapa (1925-2016), realizado em 1988.
Na decoração, as paredes transformam-se num palco do imaginário associado à comida, com integração de cenas irónicas. Sobre o lava-loiça, uma figura masculina, de pé, quase totalmente envolvida por diversos tipos de peixes, assenta num plano aquático cuja linha do horizonte é recortada por barcos. No lado contrário, uma figura feminina, encontra-se coberta por frutos da terra, numa recriação de Pomona, a deusa da abundância e dos pomares. Vitualhas diversas surgem penduradas, como peixes (um deles fumando cachimbo) e carnes, respectivamente, sobre a chaminé e sobre um armário. Os aspectos divertidos ganham particular expressão nas representações debaixo de uma janela, com uma raposa sentada, tocando flauta junto de galináceos. Na profusão decorativa da complexa e irreverente composição, que não se esgota na descrição, Querubim remete para tradições iconográficas ligadas ao azulejo e à cozinha tradicional, percebendo-se influências das figurações híbridas maneiristas conciliadas aos excessos do barroco.


Querubim Lapa - Maqueta para cozinha, 1993, projecto executado da Fábrica Viúva Lamego, 1988. © CMP


Painel Cais das Colunas, realizado por Querubim Lapa nas oficinas da Escola António Arroio, em Lisboa, 1991.
Composição de azulejos cuja decoração foi obtida pela antiga técnica de aresta moldada, revestidos de vidrado de cor verde, corado com óxido de cobre. Representa linhas ondulantes na base, alusivas ao Rio Tejo, as duas colunas do cais do Terreiro do Paço e, distribuídas aleatoriamente, esferas armilares de duas dimensões, evocando o emblema do rei D. Manuel (1469-1521) que este mandou gravar em azulejos sevilhanos, nos inícios de Quinhentos, para decorar o Paço Real de Sintra.



Querubim Lapa - Painel Cais da Colunas, oficina da Escola António Arroio, 1991. © CMP



Querubim Lapa - Painel Cais da Colunas, detalhe, oficina da Escola António Arroio, 1991. © CMP



Painel cerâmico realizado pelo mesmo autor, nas oficinas da Escola António Arroio, em 1992, revela a capacidade criativa de Querubim Lapa, autor de uma obra múltipla que se revela tanto do ponto de vista técnico como em termos imagéticos. 
A composição é em grande parte formada por dois azulejos diferentes que insinuam perfis anatómicos e se repetem, alternando em xadrez. 
Esta matriz é alvo de um jogo de nuances ao nível da textura, cor e brilho dos vidrados, de beloe feito plástico, metamorfoseando-se, na parte superior do painel, ao centro, na silhueta de uma cabeça humana representada de perfil.


Querubim Lapa - Painel relevado, oficina da Escola António Arroio, 1992. © CMP



Querubim Lapa - Painel relevado, detalhe, oficina da Escola António Arroio, 1992. © CMP






sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Cerâmica portuguesa no Musée des Beaux-Arts em Ostende e no The Kiln Club of Washington - 1959

Em 1959, a cerâmica moderna portuguesa é difundida através de duas importantes exposições, a Exposition International de Ceramique Contemporaine, no Musée des Beaux-Arts, em Ostende na Bégica e a The Seventh International Exhibition, realizada no The Kiln Club of Washington, em Washington DC, nos EUA.
Estas mostras reúnem um conjunto notável de ceramistas, desde o pioneiro Jorge Barradas (1894-1971) às jovens Cecília de Sousa (n.1937), Maria de Lourdes Castro (n.1934) e Maria Manuela Madureira (n.1930).
As representações internacionais, regra geral organizadas pelo Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo, mais conhecido por SNI, órgão encarregado de levar a cabo as políticas culturais do regime, eram divulgadas na imprensa, em especial na Panorama: Revista Portuguesa de Arte e Turismo, publicação oficial deste órgão educacional e propagandístico.  
Assim, o nº16/III série, de 1959, da revista Panorama, à época dirigida por Ramiro Valadão, noticia o evento, explicando que a cerâmica, "Arte entre nós bem mais jovem e circunscrita do que a pintura e a escultura, sofre o primeiro impulso, para a nobilitar, com as procuras de Jorge Barradas, concretizadas brilhantemente nas exposições de 1945 e 1948. 
De então para cá - e o que são pouco mais de dez anos para construir de novo uma arte abastardada? - os artistas trabalham, procuram: e de vulto é esse trabalho e procura; tanto que permite sem vergonha aparecer, e provoca, com honra e orgulho, o convite para se fazerem representar, os artistas e Portugal nas mais importantes exposições. 
À obra de Fernando Abranches, Cecília Alves de Sousa, Jorge Barradas, Manuel Cargaleiro, Maria de Lourdes Castro, João Fragoso, M. Manuela Madureira, José Sanches e Hansi Stäel se deve, com muitos outros, este recuperar tempo perdido, e a posição adquirida pela cerâmica de arte portuguesa nos certames internacionais.
Artistas portugueses - ceramistas, escultores e pintores - que são, ao fim ao cabo, embaixadores de Portugal e da sua cultura: embaixadores e testemunhos."

Neste artigo, não assinado, fica clara a necessidade de recuperar o tempo perdido no que à cerâmica diz respeito, reflectindo a falta de investimento criativo nesta tecnologia artística, em Portugal, durante o período entre as Guerras.
Publicamos abaixo, as imagens que ilustram a referida notícia, com as legendas tal como aparecem na revista Panorama.


Manuel Cargaleiro - jarra. © CMP

João Fragoso - jarra. © CMP

Fernando Abranches - A Nossa Mãe© CMP

Jorge Barradas - Senhora e Menino, 1957. © CMP

Maria Manuela Madureira - Sofisma, 1959. © CMP

De modo a complementar o conteúdo do artigo da revista Panorama, publicamos também outras peças do mesmo período temporal, da autoria dos ceramistas participantes nas referidas mostras.

Desenvolvendo a mesma linguagem do painel de azulejo "Sofisma" (85 x 57 cm),  o painel "Duende" (123 x 76 cm), também de 1959, dá-nos uma noção do cromatismo trabalhado por Maria Manuela Madureira nesta época. Ambos participaram na Échange Culturel Mondial da UNESCO em 1961, organizada pela Académie International de la Céramique de Genève, fazendo actualmente parte das colecções do Museu de Ariana em Genebra, Suiça.


Maria Manuela Madureira  - Duende, 1959. mmm


De Cecília de Sousa, duas jarras realizadas pela autora no ano seguinte à sua participação nas duas  exposições internacionais. A primeira mede 47,5 x 17 cm e a segunda 53 x 14 cm.


Cecília de Sousa - jarras, 1960. Imagens publicadas no catálogo A minha segunda casa... Cecília de Sousa, obra cerâmica 1954-2004, edição do Museu Nacional do Azulejo, 2004.

Produzida na Viúva Lamego, tal como as peças de Cecília de Sousa, uma jarra, com 27 cm de altura, da autoria de Manuel Cargaleiro (n.1927), 1956.

Manuel Cargaleiro - jarra, 1956. S.Domingos

Hansi Staël (1913-1961), recebeu, em 1954, o Prémio Francisco de Holanda, atribuído pelo SNI e, no ano seguinte, seria galardoada com a Medalha de Honra, na Exposição Internacional Les Chefs-d'Ouvres de la Céramique Moderne, em Cannes.
O prato de suspenção, com 39 cm de diâmetro, abaixo reproduzido, foi produzido nas Caldas da Rainha no último ano em que colaborou com a SECLA, 1957.

Hansi Staël - prato de suspensão, SECLA, 1957. Museu Malhoa

Quanto aos ceramistas Fernando Abranches (1920-...) e José Sanches (1916-...), o primeiro iniciou-se na cerâmica em 1950 e participou, a partir de 1951, em várias Exposições de Cerâmica Moderna organizadas pelo SNI, tendo também exposto individualmente.
O segundo trabalhou na Fábrica de Cerâmica Viúva Lamego, desempenhando as funções de oleiro-rodista.  Ainda no ano de 1959, ganhou o Prémio Nacional de Cerâmica Sebastião de Almeida, atribuído pelo SNI.


José Sanches - base de candeeiro, 40 cm de altura, Viúva Lamego. © PMC


Do escultor João Fragoso (1913-2000), fundador do Estúdio-Escola de Cerâmica, uma figura feminina, (29 x 22,5 x 11,5 cm) pertencente à colecção do Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian.
Esta obra esteve exposta na mostra O tempo em (re)construção: A colecção de cerâmica do CAM - Fundação Calouste Gulbenkian, inaugurada a 7 de Julho de 2011, no Museu Nacional do Azulejo.


João Fragoso - sem título. Col. CAM-JAP. © CMP

De Jorge Barradas, responsável pelo despoletar do movimento de renovação da cerâmica portuguesa após a  Segunda Guerra Mundial, o painel Máscaras (90 x 90 cm), executado na Fábrica de Cerâmica Vúva Lamego em 1959 e actualmente parte das colecções do Museu Municipal Dr. Santos Rocha, na Figueira da Foz.


Jorge Barradas - Máscaras, 1959. © CMP


Finalmente, de Maria de Lourdes Castro uma taça com patine de prata (9,5 cm de altura por 23,5 cm de diâmetro), executada na Fábrica de Loiça de Sacavém, em 1958-1959.


Lourdes Castro - taça, 1958-1959. Imagem publicada no catálogo Maria de Lourdes Castro: Uma Exposição Biográfica, edição do Museu Nacional do Azulejo, 2005.


CMP* agradece aos vários coleccionadores a cedência de imagens de peças das suas colecções, bem como todas as informações e esclarecimentos prestados.


terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Painel da Piscina do Campo Grande, Lisboa - João Segurado

O jardim do Campo Grande é um espaço com uma tradição secular na cidade de Lisboa. Ocupando uma área de 1200 metros de comprimento por 200 metros de largura, nas imediações do Museu Bordalo Pinheiro e do Museu da Cidade, entre o Bairro de Alvalade e a Cidade Universitária,  poderia funcionar como local de lazer aprazível, não fosse o estado de deplorável degradação em que se encontra.
Há vários anos vítima de negligência e vandalismo, o parque viveu épocas de notável eficiência no desempenho das suas funções ao serviço dos habitantes da cidade, especialmente após a remodelação, nos Anos 40, a cargo do arquitecto Francisco Keil do Amaral (1910-1975). 
Desde 1945 até ao final da década, Keil do Amaral concretiza uma vasta produção arquitectónica, dominada pela encomenda pública e municipal. Este período incluiu a quase totalidade das intervenções nos parques de Lisboa, nomeadamente Monsanto, Parque Eduardo VII (incluindo a Estufa Fria) e o Campo Grande.
Estas obras, tipificando uma enorme diversidade de soluções, reflectem as condicionantes da época.
Em tempos de enorme contenção orçamental, Keil do Amaral, um dos primeiros arquitectos portugueses a revelar uma plena consciência moderna, projectou espaços e equipamentos economicamente viáveis, duráveis e simultaneamente conseguindo evitar, mesmo nas obras públicas, a estética totalitária e conservadora muitas vezes associada ao Estado Novo.
O que acontece, tanto em Monsanto, definido ainda em vida por Duarte Pacheco (1900-1943), como no Campo Grande, onde o arquitecto planeou sobre a matriz anterior uma maior densidade de vegetação e uma grande variedade de percursos, tornando o espaço mais aprazível e funcional. 
Para este espaço, que tanto lhe interessava talvez pela escala mais humana, virá ainda a projectar um restaurante construído junto ao lago, em 1948, hoje destruído, uma casa de chá, hoje votada ao abandono, onde figura um painel de azulejos de Júlio Pomar (n.1926) e Alice Jorge (1924-2008) , datado de 1950, e  já na década de 60 a piscina infantil, uma das suas obras favoritas, actualmente também condenada à ruína.


Obras da Piscina Municipal do Campo Grande, c.1963. Foto de Artur Goulart AML

A Piscina Municipal do Campo Grande, dedicada apenas ao público infantil como várias outras obras de Keil do Amaral, originalmente uma iniciativa do ministro Duarte Pacheco, foi inaugurada em 1964 pelo então Presidente da República Américo Tomás (1894-1987) e pelo Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, entre 1959 e 1970, António Vitorino França Borges.
O equipamento começa por ter um enorme sucesso durante os anos seguintes, para entrar em decadência no final dos Anos 70, foi ainda reutilizado durante a década de 80 como piscina-escola concessionado a um clube desportivo, para acabar condenado à destruição, quer pelo abandono, quer pelos actuais planos da Câmara Municipal de Lisboa, entidade que não tem demonstrado qualquer respeito pelas obras de referência edificadas durante o século XX.


Piscina Municipal do Campo Grande, 1966. Foto de Armando Serôdio AML

Piscina Municipal do Campo Grande, 1966. Foto de Armando Serôdio AML

Fazendo jus às práticas da época e ao especial relevo que a utilização de revestimentos cerâmicos decorativos e/ou funcionais adquirem na obra de Keil do Amaral, o artista plástico João Segurado (n.1920) é convidado a elaborar um painel em azulejos  destinado a figurar na entrada do edifício das piscinas. 
João Lopes Segurado, já com obra pública, havia ganho, em 1963, o Pémio Sebastião de Almeida de cerâmica, atribuído pelo Secretariado Nacional de Informação (SNI), órgão responsável pelas políticas culturais do regime. 
O painel, actualmente praticamente destruído como se pode verificar pelas imagens abaixo reproduzidas, foi realizado na Fábrica de Cerâmica Viúva Lamego e trabalha de uma forma expressiva e abstractizante temas aquáticos e marinhos, numa composição dinâmica dominada por uma paleta de cores frias e fortes efeitos texturais.


João Segurado, painel da Piscina Municipal do Campo Grande, 1965. Foto de Armando Serôdio, 1967 AML


Painel da Piscina Municipal do Campo Grande, 1965. © CMP 2011


Com aprendizagem nas oficinas da Viúva Lamego, tendo trabalhado com Eduardo Leite, pintor tradicionalista de grande competência técnica. João Segurado assumiu um papel relevante no movimento de renovação da cerâmica em  Portugal, fazendo parte de uma geração de artistas com formação cerâmica, onde estão incluídos, Manuel Cargaleiro (n.1927) e Querubim Lapa (n.1925).
O trabalho de Segurado demarca-se da obra do mestre, sobretudo da temática historicista e neo-barroca patente nos azulejos a azul e branco do revestimento da Capela das Almas no Porto, de 1929, e dos painéis decorativos do Salão Nobre da Câmara Municipal de Cascais, ambos realizados na Viúva Lamego.
O artista desenvolve uma linguagem verdadeiramente moderna, para a qual contribui o facto de ter sido bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian. Foi autor de várias intervenções públicas, como os painéis em trencadís para a urbanização de habitação social, da autoria de Nuno Teotónio Pereira (n.1922) e António Pinto de Freitas, no bairro Olivais Norte, em 1957, ou o painel aplicado no Centro de Artes Plásticas dos Coruchéus, Alvalade, em 1970, ambos em Lisboa.


Painel da Piscina Municipal do Campo Grande, 1965, detalhe. © CMP 2011


Painel da Piscina Municipal do Campo Grande, 1965, detalhe. © CMP 2011


Painel da Piscina Municipal do Campo Grande, 1965, detalhe. © CMP 2011


Painel da Piscina Municipal do Campo Grande, 1965, detalhe. © CMP 2011


Painel da Piscina Municipal do Campo Grande, 1965, detalhe. © CMP 2011


Painel da Piscina Municipal do Campo Grande, 1965, detalhe. © CMP 2011


Painel da Piscina Municipal do Campo Grande, 1965, detalhe com assinatura. © CMP 2011


Painel da Piscina Municipal do Campo Grande, 1965, detalhe com assinatura. © CMP 2011


Apesar do estado deplorável em que se encontra, esperamos que as imagens sejam elucidativas da riqueza plástica da obra e sobretudo da sua necessidade premente de conservação, só com uma intervenção urgente será possível a sua salvação.

Num painel de 1961, pertencente à colecção do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, pode reconhecer-se uma composição semelhante à utilizada no painel das piscinas. 
O autor trabalha elementos abstractos de forma dinâmica, organizados numa faixa horizontal, como que num ensaio da sua obra futura. Nesta pintura, composta por setenta e dois azulejos e intitulada Noite de Lua, a paleta de cores é mais soturna, evocando uma atmosfera  nocturna pontuada por elementos de forma lunar. Aqui as texturas são mais suaves, enquanto no painel da Piscina do Campo Grande, elas aparecem mais intensas e contrastantes.



João Segurado, Noite de Lua, azulejos policromados, 1961. Col. CAM-JAP. © CMP

João Segurado, Noite de Lua, 1961, detalhe. Col. CAM-JAP. © CMP

João Segurado, Noite de Lua, 1961, detalhe. Col. CAM-JAP. © CMP


João Segurado, Noite de Lua, 1961, detalhe com assinatura. Col. CAM-JAP. © CMP

Esta obra esteve exposta na mostra O tempo em (re)construção: A colecção de cerâmica do CAM - Fundação Calouste Gulbenkian, inaugurada a 7 de Julho de 2011, no Museu Nacional do Azulejo.



Nas imagens abaixo reproduzidas, pode observar-se a utilização do tijolo de barro vermelho no exterior do edifício e do azulejo de cores planas e luminosas na zona dos balneários, soluções de igual modo usadas no Parque Infantil do Monsanto, especialmente na área da piscina, onde um ecrã de tijolo situado entre o espaço do balneário e o espaço da piscina, assume simultaneamente o valor de separador e elemento de ligação.
A obra de Keil do Amaral como a de vários outros arquitectos seus contemporâneos, faz uso dos materiais cerâmicos, tão baratos quanto resistentes, explorando os seus valores decorativos e funcionais de forma inteligente e equilibrada.


Piscina Municipal do Campo Grande, 1964, vista parcial. © CMP 2011




Piscina Municipal do Campo Grande, 1964, vista parcial. © CMP 2011


Piscina Municipal do Campo Grande, 1964, vista parcial do interior. © CMP 2011




Piscina Municipal do Campo Grande, 1964, vista parcial. © CMP 2011



Piscina Municipal do Campo Grande, 1964, vista parcial do interior. © CMP 2011


Piscina Municipal do Campo Grande, 1964, detalhe do interior. © CMP 2011




Piscina Municipal do Campo Grande, 1964, vista parcial do interior. © CMP 2011


É impossível ignorar estado actual do edifício das piscinas, uma ruína repleta de Graffiti
O problema dos Graffiti tem afectado profundamente o espaço urbano, quer em edifícios habitados, quer desabitados. No entanto, quando se trata de edificado com valor patrimonial a preservar o caso torna-se particularmente grave.  
O caso da Piscina Municipal do Campo Grande é apenas um entre centenas, testemunhos da incapacidade ou falta de vontade de implementar estratégias eficientes de combate a este flagelo. 
Todo o parque do Campo Grande, desde o edifício do Centro Comercial Caleidoscópio, à casa de chá, incluindo a escultura da autoria de Canto da Maya (1890-1981), está pejado de Graffiti, o que acontece precisamente devido à incúria e abandono a que foi votado. 
O que poderia ser um agradável local de lazer está transformado num espaço deprimente e sujo, espelho de um poder autárquico que deixa a cidade ao abandono.  
O confronto com a memória de um parque desenhado tendo em atenção todos os detalhes, onde as plantas estavam cuidadas e a edificação e obras de arte preservadas, torna ainda mais penoso um passeio no Campo Grande.