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terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Casa de Igrejas Caeiro | "Teatro" de Maria Keil

A habitação unifamiliar do actor, encenador e radialista  Francisco Igrejas Caeiro (1917-2012) é um projecto do arquitecto Francisco Keil do Amaral (1910-1975), datado de 1958. 
Situada no Alto do Lagoal, Caxias, foi na época descrita na imprensa como "vivenda de estilo hollywoodiano", à escala nacional. Ocupando uma área de 4500 metros quadrados, a habitação está implantada num promontório que domina todo o vale, a Oriente Lisboa, a Ocidente a saída da barra, de fronte uma vista privilegiada sobre o Tejo. Esta moradia e espaço envolvente, incluindo jardim, horta e capoeira, constituía, até há pouco tempo, uma das obras mais bem conservadas da autoria de Keil do Amaral, estando os interiores intactos, mantinha a sua concepção original, reflectindo o gosto moderno pelo conforto funcionalista, tão raro em Portugal, abraçado pelo casal Igrejas Caeiro e Irene Velez (1914-2004).
Deixada em testamento pelo seu proprietário à Fundação Marquês de Pombal, Oeiras, com a condição de ser musealizada e o seu valioso espólio documental colocado à disposição da comunidade, a casa de Igrejas Caeiro encontra-se ainda fechada, apesar de notícias publicadas em 2012 garantirem a sua abertura no ano seguinte.
Procura-se aqui alertar para a importância arquitectónica e artística deste legado no contexto do movimento moderno em Portugal, dando especial ênfase à integração das artes e design de interiores de que constitui testemunho exemplar, como pode observar-se nas fotos abaixo.





Igrejas Caeiro junto ao painel "Teatro" de Maria Keil, 1959. Fotografia Daniel Rocha, 2012 | Público



Nesta obra arquitectónica, a peça mais relevante no contexto da integração das artes será sem dúvida o painel azulejar da autoria de Maria Keil (1914-2012), "Teatro", 1959, revestindo uma parede da galeria envidraçada, com vista de mar, também usada como sala de jogos e espaço de trabalho. Produzido na Fábrica Viúva Lamego, como era habitual na obra da autora, este painel não vem referido em nenhum dos catálogos e monografias dedicados a Maria Keil.  
O painel é composto por um conjunto de figuras integrado num fundo de padrão geométrico, à semelhança do que acontece em "Pastores", 1955, pertencente à colecção do Museu Nacional do Azulejo. Como explica Igrejas Caeiro à revista Plateia, 10 de Maio, 1963, uma das figuras alegóricas representa a Tragédia, outra a Comédia e a Hidra, monstro de sete cabeças, representa o público. Há ainda a referir uma figuração circular geométrica, preenchida com cores primárias, que poderá evocar o Sol e a Lua/Dia e Noite, provavelmente numa analogia à Tragédia e à Comédia. 




Excerto do painel "Teatro", Maria Keil, 1959. Fotografia João Cunha - RR , 2017.



Igrejas Caeiro junto ao painel "Teatro" de Maria Keil, 1959. Fotografia Lobo Pimentel, in Plateia, nº 149, 1963.



Vista da sala de jogos com painel "Teatro" de Maria Keil, 1959. Fotografia in Arte e Decoração, nº 6, 1969.



Na casa do Alto do Lagoal todo o mobiliário e concepção dos interiores, pensados de forma integrada, tomam um valor essencial, revelando a articulação entre o pensamento do arquitecto e dos seus clientes. No atelier Keil do Amaral o design de mobiliário e objectos ficava muitas vezes a cargo de Maria Keil. É provável que neste projecto tal também possa ter ocorrido, uma vez que reconhecemos no desenho do mobiliário uma extensão do pensamento arquitectónico. Estantes, bancadas ou armários sublinham os espaços, racionalizando-os, num aproveitamento funcional e equilibrado.
Reconhecemos também um diálogo entre os objectos pessoais dos habitantes da casa e os espaços arquitectónicos, como se estes tivessem sido pensados para os acolher. Obras de arte, peças de cerâmica moderna e popular, livros, candeeiros, vasos com plantas e mobiliário relacionam-se de forma complementar, em dinâmica, sem a necessidade da criação de lugares determinados para cada coisa. 
A modernidade reflecte-se também na escolha dos objectos, dominada por uma colecção de arte moderna que inclui pinturas de Júlio Pomar (n.1926), Jorge de Oliveira (1924-2012) e Abel Manta (1888-1982), entre outros. O interesse pela cerâmica moderna revela-se não só através do painel de Maria Keil, mas também pela presença da cerâmica de autor de Jorge Barradas (1894-1971) ou do "Cristo" de Rosa Ramalho (1888-1977), ceramista popular da região de Barcelos, admirada e dada a conhecer pelo movimento moderno. Numa parede especialmente revestida por pastilhas cerâmicas da fábrica Tijomel, Caxarias, cria-se uma textura gráfica e lumínica, sobre a qual se destaca o desenho da chaminé da lareira e o Cristo em barro branco, não vidrado.




Vista da sala e biblioteca. Fotografia FMP



Rosa Ramalho, "Cristo", década de 1950. Fotografia MdS




Fábrica Tijomel, Caxarias, revestimento em pastilhas cerâmicas industriais. © CMP




Igrejas Caeiro e Irene Velez com o cão, o boxer Godot. Fotografia Lobo Pimentel, in Plateia, nº 149, 1963.




O desenho de mobiliário integrado é uma marca do movimento moderno, encontra-mo-lo em todas as áreas da casa de Igrejas Caeiro, embutido ou desenhado à medida do espaços, desde as zonas de estar, à cozinha. Teme-se particularmente pela conservação destes objectos, tão importantes para a história do design em Portugal, especialmente quando tanto já foi destruído neste campo. Seria fundamental que a Fundação Marquês de Pombal e o Município de Oeiras se articulassem com o Museu do Design ou integrassem nas equipas de trabalho técnicos especializados, de modo a conceber um projecto museológico fundamentado e didáctico. Só assim os visitantes poderão tomar consciência da importância da conservação das peças produzidas em meados dos século XX, zelando pelo que ainda resta deste período. 





Vista da sala e biblioteca. Fotografia FMP




Vista da sala e biblioteca. Fotografia in Arte e Decoração, nº 6, 1969.




Igrejas Caeiro e Irene Velez junto a uma das estantes. Fotografia Lobo Pimentel, in Plateia, nº 149,  1963.




Igrejas Caeiro e Irene Velez junto a uma das estantes. Capa da revista Arte e Decoração, nº 6, 1969.




Igrejas Caeiro e Irene Velez numa das zonas de estar. Fotografia Lobo Pimentel, in Plateia, nº 149, 1963.




Irene Velez na cozinha. Fotografia Lobo Pimentel, in Plateia, nº 149, 1963.



Vista da cozinha. Fotografia in Arte e Decoração, nº 6, 1969.



Ambas situadas na Rua Paulo da Gama, a casa de Igrejas Caeiro (assinalada a amarelo na imagem abaixo) articula-se com a moradia pertencente ao engenheiro Lino Gaspar, cuja família muitas vezes participava nas gravações radiofónicas orientadas pelo actor. 
Desenhada pelo arquitecto João Andresen (1920-1967), projecto de 1953-1955,  a Casa Lino Gaspar, incluindo jardim, está classificada como Monumento de Interesse Público, desde 2012. Este edifício alberga um painel cerâmico da autoria de Hein Semke (1899-1995), embora não referido na descrição do imóvel, na página da DGPC, configurando um exemplar modernista de ruptura. O projecto de Keil do Amaral para Igrejas Caeiro, ainda que menos radical que a proposta de João Andresen, seria igualmente merecedor desta protecção, tanto pela qualidade arquitectónica como pela coerência formal dos seus interiores. No entanto, não se encontrando classificado, está à mercê de alterações fortuitas, como as que decorrem na actualidade.




Casa de Igrejas Caeiro, Francisco Keil do Amaral, 1958; e Casa Lino Gaspar, João Andresen, 1953-55.




Aspecto exterior da casa de Igrejas Caeiro, Francisco Keil do Amaral, projecto de 1958. Fotografia FMP



Aspecto exterior da casa de Igrejas Caeiro, Francisco Keil do Amaral, projecto de 1958. Fotografia FMP



Aspecto exterior da casa de Igrejas Caeiro, Francisco Keil do Amaral, projecto de 1958. Fotografia FMP



A moradia de Caxias albergava também um estúdio de gravação profissional, uma enorme colecção de discos de vinil e uma completa biblioteca de teatro, permitindo a realização de programas de rádio a partir de casa. Assim, o programa publicitário e de teatro radiofónico, "Companheiros da Alegria", dirigido por Igrejas Caeiro e Irene Velez, era gravado nos seus estúdios privados, equipados com a mais moderna tecnologia da época.
As imagens seguintes mostram os ensaios gerais do programa de dia 24 de Dezembro de 1960, véspera de Natal, da rubrica "Parque Infantil", com texto de Mário Castrim, a decorrerem na sala de jogos onde se encontra o painel azulejar "Teatro".





Ensaio geral do programa "Parque Infantil", 1960. Fotografia Lobo Pimentel, in Plateia,  nº 73, 1961.



Ensaio geral do programa "Parque Infantil", 1960. Fotografia Lobo Pimentel, in Plateia,  nº 73, 1961.




Nestas imagens pode ver-se toda a equipa do programa "Parque Infantil, da esquerda para a direita, em primeiro plano, sentados: Guida Maria e Carlos Eduardo Lino Gaspar; em segundo plano, sentados: Elvira Velez, António Sacramento, Rui Furtado, Luís Cerqueira, Maria Alexandra Lino Gaspar, Irene Velez e Igrejas Caeiro; de pé: Jorge Arriaga de Oliveira, Henrique Pereira, Francisca Maria, Eduardo Canto e Castro, João Mota, E. Santo e Mário Castrim.
É também visível o ambiente de trabalho descontraído e como o mobiliário de estrutura tubular ou as almofadas em bunho de Santarém eram utilizados de forma lúdica.




Ensaio geral do programa "Parque Infantil", 1960. Fotografia Lobo Pimentel, in Plateia,  nº 73, 1961.



Ensaio geral do programa "Parque Infantil", 1960. Fotografia Lobo Pimentel, in Plateia,  nº 73, 1961.



Vista da sala de jogos. Fotografia in Arte e Decoração, nº 6, 1969.



A preocupação expressa nesta publicação é fortalecida pelos testemunhos e denúncias que circulam nas redes sociais sobre o facto de estarem a aparecer objectos integrantes do espólio de Igrejas Caeiro em leilões e feiras de velharias, bem como notícias da transformação do edifício em alojamento local, com obras profundas a decorrerem neste momento, colocando em causa a integridade deste valioso património. Sendo a Fundação Marquês de Pombal, Oeiras, responsável pela salvaguarda do legado cuidadosamente construído pelo doador, Igrejas Caeiro, não estará assim a desrespeitar a sua vontade, lesando o público a quem a fruição deste espólio manifestamente se destinava?
A Fundação organizou recentemente várias iniciativas de homenagem a Igrejas Caeiro, pelo sexto aniversário do seu falecimento: Homenagem a Francisco Igrejas CaeiroRomagem ao Cemitério – 6º Aniversário da Morte de Francisco Igrejas Caeiro.







Consideramos que a melhor forma de homenagem será respeitar a vontade de Igrejas Caeiro, preservando a sua memória. Abrir ao público a casa-museu devidamente preservada, disponibilizando o seu espólio para que este se possa conhecer e estudar.




sábado, 23 de julho de 2016

Azulejaria moderna na exposição Fragmentos de Cor | Azulejos do Museu de Lisboa II


Continuação de: Azulejaria moderna na exposição Fragmentos de Cor | Azulejos do Museu de Lisboa I

Nota prévia: centrando-se apenas na produção do século XX, esta é a segunda de duas publicações cujo texto é integralmente reproduzido das legendas da exposição Fragmentos de Cor | Azulejos do Museu de Lisboa, que permanecerá no Pavilhão Preto do Museu de Lisboa - Palácio Pimenta até 25 de Setembro de 2016. 

Esta mostra permite a rara oportunidade de ver exemplares de azulejaria outrora integrados em edifícios da cidade de Lisboa, salvos e preservados graças à acção de cidadãos, serviços e funcionários autárquicos, contribuindo para reforçar a evidência de que a cidade seria muito mais rica e interessante caso tivesse sido possível a conservação destas obras in situ
Vale a pena continuar a tentar, começando pela visita a uma exposição motivadora.  



§ § §



Após um breve interregno que sucedeu à Exposição do Mundo Português, em 1940, o azulejo reapareceu associado às novas tendências da arquitectura moderna de expressão internacionalista, em grande parte devido à abertura a artistas jovens, da Fábrica de Cerâmica Viúva Lamego, dirigida por Mestre Eduardo Leite. À obra de pendor figurativo de Jorge Barradas, desenvolvida a partir de 1945, sucedem-se criações modernas muito variadas, como as seriadas de Fred Kradolfer (ver publicação anterior) e Hansi Staël, ou a associação de sugestões figurativas e de formas geométricas livres, admiravelmente conjugadas por Maria Keil no painel da Avenida Infante Santo (fragmento exposto) ou nas decorações das estações iniciais do Metropolitano de Lisboa.



Jorge Barradas - Talhas com temas de Lisboa, Fábrica Viúva Lamego, 1947. © CMP



Par de talhas com temas de Lisboa, da autoria de Jorge Barradas (1894-1971), executado na Fábrica Viúva Lamego, em 1947.
Peças cerâmicas de cariz decorativo, com pintura de acentuada delicadeza representando figuras populares de Lisboa, designadamente as vendedoras ambulantes de flores e fruta, tendo por fundo casario típico, afins de litografias com a mesma temática e inspiradas em ilustrações do autor na primeira fase da sua carreira. As tampas são rematadas com a modelação de um dos símbolos presente nas armas da cidade: a barca.
Estes exemplares foram encomendados para a decoração de algumas salas (República e Rosa Araújo) do edifício dos Passos do Concelho, aquando das comemorações do oitavo centenário da conquista de Lisboa aos mouros. 



Jorge Barradas - Talha, detalhe, Fábrica Viúva Lamego, 1947. © CMP



Jorge Barradas - Talhas com temas de Lisboa, Fábrica Viúva Lamego, 1947. © CMP



Jorge Barradas - Talha, detalhe, Fábrica Viúva Lamego, 1947. © CMP



Jorge Barradas - Talha, detalhe, Fábrica Viúva Lamego, 1947. © CMP



Jorge Barradas - Talha, detalhe, Fábrica Viúva Lamego, 1947. © CMP



Jorge Barradas foi um dos mais destacados precursores da cerâmica moderna em Portugal, nomeadamente a partir da primeira exposição de azulejos e cerâmicas, realizada no Palácio Foz (SNI) em 1945, na qual o painel abaixo reproduzido foi apresentado. No exemplar, Barradas parece ter sido inspirado em alguma pintura italiana do Quattrocento.
Este painel representa a Virgem Maria ofertando um fruto ao Menino ao seu colo. O tema surge sobre um fundo de árvores e casas, sendo envolvido por uma cercadura estilizada com vasos, ramagens floridas e um par de pássaros, na parte superior, ao centro.



Jorge Barradas - Virgem com Menino e Fruto, Fábrica Viúva Lamego, 1945. © CMP


Jorge Barradas - Virgem com Menino e Fruto, Fábrica Viúva Lamego, 1945. © CMP



Painel mural O Mar (fragmento) da autoria de Maria Keil (1914-2012), proveniente da Avenida Infante Santo, Lisboa. Executado na Fábrica Viúva Lamego, em 1958-59.
Composição parcial de um painel de formato rectangular, de grande dimensão, que constitui um dos referentes da obra de Maria Keil e da azulejaria moderna portuguesa. Representa um pescador de pé, a exibir um barco à vela e com uma criança ao colo, tendo como fundo outras embarcações do mesmo tipo. Toda esta figuração joga de maneira conexa e notável com as formas geométricas, as quais são constituídas a partir de uma matriz de losangos e fusos que variam com excepcional elasticidade de escala e proporção ao longo do painel, criando, por sua vez, uma malha que sugere as redes da faina da pesca.
O programa decorativo, de forte pendor geométrico, conjugava-se de forma admirável com o suporte arquitectónico onde se encontrava aplicado, de tal forma que, uma extensa escada que o atravessava, diagonalmente, era assimilada pela composição decorativa do painel, não constituindo elemento estranho ou intromissor.
Na Avenida Infante Santo, no muro onde estava o painel original (de que faz parte o fragmento exposto), foi colocado nos inícios deste século, uma réplica, feita a partir dos cartões originais da artista e produzida pela mesma fábrica, a Viúva Lamego.



Maria Keil - Fragmento do painel O MarFábrica Viúva Lamego, 1958-59. © CMP



Maria Keil - Fragmento do painel O Mar, detalhe, Fábrica Viúva Lamego, 1958-59. © CMP



Maria Keil - Fragmento do painel O Mar, detalhe, Fábrica Viúva Lamego, 1958-59. © CMP



Vista parcial da exposição Fragmentos de Cor | Azulejos do Museu de Lisboa. © CMP



Azulejos de padrão criados por Hansi Staël (1913-1961) para o Hotel Ritz, executados na Fábrica de Sant'Anna, c. 1957-58.
Padronagem moderna inspirada nas antigas composições de azulejo ponta de diamante. A decoração a azul, a verde, a roxo, a amarelo e a negro, em contraste com o esmalte branco, é realizada através de dois azulejos iguais, que se intercalam. organizando dessa forma pirâmides com e sem truncagem no vértice. Este padrão é conhecido por Ritz, por ter sido utilizado no bar do hotel com aquele nome, em Lisboa.



Hansi Staël - Detalhe do padrão Ritz, Fábrica de Sant'Anna, c. 1957-58. © CMP


Padrão formado por quatro azulejos diferentes, em tons predominantes de verde e amarelo, dando origem a uma composição dinâmica e geométrica, característica do início do movimento moderno em Portugal, no qual a artista Hansi Staël, de origem germano-húngara, teve um papel assinalável.
Este padrão foi concebido como ensaio para a decoração do revestimento da fachada norte do Hotel Ritz, em Lisboa e rejeitado, tendo a versão definitiva o mesmo desenho, mas com a substituição da cor verde por azul.


Hansi Staël - Ensaio de padrão para o Hotel Ritz, Fábrica de Sant'Anna, c. 1957-58. © CMP



Vista parcial da exposição Fragmentos de Cor | Azulejos do Museu de Lisboa. © CMP



Painel da antiga Livraria Ática, na Rua Alexandre Herculano, em Lisboa. Da autoria de José de Almada de Negreiros (1893-1970), executado na Fábrica Viúva Lamego, em 1955.
Painel decorativo em pintura policroma, que revestia a parede defronte da entrada da antiga Livraria Ática. Apresenta diversas figuras que reflectem a excepcional expressividade dos desenhos do autor. Ao meio da composição, a cena maternal num pequeno espelho de água.


Almada Negreiros - Painel da antiga Livraria Ática, Fábrica Viúva Lamego, 1955. © CMP



Almada Negreiros - Painel da antiga Livraria Ática, detalhe, Fábrica Viúva Lamego, 1955. © CMP


Almada Negreiros - Painel da antiga Livraria Ática, detalhe, Fábrica Viúva Lamego, 1955. © CMP



Almada Negreiros - Painel da antiga Livraria Ática, detalhe, Fábrica Viúva Lamego, 1955. © CMP



Painel de azulejos, Alto de Santa Catarina, da autoria de Manuel Cargaleiro (n. 1927), realizado na Fábrica Viúva Lamego, em 1969.
Painel policromo constituído por azulejos decorados individualmente com signos de cariz geometrizante e abstracto. É comum na obra do artista as composições recriarem aspectos e/ou sensações derivadas da malha urbana da cidade. 



Manuel Cargaleiro - Painel Alto de Santa Catarina, Fábrica Viúva Lamego, 1969. © CMP 


Maqueta da decoração em azulejos, em arte final (1993), do projecto para a cozinha de um apartamento na Rua dos Correiros, em Lisboa, ilustrando o projecto de revestimento de azulejos, da autoria de Querubim Lapa (1925-2016), realizado em 1988.
Na decoração, as paredes transformam-se num palco do imaginário associado à comida, com integração de cenas irónicas. Sobre o lava-loiça, uma figura masculina, de pé, quase totalmente envolvida por diversos tipos de peixes, assenta num plano aquático cuja linha do horizonte é recortada por barcos. No lado contrário, uma figura feminina, encontra-se coberta por frutos da terra, numa recriação de Pomona, a deusa da abundância e dos pomares. Vitualhas diversas surgem penduradas, como peixes (um deles fumando cachimbo) e carnes, respectivamente, sobre a chaminé e sobre um armário. Os aspectos divertidos ganham particular expressão nas representações debaixo de uma janela, com uma raposa sentada, tocando flauta junto de galináceos. Na profusão decorativa da complexa e irreverente composição, que não se esgota na descrição, Querubim remete para tradições iconográficas ligadas ao azulejo e à cozinha tradicional, percebendo-se influências das figurações híbridas maneiristas conciliadas aos excessos do barroco.


Querubim Lapa - Maqueta para cozinha, 1993, projecto executado da Fábrica Viúva Lamego, 1988. © CMP


Painel Cais das Colunas, realizado por Querubim Lapa nas oficinas da Escola António Arroio, em Lisboa, 1991.
Composição de azulejos cuja decoração foi obtida pela antiga técnica de aresta moldada, revestidos de vidrado de cor verde, corado com óxido de cobre. Representa linhas ondulantes na base, alusivas ao Rio Tejo, as duas colunas do cais do Terreiro do Paço e, distribuídas aleatoriamente, esferas armilares de duas dimensões, evocando o emblema do rei D. Manuel (1469-1521) que este mandou gravar em azulejos sevilhanos, nos inícios de Quinhentos, para decorar o Paço Real de Sintra.



Querubim Lapa - Painel Cais da Colunas, oficina da Escola António Arroio, 1991. © CMP



Querubim Lapa - Painel Cais da Colunas, detalhe, oficina da Escola António Arroio, 1991. © CMP



Painel cerâmico realizado pelo mesmo autor, nas oficinas da Escola António Arroio, em 1992, revela a capacidade criativa de Querubim Lapa, autor de uma obra múltipla que se revela tanto do ponto de vista técnico como em termos imagéticos. 
A composição é em grande parte formada por dois azulejos diferentes que insinuam perfis anatómicos e se repetem, alternando em xadrez. 
Esta matriz é alvo de um jogo de nuances ao nível da textura, cor e brilho dos vidrados, de beloe feito plástico, metamorfoseando-se, na parte superior do painel, ao centro, na silhueta de uma cabeça humana representada de perfil.


Querubim Lapa - Painel relevado, oficina da Escola António Arroio, 1992. © CMP



Querubim Lapa - Painel relevado, detalhe, oficina da Escola António Arroio, 1992. © CMP