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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Painéis do Pavilhão de Portugal, "Comptoir Suisse", 1957 - Querubim Lapa


Em 1957, Portugal foi o convidado de honra do Comptoir Suisse, a Feira Internacional de Lausana.
Uma equipa liderada por Conceição Silva (1922-1982), que integra os arquitectos Sena da Silva (1926-2001) e José Santa-Rita (1929-2001), é a vencedora do concurso público para o desenho do pavilhão português.
Promovida pelo Fundo de Fomento de Exportação (FFE), a representação portuguesa tinha como objectivo fundamental a promoção internacional das indústrias nacionais  tendo em vista um maior desenvolvimento do comércio externo.
O design de comunicação do Pavilhão de Honra em Lausana esteve a cargo de Manuel Rodrigues (1924-1965), que assumiu também responsabilidades na área do design expositivo, optando pela  utilização de grandes painéis fotográficos da autoria de Mário Novais (1899-1967). O desenho dos interiores teve ainda a colaboração de Sebastião Rodrigues (1929-1997) e Vasco Lapa (n.1928).


Manuel Rodrigues - Cartaz da representação portuguesa no Comptoir Suisse, 1957. Artifiche

Vistas da montagem com os elementos usados por Manuel Rodrigues na composição do cartaz, em segundo plano, Conceição Silva dá indicações sobre a colocação de um sobreiro natural. Foto do Estúdio Mário Novais - Biblioteca Gulbenkian Flickr


A concepção do pavilhão constitui uma ruptura em relação às directrizes estéticas do SNI para as representações internacionais, reforçada em continuidade, no ano seguinte, pela presença portuguesa  na Expo58, em Bruxelas.
De desenho assumidamente moderno, o espaço expositivo é entendido de forma polivalente, utilizando os painéis fotográficos e serigrafados como orientação para as várias propostas de  percurso.
A liberdade e fluidez do espaço não prejudica o entendimento claro das várias secções, que integram simbolicamente um sobreiro português, trazido propositadamente para a ocasião.
Os expositores modulares, concebidos por Sena da Silva, sustentavam imagens fotográficas de grande formato que povoavam também as paredes do pavilhão, servindo de suporte aos objectos expostos.


Plano geral do Pavilhão de Honra de Portugal na Exposição de Lausana, 1957. Foto de Sena da Silva publicada no catálogo Sena da Silva, ed. Fundação Calouste Gulbenkian, 2009.

Plano de expositor com peças de vidro, ourivesaria e cerâmica, Lausana, 1957. Foto de Sena da Silva publicada no catálogo Sena da Silva, ed. Fundação Calouste Gulbenkian, 2009.

Vários artistas plásticos foram, como habitualmente, chamados a colaborar nesta empreitada. À entrada, no exterior, figurava um grupo escultórico em bronze da autoria de Jorge Vieira (1922-1998), no vestíbulo, uma tapeçaria de Portalegre desenhada por Almada Negreiros (1893-1970) e no interior obras de Jorge Barradas (1894-1971) e Manuel Cargaleiro (n.1927), entre outros.
A exposição estava organizada de forma a publicitar os quatro grandes sectores alvo do Plano de Fomento, na secção das indústrias metropolitanas. E considerava também a secção dos produtos industriais, direccionada para a divulgação das províncias ultramarinas.


Vista parcial da secção das províncias ultramarinas, figurando, em segundo plano, Conceição Silva e o Primeiro Ministro Marcello Caetano. Foto do Estúdio Mário Novais - Biblioteca Gulbenkian Flickr

Enquanto a Conceição Silva se ficou a dever a concepção geral e o moderno entendimento do espaço, a Querubim Lapa (n.1925) se deve um longo painel cerâmico, especialmente concebido  para enquadrar o balcão de atendimento.
O painel é composto por cinco secções, quatro dedicadas às actividades a divulgar pelo Plano de Fomento e um quinto representando o Sol, não só uma referência às características climáticas do país e ao turismo, mas aqui também entendido como fonte de vida e de energia para todos os sectores produtivos.
A composição da obra parece antever a possibilidade de desmantelamento futuro, sendo possível a separação das várias secções e a sua apreciação individual, como aliás se veio a verificar.


 Querubim Lapa -  vista parcial do painel do Pavilhão de Portugal no Comptoir Suisse, 1957. Foto do Estúdio Mário Novais - Biblioteca Gulbenkian Flickr

Na imagem acima reproduzida, captada por Mário Novais durante a montagem da exposição, a figura de uma sereia, situada do lado esquerdo, estava originalmente posicionada na horizontal, no entanto, actualmente exposta no Museu Nacional do Azulejo, a mesma figura tem sido mostrada na vertical, tal com aqui a reproduzimos.
A figura mitológica, aparece rodeada de peixes e outros elementos marinhos, estando provavelmente associada ao sector das pescas, indústrias do mar e conserveiras.


Querubim Lapa - secção do painel do Pavilhão de Portugal no Comptoir Suisse, Lausana, 1957.
MNAZ/ICEP © CMP

Querubim Lapa - detalhe do painel do Pavilhão de Portugal no Comptoir Suisse, Lausana, 1957.
MNAZ/ICEP © CMP

Querubim Lapa - detalhe do painel do Pavilhão de Portugal no Comptoir Suisse, Lausana, 1957.
MNAZ/ICEP © CMP

Querubim Lapa - detalhe do painel do Pavilhão de Portugal no Comptoir Suisse, Lausana, 1957.
MNAZ/ICEP © CMP

Querubim Lapa - detalhe do painel do Pavilhão de Portugal no Comptoir Suisse, Lausana, 1957.
MNAZ/ICEP © CMP

Querubim Lapa - detalhe do painel do Pavilhão de Portugal no Comptoir Suisse, Lausana, 1957.
MNAZ/ICEP © CMP

Querubim Lapa - detalhe do painel do Pavilhão de Portugal no Comptoir Suisse, Lausana, 1957.
MNAZ/ICEP © CMP

Querubim Lapa - detalhe com assinatura, painel do Pavilhão de Portugal no Comptoir Suisse, Lausana, 1957.
MNAZ/ICEP © CMP

Na concepção destes relevos cerâmicos, o artista tira especial partido dos efeitos das sombras projectadas, a partir de elementos geométricos salientes, possibilitando jogos de luz e de sombra complementares aos criados pelos planos do tecto.

 Querubim Lapa -  vista parcial do painel do Pavilhão de Portugal no Comptoir Suisse, 1957. Foto do Estúdio Mário Novais - Biblioteca Gulbenkian Flickr

 Querubim Lapa -  secção representando o Sol, painel do Pavilhão de Portugal no Comptoir Suisse, 1957. Foto do Estúdio Mário Novais - Biblioteca Gulbenkian Flickr

A figura do Sol, aqui entendida como força vital, responsável pelos frutos da Terra e do Mar, será retomada pelo autor nos relevos cerâmicos concebidos, no ano seguinte, para o pavilhão português na Expo58, em Bruxelas e novamente nos painéis da Pastelaria Mexicana (1961-62) em Lisboa.


 Querubim Lapa -  secção representando frutos e outros produtos agrícolas, painel do Pavilhão de Portugal no Comptoir Suisse, 1957. Foto do Estúdio Mário Novais - Biblioteca Gulbenkian Flickr






sexta-feira, 22 de julho de 2011

Cerâmica no Pavilhão de Portugal - EXPO58 Bruxelas

A Exposição Universal de Bruxelas decorreu no parque de Lacken entre 17 de Abril e 19 de Outubro de 1958. Na actualidade, as marcas deixadas na paisagem são ainda bastante visíveis, especialmente pela presença do Atomium, que foi adquirindo o estatuto de ícone da cidade. 


Cartaz. Foto do Estúdio Horácio Novais (1930-1980) - Biblioteca Gulbenkian Flickr


Com comissariado geral do Conde de Penha Garcia,  tendo como comissários adjuntos  Jorge Segurado e Mário Neves, a representação portuguesa nesta exposição era composta por um conjunto arquitectónico, da autoria de Pedro Cid (1925-1983), situado sobre um amplo relvado, enquadrado por uma colina densamente arborizada.
Os edifícios ocupavam uma área de 7100 metros quadrados, dos quais 2870  correspondiam às áreas do pavilhão propriamente dito e do anexo, onde funcionavam o restaurante, o Bar do Vinho do Porto, a loja de artesanato e produtos regionais e a esplanada.

Capa do folheto informativo. Foto de António Leal - ephemera

Interior do folheto, onde pode ver-se a localização do pavilhão e sua articulação com o anexo. Foto de António Leal - ephemera

Pavilhão de Portugal, pode ver-se a utilização de uma grelha cerâmica sobre a fachada lateral.

Pedro Cid, considerado uma das referências fundamentais da arquitectura modernista em Portugal, foi o vencedor do concurso para o Pavilhão Português. O arquitecto, que havia já colaborado em vários projectos, como o conjunto habitacional da Av. dos Estados Unidos da América em Lisboa (Prémio Municipal, 1956), foi posteriormente co-autor do projecto da sede da Fundação Gulbenkian (Prémio Valmor, 1975).


Vista nocturna do Pavilhão de Portugal, a grelha cerâmica filtra a luz que emana do interior através das enormes fachadas envidraçadas.  Foto do Estúdio Horácio Novais (1930-1980) - Biblioteca Gulbenkian Flickr

Os dois corpos constituintes do pavilhão português integram a visão modernista dominante em toda a Exposição, sem deixarem de utilizar elementos típicos da arquitectura portuguesa, como os azulejos e as grelhas cerâmicas ou de ferro forjado.
Do denominado sector VI, o anexo, cujo desenho de interiores era da responsabilidade de Eduardo Anahory (1917-1998) e José Rocha (1907-1982), fazia parte o Bar  de Vinho do  Porto, onde estavam integrados uma grelha de ferro forjado do artesão Esteves e um painel de azulejos da autoria da pintora Menez (1926-1995). Este painel, datado de 1957, é contemporâneo do conjunto azulejar da pastelaria Vá-Vá, em Lisboa, também com assinatura da autora e datado de 1958, apresentando, no entanto, características formais bastante diversas.


Entrada para o Bar de Vinho do Porto, sector VI, o com Atomium em pano de fundo. Foto do Estúdio Horácio Novais (1930-1980) - Biblioteca Gulbenkian Flickr

Interior do Bar de Vinho do Porto com painel cerâmico de Menez. Foto do Estúdio Horácio Novais (1930-1980) - Biblioteca Gulbenkian Flickr

Painel cerâmico de Menez no exterior do Bar de Vinho do Porto. Foto do Estúdio Horácio Novais (1930-1980) - Biblioteca Gulbenkian Flickr

No interior do pavilhão principal, mais especificamente no sector IV, dedicado às Aspirações do Povo Português, cuja concepção ficou a cargo de Sebastião Rodrigues (1929-1997) e Manuel Rodrigues (1924-1965), estão presentes obras do escultor Jorge Vieira (1922-1998) e do pintor Júlio Resende (n.1917), bem como relevos cerâmicos de Querubim Lapa (n.1925).
Nas peças apresentadas, provavelmente realizadas no seu atelier na Viúva Lamego (fundada em 1849), o mestre ceramista trabalha a iconografia solar, já desenvolvida por  si noutros trabalhos da mesma época e seguidamente também explorada nos murais da Pastelaria Mexicana (1961-62) em Lisboa.
De notar o convite à integração  na representação portuguesa de artistas não afectos ao regime, como Querubim Lapa, especialmente ligado ao movimento neo-realista.


Relevo cerâmico de Querubim Lapa no sector IV do Pavilhão de Portugal. Foto do Estúdio Horácio Novais (1930-1980) - Biblioteca Gulbenkian Flickr

Capa da revista literária Notícias do Bloqueio, nº5, Dezembro de 1958, da autoria de Querubim Lapa.


A cerâmica é também utilizada em obras escultóricas de maior volume e conteúdo épico, como é o caso da peça da autoria do escultor António Amaral Paiva (1926-1987), hoje desaparecida.
Situada no sector III, dedicado às Riquezas Materiais da Nação,  com desenho expositivo de  Tomaz de Mello (1906-1990) e Marcello de Morais, a estrutura totémica que pretendia representar simbolicamente a força do trabalho, obteve o Grande Prémio Individual de Escultura da Exposição.


Escultura cerâmica de António Paiva. Foto do Estúdio Horácio Novais (1930-1980) - Biblioteca Gulbenkian Flickr

 Foto do Estúdio Horácio Novais (1930-1980) - Biblioteca Gulbenkian Flickr

Detalhe da integração no espaço. Foto do Estúdio Horácio Novais (1930-1980) - Biblioteca Gulbenkian Flickr

Ainda no sector III, no espaço dedicado à indústria, é concebido um expositor que congrega a produção cerâmica, o vidro e a ourivesaria. Nesta estrutura, as vitrinas contendo os objectos, são pontuadas por imagens fotográficas de formas em revolução, desde a roda de oleiro a representações abstractas sugestivas de movimento e dinâmica, sublinhando a ideia da transformação da matéria informe em objecto.


Expositor dedicado às indústrias do vidro, cerâmica e ourivesaria. Foto do Estúdio Horácio Novais (1930-1980) - Biblioteca Gulbenkian Flickr

Outra vista do mesmo expositor. Foto do Estúdio Horácio Novais (1930-1980) - Biblioteca Gulbenkian Flickr

Na Expo58 a fábrica de porcelanas Vista Alegre (fundada em 1824) conquista o Grande Prémio da Exposição, apresentando peças com formas livres de cariz modernista, divergindo claramente da sua produção clássica, como pode ver-se na página de publicidade publicada na revista Panorama, onde usa o slogan: "Sempre à frente!"


Anúncio na revista Panorama, nº11, III Série, Setembro de 1958. © CMP


A SECLA, que normalmente apresentava, nas exposições internacionais, peças de autor produzidas pelos artistas do Estúdio, viu a sua política reconhecida com a Medalha de Prata da Expo58.
Em termos económicos estes prémios não produziram efeitos imediatos, mas contribuíram para consolidar o prestígio internacional das marcas, que a longo prazo alargaram a sua carteira de exportações.


Capa do catálogo da SECLA para a Exposição Universal de Bruxelas, 1958. Publicada no catálogo Estúdio SECLA - Uma Renovação na Cerâmica Portuguesa, edição do Museu Nacional do Azulejo, 1999.