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sábado, 18 de janeiro de 2014

Painéis da Casa da Conchas, Figueira da Foz

"Batida pelo grande mar, tendo à direita a bonançosa bahia de Buarcos e à esquerda os rochedos em que assenta o castello de Santa Catharina, que defende a foz do Mondego, a villa da Figueira offerece aos banhistas incomparaveis condições.
A povoação é rica pelo commercio do sal e pela exportação dos vinhos da Bairrada.
Uma companhia edificadora tem construido casas agradaveis, em um bairro novo junto à foz do Mondego, em sítio elevado e sadio. N'este bairro ha um hotel, Foz do Mondego, onde se recebem hospedes a 1$000 reis por dia.
A villa tem ainda mais dois hoteis, o Figueirense e o da Praça Nova, um pequeno theatro, uma praça de touros e dois clubs: a Assembleia Recreativa, no bairro novo, onde se dança às terças e sextas-feiras, e a Assembleia Figueirense, no antigo palácio dos condes da Figueira, onde se dança à quinta-feira e ao domingo.
Além das soirées nos dois clubs, as senhoras costumam organisar concertos e bailes. A soirée é uma das grandes preocupações d'esta praia, e não será por falta de contradanças que os banhistas deixarão de se regosijar n'este sitio.
As burricadas e os pic-nics a Buarcos, ao farol da Guia, ao palacio de Tavarede, vão-se tornando cada vez mais raros.
Por uma disposição superior, cujo alcance debalde nos exforçamos por attingir, é prohibido o ingresso dos burros no interior da villa, o que não obsta a que lá entrem muitos - disfarçados.
(...) Na Figueira, entre a população fixa, que habita a antiga villa e frequenta a Assembleia Figueirense, e a população fluctuante, que habita principalmente o bairro novo e frequenta a Assembleia Recreativa, não ha hostilidades, mas existe uma forte emulação provinciana, que se descarrega muitas vezes em pequenos episodios dignos de Dickens ou de Balzac."

Ramalho Ortigão, "As Praias de Portugal", Magalhães & Moniz Editores, 1876. Págs. 107 a 108.



Casa da Conchas - Esplanada António da Silva Guimarães, Figueira da Foz. © CMP


Cerca de quarenta anos após a publicação de "As Praias de Portugal" de Ramalho Ortigão, seria edificada no chamado Bairro Novo, a Casa das Conchas.
Situado em local privilegiado, a Esplanada António da Silva Guimarães, erigida em memória do oficial da marinha mercante e empreendedor da exploração das minas e indústrias do Cabo Mondego, o complexo composto pela Casa da Conchas, o antigo edifício do turismo e o Castelo Engenheiro Silva, é testemunho das transformações sócio-culturais operadas na Figueira da Foz, na transição entre os séculos XIX e XX, fazendo notar o gosto ecléctico de uma tipologia arquitectónica de habitação privada de veraneio, completamente distinta do restante aglomerado urbano.
Esta diversidade construtiva ir-se-á disseminar durante a primeira metade do século passado, dando origem à rica variedade do edificado que constitui o tecido urbano do Bairro Novo, com exemplares revivalistas, historicistas, de influências Arte Nova, Art Déco e até bauhausianas.



Bilhete postal, ed. José dos Santos Alves, com data anterior a 1928. Figueira Digital


Bilhete postal, década de 40. Figueira Digital


A Casa da Conchas deve o seu nome ao remate do topo da fachada, guarnecido com uma fileira de elementos escultóricos em forma de concha de vieira (nome cientifico Pecten maximus). A temática marinha estende-se ao conjunto azulejar organizado segundo um friso horizontal ao longo de toda a fachada, imediatamente acima das janelas do segundo piso e um conjunto de painéis distribuídos sobre as janelas do piso térreo.
Os recursos estilísticos Arte Nova dominam a composição, em entrelaçados fitomórficos de linhas ondulantes, simulando algas que enquadram espécimes da fauna marinha ou a ela associados, várias espécies de peixes, búzios, gaivotas, caranguejos, etc.
Esta concepção não encontra correspondência na restante decoração da fachada, de composição rectilínea com alguns elementos classicizantes, contribuindo para uma mistura sóbria mas ecléctica.


Casa da Conchas, Figueira da Foz - friso azulejar, detalhe. © CMP


Casa da Conchas, Figueira da Foz - friso azulejar, detalhe. © CMP


Casa da Conchas, Figueira da Foz - friso azulejar, detalhe. © CMP


Casa da Conchas, Figueira da Foz - friso azulejar, detalhe. © CMP


Desconhecemos qual a fábrica responsável pela produção deste conjunto azulejar, bem como os seus autores ou autor. No contexto português a sua originalidade é notória, bem como o cuidado na representação fiel ou caracterização das espécies, todas elas diferenciadas e provavelmente reproduzidas a partir de gravuras científicas.



Casa da Conchas, Figueira da Foz - friso azulejar, detalhe. © CMP


Casa da Conchas, Figueira da Foz - friso azulejar, detalhe. © CMP


Casa da Conchas, Figueira da Foz - friso azulejar, detalhe. © CMP


Casa da Conchas, Figueira da Foz - friso azulejar, detalhe. © CMP


Casa da Conchas, Figueira da Foz - friso azulejar, detalhe. © CMP


Casa da Conchas, Figueira da Foz - friso azulejar, detalhe. © CMP


Os painéis, embora em razoável estado de conservação, apresentam já algumas lacunas e azulejos erradamente posicionados. Aparentemente a fachada terá sido alvo de recente intervenção de restauro, sendo que numa das varandas do último piso foram incompreensivelmente colocadas guardas em betão, completamente desintegradas do contexto.


Casa da Conchas, Figueira da Foz - painel de sobrejanela. © CMP


Casa da Conchas, Figueira da Foz - painel de sobrejanela. © CMP


Casa da Conchas, Figueira da Foz - painel de sobrejanela. © CMP


Casa da Conchas, Figueira da Foz - painel de sobrejanela. © CMP


Casa da Conchas, Figueira da Foz - painel de sobrejanela. © CMP


Casa da Conchas, Figueira da Foz - painel de sobrejanela. © CMP
 

Casa da Conchas, Figueira da Foz - Vista parcial com placa toponímica. © CMP


Recentemente reabilitada a Esplanada António da Silva Guimarães, na sua longa plataforma virada a poente, mantém-se o lugar privilegiado para usufruir de uma abrangente panorâmica sobre a costa, desde entrada da barra até ao Cabo Mondego. 
A Casa das Conchas, actualmente transformada em edifício de apartamentos é testemunho de uma época dourada, da estância balnear cada vez mais descaracterizada que é a Figueira da Foz. 
Novas construções de escala desmesurada ou obras de remodelação mal conduzidas podem ser fatais para uma povoação que cresceu e formou a sua personalidade no cuidado dos pequenos detalhes. Façamos votos para que a conservação seja uma realidade, que os bons exemplos arquitectónicos prevaleçam e que aqueles que abusivamente vieram contaminar o seu território, sejam erradicados.


Casa da Conchas, Figueira da Foz - painel de sobrejanela. © CMP


Casa da Conchas, Figueira da Foz - painel de sobrejanela. © CMP



segunda-feira, 29 de julho de 2013

Maria Keil - Duas mostras, 1955 e 2013

Maria Keil (1914-2012) a mais multifacetada artista do Modernismo em Portugal, vê finalmente a sua obra exposta de modo abrangente, ainda que não exaustivo, na mostra "De propósito, Maria Keil, Obra Artística".
A selecção de trabalhos inclui peças representativas das múltiplas áreas disciplinares exploradas pela artista: pintura; ilustração; azulejo; cenografia e figurinos; design gráfico; publicidade; mobiliário; decoração e tapeçaria mural. Sempre sob o signo do Desenho, disciplina orientadora de toda a produção artística da autora.
Desta exposição fica ainda a promessa da publicação de um catálogo raisonné, a sair até final de 2013, contribuição fundamental para a sistematização da surpreendente diversidade de uma obra profícua e multidisciplinar.
As imagens aqui apresentadas registam algumas das peças expostas, aproveitando para evocar outro momento expositivo, o primeiro dedicado pela artista inteiramente às artes decorativas. Decorreu na Galeria Pórtico, em Lisboa, de Maio a Junho de 1955, dando visibilidade à obra azulejar em desenvolvimento, que viria  mais tarde a culminar  nos painéis de grande escala para o Metropolitano de Lisboa.



Maria Keil - Combate de Galos, painel de azulejos, 102x171 cm, 1955, colecção particular. © CMP



A Galeria Pórtico abre, na Rua da Misericórdia 33, em 1955, ano precedente à última (X) Exposição Geral de Artes Plásticas e à criação da Fundação Calouste Gulbenkian, início de um novo ciclo na história da arte em Portugal.
Logo no ano de abertura mostra obras de Fernando Lemos (n.1926), Vespeira (1925-2002), Manuel Cargaleiro (n.1927), Valadas Coriel (n.1928), Júlio dos Reis Pereira (1902-1983), para além de Maria Keil, acima citada, realizando ainda exposições de gravura e de carácter didáctico.
Desempenhou um papel importante na divulgação de uma nova geração de artistas, então ainda estudantes de Belas-Artes, René Bertholo (1935-2005), Lourdes Castro (n.1930), José Escada (1934-1980) e Costa Pinheiro (n.1932), todos eles aí expondo, individual ou colectivamente entre 55 e 57. Este grupo será mais tarde, já em Paris, responsável pela criação da revista KWY (1958-1964).
A Pórtico promoveria ainda, em 57, a exibição de obras de Vieira da Silva (1908-1992), último ano em que manterá programação regular, acabando por encerrar em 1959.

 

Maria Keil - Combate de Galos, painel de azulejos, detalhe, 1955, colecção particular. © CMP


Maria Keil, teve obra pictórica apreendida pela PIDE na II Exposição Geral de Artes Plásticas, em 1947, juntamente com Júlio Pomar (n.1926), Rui Pimentel (Arco) (n.1924) e Manuel Ribeiro de Pavia (1910-1957), dedicando-se no ano seguinte à decoração de interiores da Pousada de S. Lourenço, na Serra da Estrela, projectada pelo arquitecto Rogério de Azevedo (1898-1983), desenhando mobiliário, actividade que vinha desenvolvendo desde meados da década de 40, tanto para encomendas públicas como privadas, muitas vezes em colaboração com o seu marido, o arquitecto Francisco Keil do Amaral (1910-1975).
A exposição na Pórtico, "Móveis de Maria Keil e Manuel Magalhães - Azulejos de Maria Keil", representa assim o amadurecer de um percurso de vários anos de actividade. Aliando às peças por si desenhadas e realizadas pelo mestre entalhador Manuel Magalhães, azulejos executados na fábrica Viúva Lamego, tanto em painéis como integrados em mobiliário.


Maria Keil - Combate de Galos, painel de azulejos, detalhe, 1955, colecção particular. © CMP


Maria Keil - Combate de Galos, painel de azulejos, detalhe, 1955, colecção particular. © CMP



Maria Keil - Combate de Galos, painel de azulejos, detalhe, 1955, colecção particular. © CMP



Maria Keil - Combate de Galos, painel de azulejos, detalhe, 1955, colecção particular. © CMP


Um dos exemplares mostrados em 1955 é o painel Combate de Galos, acima reproduzido, onde a espessa linha que define o desenho dos animais é esgrafitada sobre um fundo padronado, criando um efeito semelhante à técnica de corda-seca, mais tarde aplicada por Keil nos revestimentos da estação Rossio, do Metropolitano de Lisboa. Técnica semelhante foi utilizada no painel Os Papagaios, igualmente exposto em 55.
Este desenho, dinâmico e abstractizante, demonstra uma particular eficiência gráfica, sublinhada pela repetição de um módulo de desenho linear, tendo por base os alvéolos da rede de capoeira.
Esta abordagem, distancia-se claramente do registo ilustrativo, trabalhado com bastante à-vontade pela artista, em inúmeros livros infantis e escolares, como podemos verificar pelos estudos abaixo reproduzidos, de temática semelhante.



Maria Keil - estudo para ilustração do livro Histórias da Minha Rua, guache e tinta-da-china sobre papel, 1953, colecção da BNP. © CMP

Maria Keil - estudos para ilustração do livro O pau-de-fileira, tinta-da-china, grafite e guache, 1977, colecção da BNP. © CMP

Na exposição na Pórtico, foram mostrados dezasseis painéis de azulejo, incluindo excertos de revestimentos de parede, entretanto concebidos pela artista. Entre estes constava o painel Os Pastores, já aqui referido, a propósito da estação de Metro, Parque.
Abaixo podemos ver um projecto para um dos painéis apresentados, A Figueira, e um detalhe do projecto para uma parede na sede da TAP em Paris, da qual foi exibido um excerto, tal como aconteceu com a parede desenhada para a Aerogare de Luanda, realizada em 1954.


Maria Keil - estudo para painel de azulejos A Figueira, lápis sobre papel vegetal, 1955, colecção do MNAZ. © CMP

Maria Keil - painel de azulejos A Figueira, 1955, colecção particular. Imagem publicada no catálogo Maria Keil - Azulejos, edição do Museu Nacional do Azulejo, 1989.

Maria Keil - detalhe de painel de azulejos Rapariga da Fruta, 1955. Imagem publicada na revista Panorama, nº3, 1956, divulgando a exposição na galeria Pórtico, Lisboa.


Sobre os azulejos expostos, escreve Maria Keil, no catálogo de 1955, um texto exemplar que poderá ser entendido como manifesto da modernização da produção azulejar em Portugal: 
"Poucas artes aplicadas têm tradições tão portuguesas como a dos azulejos de revestimento e pouquíssimas contribuíram tanto para o que há de característico nas nossas edificações dos últimos séculos. E, no entanto, mercê de circunstâncias mal definidas, essa tradição magnífica quase se perdeu. Vem vegetando na execução de pequenos painéis com santos do mesmo nome dos donos de quintas e de casais, ou na repetição de motivos «à antiga portuguesa».
Parece-me que vale a pena, a vários títulos, insuflar vida nessa tradição decadente e que aos arquitectos cabe, necessariamente, um papel importante nessa tarefa: porque se não derem guarida aos azulejos nas suas obras, nada feito. Mas a nós, pintores e decoradores, cumpre fornecer aos arquitectos azulejos adequados para os edifícios e as soluções de hoje. Azulejos de espírito moderno para as obras de arquitectura moderna.
Na tradição do azulejo português há duas feições dominantes: a dos motivos pintados à mão, com um número de cores bastante reduzido, em que predomina o azul; e a dos elementos estampilhados em série, que se empregou, principalmente, para revestir fachadas de prédios e grandes superfícies interiores. Nessa tradição limitada, mas rica de possibilidades para quem tiver imaginação, procurei lançar as minhas raízes. Ela continua a ser, quanto a mim, perfeitamente adequada para valorizar a arquitectura. Para valorizar integrando-se nela discretamente, como é preciso.
Não permite, é certo, os requintes da cerâmica policromada, nem é rico e quente (bem pelo contrário) o material visto ao pé. Mas, assim mesmo, conseguiram os nossos maiores realizar coisas tão belas, tão certas para os locais e as funções a que se destinavam, tão simples, tão humildes, tão bem compreendidas, que me parece impensada vaidade desprezar a lição magnífica que encerram.
As minhas obras são apenas ensaios, tentativas, que a boa-vontade e simpatia dos que dirigem e dos que trabalham na Fábrica de Cerâmica Viúva Lamego tornou possível, com os seus ensinamentos e a sua ajuda. São, na maioria dos casos, troços de grandes superfícies já revestidas, ou a revestir. E como tal gostaria que fossem olhadas.



Maria Keil - detalhe do estudo para parede em azulejos na sede da TAP em Paris, tinta-da-china, guache e colagem sobre cartão, 1954, colecção particular. © CMP


Foram também mostradas peças de mobiliário integrando azulejo, como é o caso da Mesa dos Frutos, abaixo reproduzida, cujo tampo é composto por dezasseis azulejos. O motivo central combina pintura com desenho esgrafitado e a cercadura é composta por um conjunto de motivos avulso, figurando vários frutos, em tonalidades de verde e azul, envoltos num grafismo dinâmico, elemento agregador da composição.


Maria Keil - Mesa dos Frutos, 1955, colecção particular. © CMP



Maria Keil - Mesa dos Frutos, tampo, 1955, colecção particular. © CMP



Maria Keil - Mesa dos Frutos, detalhe do motivo central do tampo, 1955, colecção particular. © CMP



Maria Keil - Mesa dos Frutos, detalhe da cercadura do tampo, 1955, colecção particular. © CMP


A complexidade das peças de mobiliário expostas na Pórtico, afasta-se do trabalho desenvolvido, anos antes, para a Pousada de Manteigas, revelando uma maior sofisticação, tanto estrutural, como técnica. 
É um mobiliário de concepção moderna, longe da estilização folclórica proposta anos antes segundo os ditames da Campanha do Bom Gosto do SPN. Conjuga a utilização de vários materiais, como madeiras ou metais, onde o detalhe minucioso, não é rústico, nem é barroco, revelando um alinhamento pelas tendências internacionais, especialmente o desenho de mobiliário italiano, associado a uma primorosa execução técnica.



Maria Keil - Bar dos Cavalos, 1955, colecção particular. © CMP

Sobre as suas propostas de mobiliário diz a autora, no catálogo supracitado:
"Quanto à feição que pretendi imprimir-lhes, estes móveis constituem uma tentativa de resposta às seguintes perguntas que a mim mesma vinha fazendo com crescente frequência:
- Será que estamos realmente condenados, em Portugal, a recorrer às imitações pomposas de móveis antigos sempre que pretendemos arranjar uma casa nova com certa distinção, ou riqueza?
- Não haverá outro, ou outros caminhos? Não será possível fazer móveis de hoje, simples, mas enobrecidos e enriquecidos pela intervenção de artistas plásticos?
É certo que a feição característica do mobiliário contemporâneo é acentuadamente utilitária, com grande sobriedade de linhas e de volumes. É certo ainda que as vantagens resultantes do emprego de novas técnicas de produção em série devem colocar ao alcance do homem comum móveis de preço acessível, mas com modelos estudados cuidadosamente por especialistas de elevada categoria.
Contudo, creio bem que a par desses móveis (raríssimos ainda entre nós, infelizmente) há lugar para esse outro tipo de mobiliário cuja falta sinto - sóbrio e funcional mas valorizado pelo poder criador e pelo trabalho de artistas e artífices.
Os motivos de talha, de embutidos e de metais são, porventura, os mais constantes na tradição do mobiliário. E foi nessa tradição que lancei raízes. Variando mais uma vez o estilo do conjunto e dos motivos ornamentais, como era natural, mas procurando beneficiar dos ensinamentos da Tradição e respeitá-la no que ela tem de vivo e respeitável.
As peças expostas estudei-as e desenhei-as com a atenção que se dedica a uma esperança. Isso, porém, não seria bastante. Porque os móveis de arte têm que ser executados por quem os compreenda e sinta. De nada serviria ter concebido e desenhado as figurinhas para fazer em talha se não encontrasse quem as realizasse convenientemente. Neste ponto, porém, a Sorte acompanhou-me: o senhor Manuel Magalhães é um mestre entalhador de grandes recursos técnicos e de apurada sensibilidade. Com um carinho, uma perícia e uma compreensão invulgares soube transformar os meus desenhos a duas dimensões em pequenas esculturas. A ele se deve, portanto, muito do que possam valer as peças expostas."


Maria Keil - Papeleira dos Meninos e da Água, 1955, colecção particular. © CMP



Maria Keil - Papeleira dos Meninos e da Água, detalhe, 1955, colecção particular. © CMP


Para além dos exemplares referidos, estiveram ainda expostos na Pórtico, segundo o catálogo:
- Mesa dos Cavalos
- Armário dos Camponeses
- Papeleira dos Pescadores
- Móvel da Fonte


 




A exposição "De propósito, Maria Keil, Obra Artística", está patente no Palácio da Cidadela de Cascais, de 10 de Julho a 27 de Outubro, do ano corrente. É organizada pelo Museu da Presidência da República, sob a coordenação de Diogo Gaspar e tem curadoria de Alexandre Arménio Tojal e Rui Manuel Almeida.



quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Painéis da Pelaria Pampas - Lucien Donnat

"Eu sou um homem do século XX. Em 2020  já não estarei cá, já ninguém se lembrará de mim. Assim com já ninguém se lembra da Ava Gardner ou do Clark Gable. Tiveram a sua época e foram magníficos. Também eu fiz tudo o que de mais espectacular se fez no teatro em Portugal daquela época. O que se fazia naqueles tempos com os escassos meios técnicos era espantoso.
Hoje em dia, tudo é substituído por um computador que acende a luz onde se quer, por exemplo. Eu já não pertenço à actualidade. Nem me quero actualizar."
Lucien Donnat, 14 de Setembro de 2000.
Salvador, Fernando - Lucien Donnat: Um Percurso. Sebentas, ESTC, 2007.


Lucien Donnat no seu atelier no Largo Trindade Coelho, Lisboa, 2002. © Pedro Velez - Público


CMP* homenageia Lucien Donnat (1920-2013), recentemente desaparecido, publicando os painéis da Pelaria Pampas, situada na Baixa Lisboeta, no cruzamento da Rua da Conceição com a Rua da Prata.
Embora especialmente notado como cenógrafo e decorador, através da autoria e colaboração em inúmeros projectos no âmbito das artes decorativas, Donnat deu um importante contributo, quer para a azulejaria, quer para a decoração de peças em porcelana.



Placa indicativa do atelier de Lucien Donnat, Largo Trindade Coelho, Lisboa. © CMP


Lucien Donnat nasceu em Paris, em 1920, cidade a que regressaria dezasseis anos depois, para cursar a Ecole dês Arts Décoratifs, após infância passada em Lisboa.
No final da década de 30, com o advento da Guerra, fixa-se em Portugal, começando, em 1941, a trabalhar no Teatro Nacional D. Maria II.
Assume o cargo de director artístico da Companhia Amélia Rey Colaço Robles Monteiro, fundada em 1921 e dirigida pelos dois actores, sendo responsável pela cenografia, figurinos, algumas das encenações e composições musicais, de muitas das peças levadas à cena pela Companhia, bastas vezes em parceria com outros artistas e decoradores.
A carreira teatral de Donnat abranda em 1974, com a extinção da Companhia. A escassez de trabalho após o 25 de Abril, obriga-o a viajar para o Brasil, trabalhando em vários países da América do Sul. Nesta fase dedica-se sobretudo a novos projectos de decoração ou à reformulação e manutenção de projectos anteriores de sua autoria, já na década de 80, de regresso a Portugal.



Pelaria Pampas situada no cruzamento da Rua da Conceição, nº65, com a Rua da Prata. © CMP


Foi autor do projecto decorativo da Pelaria Pampas e, embora os painéis em azulejo das fachadas, estejam identificados com o seu nome, carecem de data, não apresentando também nenhum registo da fábrica onde foram produzidos.
O estabelecimento comercial deve o seu nome à conhecida região da América do Sul, exportadora de peles, estando a decoração, tanto interior, como exterior, claramente subordinada ao tema. Pouco se sabe sobre a encomenda, talvez contemporânea da Relojoaria Cayres (actualmente Relojoaria e Ourivesaria Justus), da autoria dos arquitectos Carlos (1877-1971) e Guilherme Rebelo de Andrade (1891-1969), com cerâmicas decorativas de Jorge Barradas (1894-1971), inaugurada em 1946, na Rua do Ouro. Já que, estilisticamente o desenho se identifica indubitavelmente com as características gráficas dominantes na década de 40.
Originalmente o interior era revestido a madeiras escuras, recortadas, em contraste com os estuques brancos, reflectores da luz proveniente das amplas janelas. Sobre a porta, figura um baixo-relevo representado Diana, deusa da caça, numa clara alusão à temática proposta. Actualmente os interiores encontram-se pintados de verde ácido, desfigurando os contornos clássicos previstos no projecto inicial.



Lucient Donat - detalhe da decoração interior da Pelaria Pampas.


Após a Exposição do Mundo Português em 1940, o S.P.N. (Secretariado de Propaganda Nacional) dá fôlego redobrado à Campanha do Bom Gosto.
No nº1 da "Panorama - Revista Portuguesa de Arte e Turismo", publicação da responsabilidade do S.P.N., explicita-se o que se entende por "bom gosto", clarificando os objectivos da Campanha: "Por bom gosto entende-se, portanto, aqui, determinado estilo, determinada graça, determinado toque de originalidade que faz com que a fachada ou a simples janela de uma casa, a montra de uma loja, um cartaz, o recanto de uma sala de espera, a mesa de um restaurante, etc. nos atraiam discretamente os sentidos e, carinhosamente, os afaguem. A nota justa do conforto e da simpatia é-nos dada assim, pela conjugação harmónica dos elementos plásticos (volumes e cores), em lógica e estrita obediência aos fins a que se destinam."
A Campanha do Bom Gosto promoveu a renovação de montras e fachadas de muitas casas comerciais na Baixa lisboeta (entre as quais provavelmente estará a Pelaria Pampas), a par de várias outras iniciativas relacionadas com a promoção turística. Concretizando, sempre em tom didáctico, as directrizes da "política do espírito".



Pelaria Pampas vista da Rua da Prata. © CMP


Lucien Donnat - painel da Pelaria Pampas, Anos 40 (?). © CMP


O painel de maiores dimensões, situado no silhar da fachada virada para a Rua da Prata, tem por base uma composição simétrica, cujo eixo vertical é encimado pela figura de uma catatua, ladeada por dois cavalos com as patas da frente levantadas, o cenário é composto por vegetação rasteira, estilizada, onde significativamente podemos encontrar cactos, as Opuntias tão características da América do Sul.
Toda a figuração parece evocar a fauna e flora da região das Pampas, ainda que tratada de forma estilizada. As figuras estão envolvidas por faixas ondulantes, potenciando o efeito teatral, segundo o gosto neo-Barroco, tão em voga na época, mas também demonstrando o pendor cenográfico, dominante no trabalho de Donnat.



Lucien Donnat - painel da Pelaria Pampas, detalhe. © CMP


Lucien Donnat - painel da Pelaria Pampas, detalhe. © CMP



Lucien Donnat - painel da Pelaria Pampas, detalhe. © CMP



Lucien Donnat - painel da Pelaria Pampas, detalhe. © CMP



Lucien Donnat - painel da Pelaria Pampas, detalhe. © CMP


Lucien Donnat - painel da Pelaria Pampas, assinatura. © CMP


Estes painéis foram produzidos pela Fábrica Sant'Anna, passados a azulejo pelo pintor Resende (segundo nos informou um leitor, a quem agradecemos), manufactura onde foram igualmente executados os painéis da Estação do Rossio, também desenhados por Lucien Donnat. Sabe-se que o autor trabalhou ainda com a Fábrica Viúva Lamego, no desenho de lambrilhas e azulejos. 



Pelaria Pampas vista da Rua da Conceição. © CMP



Pelaria Pampas, Rua da Conceição, nº65, detalhe. © CMP



Lucien Donnat - painéis da Pelaria Pampas, detalhe. © CMP


Lucien Donnat - painéis da Pelaria Pampas, detalhe. © CMP

O estreito painel situado no silhar da fachada virada para a Rua da Conceição, é mais uma vez composto segundo um eixo vertical de simetria, articulando duas figuras de catatua com elementos vegetalistas e penas, configurando um ondulante friso decorativo.


Lucien Donnat - painéis da Pelaria Pampas, detalhe. © CMP


Como director artístico, Lucien Donnat foi responsável pela concepção de dezenas de cenários e figurinos, tendo doado muitas das suas maquetas ao Museu Nacional do Teatro
Deste acervo seleccionámos "Palácio de Teseu em Atenas", um dos cenários para a peça "Sonho de uma Noite de Verão" de William Shakespeare, levada à cena pela Companhia Rey Colaço Robles Monteiro, no Teatro Nacional D. Maria II, em 1952
O desenho, um guache sobre cartão, mostra a sala do palácio, com vista para exterior através de uma colunata. Os pontos de luz estão distribuídos de forma simétrica, do lado esquerdo duas candeias ladeiam uma porta, do lado direito uma lareira e uma tocha.
O modo como as faixas de tecido ondulam, criando efeitos drapeados, bem como a utilização de certos recursos gráficos, aproximam-no do desenho e dos princípios orientadores do projecto decorativo da Pelaria Pampas.


Lucien Donnat - Maqueta de cenário para a peça "Sonho de uma Noite de Verão", 1952. MatrizNet


Lucient Donat trabalhou ainda em cinema, como director artístico e cenógrafo no filme "Ladrão, Precisa-se!" (1946) de Jorge Brum do Canto (1910-1994).
No entanto, sempre manteve como actividade principal a decoração de interiores, concebendo inúmeros projetos para habitações privadas e hotéis. O Hotel Palácio do Estoril, construído em 1930, foi um dos seu projectos mais relevantes, onde o gosto Art Déco se conjuga com a sobriedade clássica.
Ainda como decorador esteve ligado aos projectos do Hotel Avenida PalaceHotel Ritz e Hotel da Lapa, em Lisboa e do Grande Hotel Panorama, em Luanda, entre outros.

A relevância da sua actividade como decorador e cenógrafo propicia-lhe propostas de trabalho muito diversificadas.
Neste contexto foi autor da decoração do serviço produzido pela Vista Alegre, utilizado no banquete oferecido pela Câmara Municipal de Lisboa, à Rainha Isabel II de Inglaterra, pela ocasião da sua visita a Portugal em 1957.
A gramática decorativa clássica, é reveladora das naturais tendências do seu autor, perfeitamente adequadas ao carácter institucional do evento. O modelo, terá sido recuperado de um antigo serviço da Companhia da Índias, combinando elementos decorativos dourados, com cenas de Lisboa quinhentista e frisos em forma de corda, ao gosto Manuelino, a preto e branco.


Lucien Donnat - Terrina, Vista Alegre, 1956. Catálogo do IX Leilao VA, 2009.


Lucien Donnat - desenho para prato, Verbete nº4529, 1956. Catálogo do IX Leilao VA, 2009.


O desenho concebido em 1956, parece articular-se com o dos serviços oferecidos pela Presidência da República, a quando da visita do Presidente Craveiro Lopes (1894-1964) a Inglaterra, provavelmente também da autoria de Donnat.
A revista Panorama, de Junho de 1956, "publica as fotografias do serviço de almoço e do serviço de chá que o Senhor General Craveiro Lopes ofereceu, respectivamente, à Rainha Isabel e ao Duque de Edimburgo, durante a sua visita à Inglaterra. A Fábrica da Vista Alegre inspirou-se num serviço da antiga Companhia da Índias ao realizar aqueles serviços de almoço e de chá, ambos brancos com decorações a dourado e azul. No serviço de almoço estão gravadas as iniciais de Isabel de Inglaterra e no de chá, as armas do Duque de Edimburgo."


Vista Alegre - imagem dos serviços oferecidos pela Presidência da República Portuguesa à Rainha Isabel de Inglaterra, revista Panorama,1956. © CMP

Vista Alegre - imagem dos serviços oferecidos pela Presidência da República Portuguesa à Rainha Isabel de Inglaterra e ao Duque de Edimburgo, revista Panorama,1956. © CMP