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domingo, 9 de fevereiro de 2014

Cavalo - Fernando da Ponte e Sousa - SECLA

Fernando da Ponte e Sousa (1902-1990) foi um dos sócios fundadores da SECLA (Sociedade de Exportação e Cerâmica, Lda.), nas Caldas da Rainha, em 1947.
Para além de o seu papel ter sido fundamental na construção e expansão desta unidade fabril, onde também desempenhou cargos de gestão, foi sobretudo um exímio modelador, tendo sido responsável por uma significativa quantidade de peças produzidas durante a primeira metade da década de 50.
Como já abordámos em publicações anteriores, Ponte e Sousa foi discípulo de Leopoldo de Almeida (1898-1975), tendo frequentado o seu atelier, onde adquiriu treino como escultor. Esta aprendizagem, a par do necessário conhecimento da História da Arte e da constante actualização em relação às tendências internacionais dominantes nas artes decorativas, permitiu-lhe desenvolver um conjunto de peças de características muito diversificadas, que marcaram a produção da SECLA durante os seus primeiros anos.




Fernando da Ponte e Sousa - cavalo estilizado, P.469, SECLA. © CMP



O "Cavalo estilizado", modelo P.469, que agora publicamos, mede 33 cm de altura e constitui um bom exemplo do ecletismo da primeira fase de produção da SECLA. 
Nesta época, a modelação de Ponte e Sousa oscilava sobretudo entre a gramática decorativa Art Déco, vinda da década de 30 e as reinterpretações de sabor neo-clássico e neo-barroco, afloradas na década de 40. No entanto, a sua produção considera ainda fortes influências da Banda-Desenhada, assimilando seguidamente as tendências do pós-Guerra, na criação de linhas para a produção corrente (serviços e outras peças utilitárias) como é o caso do serviço modelo SECLA, já aqui mostrado.



Fernando da Ponte e Sousa - cavalo estilizado, P.469, SECLA. © CMP

Fernando da Ponte e Sousa - cavalo estilizado, P.469, SECLA. © CMP

Fernando da Ponte e Sousa - cavalo estilizado, P.469, SECLA. © CMP

Fernando da Ponte e Sousa - cavalo estilizado, P.469, SECLA. © CMP



Graças a informações prestadas pelo mestre ceramista Herculano Elias (n.1932), que acompanhou os trabalhos na SECLA desde o seu início e a quem muito agradecemos a amabilidade da sua colaboração, sabe-se que este modelo tem por base uma matriz em madeira, o que justificará o tipo de modelação, como se de madeira talhada e torneada se tratasse.
Esta abordagem, que no seu material de origem funcionaria na perfeição, quando transposta para faiança levanta alguns problemas estruturais, já que as pernas longas e esguias da figura se tornam demasiado frágeis. Fragilidade essa que, a longo prazo, contribuiu para a raridade destas peças, sendo actualmente muito difícil encontrar exemplares intactos.



Fernando da Ponte e Sousa - cavalo estilizado, P.469, SECLA. © CMP

Fernando da Ponte e Sousa - cavalo estilizado, P.469, SECLA. © CMP

Fernando da Ponte e Sousa - cavalo estilizado, P.469, SECLA. © CMP


O desenho da figura é definido por um marcado sintetismo Art Déco, no entanto as suas linhas curvas e fluídas permitem-lhe uma longevidade estilística, adaptando-se facilmente ao gosto dominante nas décadas seguintes.
Nas imagens abaixo podemos observar como a simplificação do desenho da cabeça se aproxima do grafismo Art Déco, reduzindo a representação às suas linhas essenciais, como num pictograma. Tal como acontece no padrão têxtil abaixo representado, de origem britânica, anterior à Segunda Guerra Mundial.



Cavalo estilizado, P.469, SECLA, detalhe. © CMP

Cavalo estilizado, P.469, SECLA, detalhe. © CMP

Cavalo estilizado, P.469, SECLA, detalhe. © CMP


Padrão com cabeças de cavalo, estampagem têxtil, Inglaterra, Anos 30 a 40, autor desconhecido.



A peça 469 aparece num catálogo de fábrica da primeira metade da década de 50 descrita como "Cavalo estilizado", onde é mostrada em duas versões revestidas com esmaltes brilhantes e contrastantes. 
Acreditamos que a sua exequibilidade terá sido facilitada pelo uso da pasta feldespática, mais dura, menos porosa e muito mais resistente. No entanto, não terá sido fabricada em grandes quantidades, embora tenha sido reproduzida ao longo das décadas seguintes, ainda que em número limitado.



Fernando da Ponte e Sousa - cavalo estilizado, P.469, imagem retirada de uma cópia de um catálogo de fábrica, Anos 50.



A marca de fábrica "SECLA MADE IN PORTUGAL" aparece na parte inferior do abdómen, muito diluída pelo tipo vidrado utilizado.



Cavalo estilizado, P.469, marca de fábrica. © CMP



Este exemplar datará de finais das décadas de 60 a 70, uma vez que está vidrado a óxido de urânio, um esmalte muito usado pela SECLA até finais dos Anos 70.
O revestimento a óxido de urânio confere às peças uma textura visual particularmente atraente, explorando contrastes entre laranjas avermelhados muito luminosos e várias tonalidades de castanhos ocres pontilhados com reflexos metálicos, como podemos observar nas imagens abaixo.
Uma abordagem tardia, mais orgânica, que sucede à abordagem inicial, mais gráfica, típica da década de 50.



Cavalo estilizado, P.469, SECLA, detalhe do vidrado. © CMP

Cavalo estilizado, P.469, SECLA, detalhe do vidrado. © CMP


Cavalo estilizado, P.469, SECLA, detalhe. © CMP

Cavalo estilizado, P.469, SECLA, detalhe. © CMP



segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Serviço de chá - GAL

Valorizando a articulação entre os espaços da blogosfera dedicados à divulgação da produção de cerâmica em Portugal, especialmente o século XX e a linguagem moderna, aproveitamos para lhes prestar homenagem e agradecer a generosidade dos seus autores na partilha de conhecimentos, propondo em início de ano, uma triangulação com Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém e Moderna uma outra nem tanto, publicando também algumas peças do fabrico da efémera unidade fabril lisboeta, GAL.
Segundo nos informa MAFLS,  a fabrica de faianças GAL funcionou durante um curto período, tendo sido fundada a 27 de Junho de 1935 e encerrando em Dezembro de 1937.
Situava-se na Rua Alves Torgo que, a par da Azinhaga da Fonte do Louro, dava seguimento à antiga estrada de Sacavém, artérias de saída de Lisboa em direcção a Norte. O edifício, hoje desaparecido, ocupava o nº 279, provavelmente demolido aquando da abertura da Avenida Almirante Gago Coutinho, no prolongamento da Avenida Almirante Reis.
Pouco se sabe sobre a fábrica GAL, nem sequer o que significa a sigla que a designava. No entanto, mais uma vez graças a MAFLS, sabemos que os seus sócios fundadores foram António Geraldes, Horácio Canto de Oliveira e José Canto de Oliveira, desconhecendo se algum deles seria responsável pela concepção da louça ali produzida.
Apesar da curta existência, as poucas peças conhecidas da sua produção demonstram enorme modernidade. Como pode ver-se no serviço de chá tête-à-tête que agora mostramos, onde se fazem notar influências do design alemão da República de Weimar e de alguma da produção britânica Art Déco.



GAL - Serviço de chá, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva

GAL - Serviço de chá, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva


Composto por bule, leiteira, açucareiro, duas chávenas e dois pires, as suas formas compactas e aerodinâmicas ecoam influências Vorticistas e Futuristas, apesar de recusar o uso de formas geométricas simples. Embora dentro das propostas formais Art Déco, é dominado por linhas orgânicas, mais tarde exploradas pelo design industrial americano do pós-Guerra.
Tem em comum com as peças apresentadas por MAFLS e MUONT o facto da pintura, neste caso a negro brilhante, ser aerografada sobre o vidrado cor de marfim. A qualidade frágil da faiança é compensada pelo excepcional desenho das formas.
Até ao momento, não foi possível identificar nenhum serviço da produção internacional que tenha servido de modelo a este. O que levanta a questão: será este um serviço de design português ou da autoria de algum designer vindo de fora?



GAL - Bule, açucareiro e leiteira, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva

GAL - Bule, açucareiro e leiteira, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva

GAL - Bule, açucareiro e leiteira, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva


O corpo das peças toma a forma de uma esfera achatada, com caneluras horizontais na metade inferior. 
As asas do bule, açucareiro e leiteira são faixas que envolvem o corpo, num arco elíptico, causando um efeito dramático. O mais surpreendente no desenho, é o facto destas faixas negras poderem simular aplicações em baquelite. 
A baquelite, um antepassado dos materiais plásticos, é uma resina sintética, quimicamente estável e resistente ao calor, inventada no início do século XX. Foi muito utilizada nos Anos 20 e 30 em pegas e asas de várias peças utilitárias, normalmente metálicas, que implicavam o uso de conteúdos quentes. Vulgarmente aparece em cores escuras (preto ou castanho) ou branco, por serem mais estáveis.  
Assim, como podemos ver no bule abaixo, a asa, tampa e bico parecem simular elementos de um material diferente, à semelhança do que era usual com as aplicações em baquelite, no entanto, na realidade são em faiança vidrada e pintada a aerógrafo.

O bule mede c.23 cm de comprimento, c.17 cm de diâmetro e c.12 cm de altura.



GAL - Bule, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva

GAL - Bule, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva

GAL - Bule, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva

GAL - Bule, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva

GAL - Bule, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva

GAL - Bule, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva


A leiteira mede c.16 cm de comprimento, c.12 cm de diâmetro e c.7 cm de altura.



GAL - Leiteira, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva

GAL - Leiteira, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva

GAL - Leiteira, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva

GAL - Leiteira, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva



O açucareiro mede c.17 cm de comprimento, c.11,5 cm de diâmetro e c.9 cm de altura.



GAL - Açucareiro, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva

GAL - Açucareiro, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva

GAL - Açucareiro, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva


Este serviço é o modelo 209, não tendo indicação do número da decoração, como acontece noutras peças da mesma fábrica, o que poderá indiciar não existirem outras variantes decorativas. No entanto, como não se conhecem outros exemplares do mesmo modelo, é impossível ter a certeza.
A marca é manuscrita em letras minúsculas, sendo semelhante em todos as peças componentes do serviço.



GAL - Serviço de chá, marca de fábrica. © Joel Paiva



A chávena mede c.10 cm de diâmetro e c.4 cm de altura. 
O pires mede c.15,5 cm de diâmetro.


GAL - Chávenas de chá, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva

GAL - Chávenas de chá, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva


No pires a decoração é assimétrica, com apenas um segmento do círculo pintado a negro, promovendo um jogo de ilusão óptica com a asa da chávena, compacta e da mesma cor.



GAL - Chávena de chá, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva

GAL - Chávena de chá, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva

GAL - Chávena de chá, marca de fábrica. © Joel Paiva


Da mesma fábrica:



Mais uma vez, CMP* agradece ao coleccionador Joel Paiva, a colaboração e cedência de imagens de peças das suas colecções, sem as quais esta publicação não teria sido possível.


sábado, 29 de dezembro de 2012

Cão - Fábrica de Loiça de Sacavém

Pequeno cão salsicha produzido pela Fábrica de Loiça de Sacavém.
Este adereço aproveita a forma alongada da raça Teckel, muito explorada em cartoons pelo seu aspecto divertido, adaptando-a perfeitamente à função de suporte para talheres - um objecto alongado e baixo, tal como o cão, medindo cerca de 12,3 cm de comprimento. 



Fábrica de Loiça de Sacavém - suporte para talheres, c.1935 a 45. © CMP



Fábrica de Loiça de Sacavém - suporte para talheres, c.1935 a 45. © CMP



Fábrica de Loiça de Sacavém - suporte para talheres, detalhe. © CMP


Este simpático cão de olhos arredondados e expressivos, é na verdade, baseado numa linha de objectos semelhantes, produzidos pela fábrica alemã Goebel.


Goebel e Fábrica de Loiça de Sacavém - suportes para talheres. © CMP


A Goebel produziu inúmeros objectos decorativos e utilitários onde utilizou figuras de animais, incluindo cães de várias raças. Por exemplo as figuras de Terriers são comuns nas peças de desenho Art Déco, já que as formas rectilíneas, típicas da raça, se adequam perfeitamente a esta gramática decorativa. 
Explorando aspectos mais humorísticos, desenvolveu também uma linha de pequenos objectos em forma de Teckel, raça de cães de origem alemã, também chamada Dachshund, cujo corpo comprido e os olhos grandes, podem ser facilmente usados de forma expressiva.



Cão da raça Dachshund ou Teckel.



Fábrica de Loiça de Sacavém e Goebel - suportes para talheres. © CMP



Fábrica de Loiça de Sacavém e Goebel - suportes para talheres. © CMP



O modelo da Goebel, que serviu obviamente de base ao produzido por Sacavém, mede 12,5 cm de comprimento. É aqui mostrado em amarelo, tendo sido também produzido em vermelho, a cor é aplicada a aerógrafo sobre faiança.



Goebel - suporte para talheres, 1935 a 1949. © CMP



Goebel - suporte para talheres, 1935 a 1949. © CMP



Goebel - suporte para talheres, marca de fábrica, 1935 a 1949. © CMP


Exibe a marca de fábrica usada de 1935 a 1949, seguida da numeração do modelo, difícil de descodificar neste exemplar.



Goebel - suporte para talheres, detalhe. © CMP



Fábrica de Loiça de Sacavém - suporte para talheres, detalhe. © CMP


No modelo da Goebel, os olhos esbugalhados e estrábicos, sublinhados por uma leve torção da cabeça, potenciam o efeito humorístico. Já na peça de Sacavém esse efeito é atenuado, pela rigidez da cabeça e pela expressão dos olhos. Também o revestimento é completamente diferente, é usado um vidrado lustroso e manchado, em tonalidades de verde e cinzento, em vez das cores planas e primárias típicas das peças da Goebel.
O mesmo tipo de vidrado pode ser encontrado noutras peças da FLS, como se verifica na jarra abaixo reproduzida, com datação c.1910-1920, segundo Moderna uma outra nem tanto.



Fábrica de Loiça de Sacavém - suporte para talheres, detalhe. © CMP



Fábrica de Loiça de Sacavém - Jarra solitário. © AM-JMV


Fábrica de Loiça de Sacavém - suporte para talheres, detalhe. © CMP 


Segundo Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém, a marca de fábrica, mostrada abaixo, terá sido aplicada após 1930, o que é consistente com a datação da marca da Goebel. Assim sendo, a provável datação da peça será entre 1935 e 1945.



Fábrica de Loiça de Sacavém - suporte para talheres, marca de fábrica. © CMP



Da mesma linha a Goebel produziu ainda outros objectos, cerra-livros ou pequenos frascos para perfume, como os que podemos ver abaixo.
O modelo XF160, esmaltado a aerógrafo em vermelho ou amarelo, mede 7,6 cm de altura e possui o encaixe no gargalo e a tampa em metal.




Goebel - frasco para perfume, detalhe. eBay



Goebel - frasco para perfume, 1935 a 1949. eBay



Goebel - frasco para perfume, 1935 a 1949. eBay



Goebel - frasco para perfume, marca de fábrica, 1935 a 1949. eBay



Goebel - frasco para perfume, 1935 a 1949. eBay



Goebel - frasco para perfume, marca de fábrica, 1935 a 1949. eBay



CMP* agradece as informações obtidas em todos os blogues dedicados à investigação e divulgação da cerâmica portuguesa, aproveitando para desejar um excelente ano de 2013 a todos os seus autores.