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segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Serviço de chá - GAL

Valorizando a articulação entre os espaços da blogosfera dedicados à divulgação da produção de cerâmica em Portugal, especialmente o século XX e a linguagem moderna, aproveitamos para lhes prestar homenagem e agradecer a generosidade dos seus autores na partilha de conhecimentos, propondo em início de ano, uma triangulação com Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém e Moderna uma outra nem tanto, publicando também algumas peças do fabrico da efémera unidade fabril lisboeta, GAL.
Segundo nos informa MAFLS,  a fabrica de faianças GAL funcionou durante um curto período, tendo sido fundada a 27 de Junho de 1935 e encerrando em Dezembro de 1937.
Situava-se na Rua Alves Torgo que, a par da Azinhaga da Fonte do Louro, dava seguimento à antiga estrada de Sacavém, artérias de saída de Lisboa em direcção a Norte. O edifício, hoje desaparecido, ocupava o nº 279, provavelmente demolido aquando da abertura da Avenida Almirante Gago Coutinho, no prolongamento da Avenida Almirante Reis.
Pouco se sabe sobre a fábrica GAL, nem sequer o que significa a sigla que a designava. No entanto, mais uma vez graças a MAFLS, sabemos que os seus sócios fundadores foram António Geraldes, Horácio Canto de Oliveira e José Canto de Oliveira, desconhecendo se algum deles seria responsável pela concepção da louça ali produzida.
Apesar da curta existência, as poucas peças conhecidas da sua produção demonstram enorme modernidade. Como pode ver-se no serviço de chá tête-à-tête que agora mostramos, onde se fazem notar influências do design alemão da República de Weimar e de alguma da produção britânica Art Déco.



GAL - Serviço de chá, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva

GAL - Serviço de chá, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva


Composto por bule, leiteira, açucareiro, duas chávenas e dois pires, as suas formas compactas e aerodinâmicas ecoam influências Vorticistas e Futuristas, apesar de recusar o uso de formas geométricas simples. Embora dentro das propostas formais Art Déco, é dominado por linhas orgânicas, mais tarde exploradas pelo design industrial americano do pós-Guerra.
Tem em comum com as peças apresentadas por MAFLS e MUONT o facto da pintura, neste caso a negro brilhante, ser aerografada sobre o vidrado cor de marfim. A qualidade frágil da faiança é compensada pelo excepcional desenho das formas.
Até ao momento, não foi possível identificar nenhum serviço da produção internacional que tenha servido de modelo a este. O que levanta a questão: será este um serviço de design português ou da autoria de algum designer vindo de fora?



GAL - Bule, açucareiro e leiteira, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva

GAL - Bule, açucareiro e leiteira, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva

GAL - Bule, açucareiro e leiteira, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva


O corpo das peças toma a forma de uma esfera achatada, com caneluras horizontais na metade inferior. 
As asas do bule, açucareiro e leiteira são faixas que envolvem o corpo, num arco elíptico, causando um efeito dramático. O mais surpreendente no desenho, é o facto destas faixas negras poderem simular aplicações em baquelite. 
A baquelite, um antepassado dos materiais plásticos, é uma resina sintética, quimicamente estável e resistente ao calor, inventada no início do século XX. Foi muito utilizada nos Anos 20 e 30 em pegas e asas de várias peças utilitárias, normalmente metálicas, que implicavam o uso de conteúdos quentes. Vulgarmente aparece em cores escuras (preto ou castanho) ou branco, por serem mais estáveis.  
Assim, como podemos ver no bule abaixo, a asa, tampa e bico parecem simular elementos de um material diferente, à semelhança do que era usual com as aplicações em baquelite, no entanto, na realidade são em faiança vidrada e pintada a aerógrafo.

O bule mede c.23 cm de comprimento, c.17 cm de diâmetro e c.12 cm de altura.



GAL - Bule, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva

GAL - Bule, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva

GAL - Bule, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva

GAL - Bule, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva

GAL - Bule, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva

GAL - Bule, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva


A leiteira mede c.16 cm de comprimento, c.12 cm de diâmetro e c.7 cm de altura.



GAL - Leiteira, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva

GAL - Leiteira, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva

GAL - Leiteira, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva

GAL - Leiteira, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva



O açucareiro mede c.17 cm de comprimento, c.11,5 cm de diâmetro e c.9 cm de altura.



GAL - Açucareiro, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva

GAL - Açucareiro, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva

GAL - Açucareiro, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva


Este serviço é o modelo 209, não tendo indicação do número da decoração, como acontece noutras peças da mesma fábrica, o que poderá indiciar não existirem outras variantes decorativas. No entanto, como não se conhecem outros exemplares do mesmo modelo, é impossível ter a certeza.
A marca é manuscrita em letras minúsculas, sendo semelhante em todos as peças componentes do serviço.



GAL - Serviço de chá, marca de fábrica. © Joel Paiva



A chávena mede c.10 cm de diâmetro e c.4 cm de altura. 
O pires mede c.15,5 cm de diâmetro.


GAL - Chávenas de chá, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva

GAL - Chávenas de chá, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva


No pires a decoração é assimétrica, com apenas um segmento do círculo pintado a negro, promovendo um jogo de ilusão óptica com a asa da chávena, compacta e da mesma cor.



GAL - Chávena de chá, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva

GAL - Chávena de chá, modelo 209, 1935-37. © Joel Paiva

GAL - Chávena de chá, marca de fábrica. © Joel Paiva


Da mesma fábrica:



Mais uma vez, CMP* agradece ao coleccionador Joel Paiva, a colaboração e cedência de imagens de peças das suas colecções, sem as quais esta publicação não teria sido possível.


quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

"Daily Life" - Cruzeiro Seixas

O Surrealismo, fundado por André Breton (1896-1966) em 1924, constitui-se como um espaço laboratorial para a criação de objectos intrigantes, explorando as vivências do quotidiano na sua dimensão absurda ou evocando os mistérios do subconsciente, através de um lirismo onírico.
Os objectos surrealistas, descendentes directos dos ready-mades de Marcel Duchamp (1882-1968) e das assemblagens Dada, combinam elementos aparentemente estranhos entre si, suscitando leituras múltiplas, muitas vezes metafóricas. Organizam-se em diversas tipologias, por exemplo: o Objet Trouvé, vindo da tradição das colagens Cubistas, que, como o nome indica, consiste na manipulação de objectos encontrados; ou o Poème-Objet, construção inventada por Breton, agregando vários objectos ou fragmentos, combinados com a escrita.
Embora este movimento artístico se tenha manifestado em território nacional, pela primeira vez, em 1940, só mais tarde Artur do Cruzeiro Seixas (n.1920) se assumirá como uma das suas figuras de referência, sendo responsável pela criação de alguns dos objectos mais significantes, no contexto do Surrealismo em Portugal. A sua obra estende-se ao desenho, pintura e poesia, mas é através dos objectos que melhor concretiza uma surpreendente capacidade de síntese.
Integrará o colectivo "Os Surrealistas", liderado por Mário Cesariny de Vasconcelos (1923-2006), dissidente do Grupo Surrealista de Lisboa, após cisão ocorrida em 1949. Seguidamente viaja para Angola onde vive durante vários anos. Expõe em Luanda, em 1953 e 1957, regressando a Lisboa em 1964.
Desses anos é originário "Daily Life", objecto actualmente pertencente à colecção da Fundação Cupertino de Miranda, em Vila Nova de Famalicão, entidade que alberga um vasto espólio dedicado ao Surrealismo em Portugal e onde foi criado, em 1999, o CES - Centro de Estudos do Surrealismo.
Esta peça pode ser vista, até 17 de Março de 2013, na mostra RISO: Uma Exposição a Sério, na Fundação EDP - Museu da Electricidade, em Lisboa.
"Daily Life" pode considerar-se um objet trouvé, uma chávena de chá, manipulada pelo artista, cuja asa foi transferida do exterior para o interior, de modo a pôr em causa os seus atributos funcionais, mas sobretudo a possibilitar novas leituras associadas a práticas e comportamentos do quotidiano.



Cruzeiro Seixas - Daily Life, 1954. FCM



Cruzeiro Seixas - Daily Life, 1954. FCM



Cruzeiro Seixas - Daily Life, 1954. FCM


A chávena mede 7 cm de altura por 15 cm de diâmetro, na totalidade, sendo mostrada sobre um suporte de madeira coberto por uma redoma de vidro, ambos parte da construção original, datada de 1954. Tanto o objecto como o suporte estão assinados, como se pode verificar na imagem acima.



Cruzeiro Seixas - assinatura.



Cruzeiro Seixas - Daily Life, 1954. FCM



Cruzeiro Seixas - Daily Life, 1954. FCM


Uma outra versão do mesmo objecto, foi produzida em 2005, com o título “Chávena com asa por dentro, como todos nós”, numa edição limitada, exclusiva para os sócios do Clube de Coleccionadores da Vista Alegre
Esta edição reproduz um original datado de 1967, de uma chávena em porcelana da Vista Alegre, Modelo L, decorada com pequenas rosas pintadas à mão, a que foi alterado o posicionamento da asa, tal como no original.
Mostrada como um objecto precioso, a chávena de Cruzeiro Seixas, eleva-se a esse estatuto através da manipulação levada a cabo pelo artista. A louça usada diariamente, ou em  rituais sociais como o chá, incorpora uma dimensão humana associada e este uso, convocando as relações entre intimidade e memória. 
Os comuns objectos do quotidiano adquirem pelo do uso, qualidades humanas que os objectos preciosos ou raros nunca chegam a ter. Neste sentido, a subversão de objectos por todos conhecidos e por todos usados questiona as acções quotidianas, pondo em causa valores dados como adquiridos. 
Os objectos personificam-se, ensaiam gestos de timidez, abandonam as suas funções, dando lugar ao absurdo. Como acontece no "Bule", peça posterior, que podemos ver mais abaixo, falamos de objectos introvertidos, como pessoas.



Cruzeiro Seixas - Chávena com a asa por dentro, como todos nós, 2005. VA



Cruzeiro Seixas - Chávena com a asa por dentro, como todos nós, 2005. VA



Sobre a “Chávena com a asa por dentro...” diz Cruzeiro Seixas, em 2006, em Agulha - Revista de Cultura:
"É vastíssima a bibliografia do Surrealismo, mas nos anos em que me aconteceram os primeiros Objectos, era pouquíssimo o que me tinha chegado às mãos. Nos anos 40, o nosso grande mérito, foi o de reinventar por conta própria Dada. Picasso e os seus Papiers Collés, os Readymade de Duchamp, os Merz de Schwitters, são no entanto de 1912! Os primeiros Cadavres-exquis são de 1925. E a primeira exposição de Objectos realizou-se em Paris (que então era o centro do mundo), em 1936. Nada disto chegava a Portugal, e felizmente (ou infelizmente?) coisas destas são ainda hoje da maior actualidade.
Em qualquer dicionário se encontrarão definições do Objecto Surrealista. Lichtenberg, em 1798 deixou-nos um curioso inventário de uma colecção de Objectos Absurdos, em que figura uma dupla colher para alimentar crianças gémeas!
Como resistir a encontros como este? Trata-se de verdadeiros “coup de foudre”. É o inusitado, mas principalmente o sentido poético.
Considero os Objectos que realizei como sendo o melhor da minha obra; produzi centenas de desenhos e pinturas, mas apenas guardo comigo avaramente os Objectos, o que mostra a profundidade a que se encontram no mar da minha alma.
Mário Cesariny tem um verso que considero muito belo, de que ele próprio numa entrevista disse ignorar o sentido; Ama como a estrada começa. O mesmo direi do meu Objecto de 1951, “L’Opresseur”, que junta um cubo branco, uma esfera preta, uma velha torneira, uma pluma, e que no entanto figura num dicionário (“Fernand Hazan Éditeur”, 1973), pela mão de um dos próximos colaboradores de André Breton, o Jose Pierre, que de certa forma renovou a crítica pictural, publicando textos nas revistas surrealistas “La bréche”, “Le surréalisme même”, “L’Archibras”; etc., etc.



Cruzeiro Seixas - "L'Opresseur", 1951. FCM


No Objecto está sempre presente “L’amour fou” com os encontros mais inesperados. Que sabemos nós de um búzio exposto lado a lado com uma chave fora de uso na Feira da Ladra? O Conde de Lautréamont refere, genialmente, o encontro sobre uma mesa de anatomia de uma máquina de costura com um chapéu-de-chuva.
Por certo um excesso de liberdade foi posto nas mãos dos homens, pois parece que, muito mal dela sabemos ainda hoje fazer uso…
O Objecto pode testemunhar de um encontro sublime, mas também pode contrariar a função de um produto industrial, como fez Man Ray no seu “Cadeau”, um ferro de passar roupa, em que a parte que deve deslizar sobre os tecidos está cravejada de pregos.




Man Ray (1890-1976) - "Cadeau", 1921.



Quando em 1967 percorri algumas cerâmicas propondo a realização desta Chávena, a recepção era a mais hostil, como se lhes estivesse a propor a obscenidade das obscenidades.
Não quero deixar de lembrar que, tendo enviado ao Areal uma fotografia desta Chávena, ele sobre essa fotografia pintou, em 1971, um líquido tinto de sangue, de onde lutam para se evadir dois terríveis personagens.




António Areal (1934-1978) - desenho sobre fotografia de Cruzeiro Seixas, 1971.



Somos obrigados a reconhecer que as palavras não são suficientes para DIZER o homem. E a sua insuficiência tem-se tornado dramática; resta-nos a poesia, a revolta, a blasfémia, a liberdade interior!
Embora seja enormíssima a parte de humor expressa no Objecto Surrealista, será prudente que ninguém se deixe ficar apenas por aí. Essa é por certo uma das armadilhas que nos põe esta superior forma de comunicação. De facto o Objecto Surrealista está sempre pleno de humor negro, e foi dentro desse espírito que pus a circular a seguinte frase: Chávena com a asa por dentro, como a maioria de nós…"


A ideia de introversão já ensaiada em "Daily Life", é retomada em "Bule", abaixo reproduzido. Mais uma vez a funcionalidade é destruída, o bico, elemento definidor da identidade do objecto, remete-se ao seu interior, espreitando através de um orifício na tampa, qual periscópio de submarino. Ensaia-se novamente um gesto de timidez, dando lugar à introversão.
Ambos, bule e chávena,  poderiam integrar o universo de Lewis Carroll (1832-1898), recusando-se a servir a Hatter o famoso chá, a que foi eternamente condenado. Carroll, bastas vezes referenciado como percursor do surrealismo, não previu, no entanto, esta recusa...
Claramente, num jogo de géneros, a chávena assume o papel feminino, feita de delicada porcelana, ornamentada com motivos florais; enquanto ao bule, quer pela configuração, quer pela rudeza dos materiais, cabe obviamente o papel masculino.

Esta peça, cuja concepção data de 1957, é produzida pela Fábrica de Loiça de Sacavém, em 1970, numa edição de trinta exemplares.
O bule manipulado é em faiança, mede cerca de 11 cm de altura, sendo esmaltado a aerógrafo, a creme e ocre, à semelhança de outras peças produzidas por Sacavém na mesma época.



Cruzeiro Seixas - "Bule", Fábrica de Loiça de Sacavém, 1957-1970. CML


A propósito dos objectos de Cruzeiro Seixas citamos Méret Oppenheim (1913-1985), uma das surrealistas que melhor equacionou a dimensão doméstica e os procedimentos sociais tradicionalmente associados ao universo feminino.
Os seus objectos questionam o papel da mulher e o modo como o género feminino é percepcionado pelo género oposto, temática particularmente pertinente no contexto surrealista. Experimentado directamente pela artista, já que se moveu no seio do grupo surrealista de Paris, tendo sido modelo de diversas fotos de Man Ray.
Dois dos seus mais famosos objectos datam de 1936, o primeiro Object (Le Déjeuner en fourrure), consiste numa chávena forrada com pele de gazela  e o segundo Ma gouvernante, My Nurse, mein Kindermädchen, é composto por um par de sapatos de salto alto, amarrados, depostos sobre uma travessa metálica.



Méret Oppenheim - "Object (Le Déjeuner en fourrure)", 1936. MoMA


A obra de Oppenheim encerra uma evidente dimensão erótica, comum aos objectos de Cruzeiro Seixas. A evocação de uma pretensa domesticidade, onde o domínio privado é tornado público, como numa denúncia.
A oposição e complementaridade entre os olhares feminino e masculino, fica assim enunciada nas escolhas dos dois artistas.

Méret Oppenheim - "Ma gouvernante, My Nurse, mein Kindermädchen", 1936.