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quarta-feira, 2 de maio de 2018

Azulejos da Escola Básica São João de Deus | Júlio Santos


A antiga Escola Primária do Bairro Arco do Cego, Lisboa, foi inaugurada em 1955, com a designação Escola nº 154, articulada em dois pólos, um feminino, situado na Rua Caetano Alberto e outro masculino, na Rua José Sarmento, ladeando, em composição simétrica, o antigo Liceu D. Filipa de Lencastre. Hoje estabelecimento de ensino misto, a Escola Básica do 1º ciclo São João de Deus recebeu a actual designação com a integração no Agrupamento de Escolas D. Filipa de Lencastre.
Este agrupamento escolar sofreu uma intervenção do Programa de Modernização das Escolas do Ensino Secundário, em 2007-2008, promovida pela Parque Escolar, cujo projecto arquitectónico foi da responsabilidade do atelier 9H ARQUITECTOS, com coordenação do arquitecto João Paulo Conceição (1950-2011).
Embora não caiba neste espaço tecer considerações sobre as intervenções arquitectónicas levadas a cabo pela Parque Escolar em vários estabelecimentos de ensino em todo a país, não deixa de ser fundamental dar a conhecer um caso exemplar de destruição de património azulejar público, perpetrado no contexto destas intervenções.



Júlio Santos - azulejo de padrão, refeitório dos meninos, Escola Primária do Arco do Cego, 1955. Imagem Azulejos Portugueses: Padrões do Século XX, 1998.



Símbolo da Câmara Municipal de Lisboa e datação da construção, Escola Primária do Arco do Cego, Lisboa. © CMP


Os refeitórios da  Escola Básica São João de Deus estavam revestidos com lambris azulejados, cujo padrão havia sido para ali propositadamente concebido pelo pintor Júlio Santos (1916-1965), tendo sido produzido na Fábrica de Cerâmica Viúva Lamego, em 1955. Este revestimento de padrão, exibia variações feminina e masculina adequadas a cada espaço, e foi destruído durante as obras de remodelação levadas a cabo pela Parque Escolar. Os azulejos poderiam ter sidos levantados e recolocados segundo um projecto de requalificação, o que teria sido a opção mais adequada, ou simplesmente retirados e preservados museologicamente, no entanto, foram negligentemente destruídos, tendo sido salvas apenas algumas dezenas de unidades, nem todas em boas condições, das quais podemos ver os três exemplares publicados abaixo.
Sabe-se também que nas mesmas obras foram destruídos painéis azulejares de pequena escala, da autoria de Jorge Colaço (1868-1942), provenientes da sua oficina nas vizinhas instalações da Fábrica de Cerâmica Lusitânia, situada no Bairro do Arco do Cego, construído inicialmente como bairro operário desta unidade fabril; e ainda frisos azulejares da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905), produzidos pela Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha; para além de mobiliário e outros equipamentos representativos do design e artes aplicadas das épocas de construção dos vários pólos escolares.



Vista arérea Liceu D. Filipa de Lencastre, c.1940. AML


Fachada do Liceu D. Filipa de Lencastre, c. 1952-53. Foto do Estúdio Mário Novais - Biblioteca Gulbenkian Flickr



O Liceu D. Filipa de Lencastre, situado no centro do Bairro do Arco do Cego, com projecto de 1932 do arquitecto Jorge Segurado (1898-1990), inicialmente destinado ao ensino primário, foi inaugurado em 1938, tendo vindo a sofrer obras de adaptação até 1940. Foi um liceu feminino, sendo ladeado pelos corpos das escolas primárias, um de frequência masculina (assinalado a azul na imagem abaixo) e outro de frequência feminina (assinalado a vermelho na imagem abaixo), segundo as normas em vigor até 1974.



Vista arérea do Agrupamento de Escolas D. Filipa de Lencastre.



Planta da Escola Norte, proposta de remodelação, 2007-08. Parque Escolar




Júlio Santos, licenciado em Ciências matemáticas e professor de Matemática e de Desenho, tendo iniciado actividade como pintor em 1949, foi autor do desenho de vários padrões azulejares, executados em estampilha manual pela Fábrica Viúva Lamego. 
Para a Escola Primária do Arco do Cego, o pintor concebe um padrão composto por dois módulos alternados, um deles repete-se nos refeitórios masculino e feminino apenas com variação de cor, azul e verde respectivamente, o outro usa pictogramas adequados a cada espaço. Nestes pictogramas, em tudo semelhantes, tanto a figura do menino como a da menina seguram com a mão esquerda um livro aberto e estão rodeadas pelas letras iniciais do alfabeto: a, b, c;  existindo apenas uma preocupação de design: a distinção gráfica entre os dois géneros sexuais, o menino de calções, a menina de saia e laçarote na cabeça, num processo de sintetização sinalética.
Neste projecto decorativo, não são usados estereótipos cromáticos, os recorrentes azul e rosa, ou actividades diferenciadas para cada género sexual. Também não existe, no padrão concebido por Júlio Santos, qualquer referência à localização a que se destinava, o refeitório, o que facilitaria a sua adaptação a novos contextos. Teria sido possível a articulação dos vários módulos de novas formas, tivesse existido um olhar reflexivo sobre a pré-existência e a preocupação da reutilização dos elementos nela integrados.




Escola Básica São João de Deus  - entrada da antiga ala masculina. © CMP  



Abaixo podem ver-se dois exemplares dos azulejos/módulo, provenientes do refeitório da ala masculina da antiga Escola Primária do Arco do Cego, e um exemplar por aplicar, pertencente a uma colecção particular.



Júlio Santos - Módulo do padrão azulejar do refeitório da antiga Escola Primária do Arco do Cego, 1955.  © MUSEU VIRTUAL AEDFL



Júlio Santos - Módulo do padrão azulejar do refeitório da antiga Escola Primária do Arco do Cego, 1955. © MUSEU VIRTUAL AEDFL





Júlio Santos - Módulo do padrão azulejar do refeitório da antiga Escola Primária do Arco do Cego, 1955. © PMC



Módulo do padrão azulejar do refeitório da antiga Escola Primária do Arco do Cego, 1955, Fábrica Viúva Lamego - Tardoz. © PMC


Escola Básica São João de Deus  - entrada da antiga ala feminina. © CMP 



Do refeitório da ala feminina só foi possível salvar um exemplar dos azulejos/módulo. Este exemplar pode ver-se abaixo, tal como uma fotografia da época onde se vê o padrão completo aplicado no lambril.



Aspecto do antigo refeitório da ala feminina da Escola Primária do Arco do Cego, revestimento azulejar de Júlio Santos, 1955.



Detalhe da imagem anterior.




Júlio Santos - Módulo do padrão azulejar do refeitório da antiga Escola Primária do Arco do Cego, 1955. © MUSEU VIRTUAL AEDFL


Como pintor, Júlio Santos dedicou-se sobretudo à paisagem e natureza-morta, optando por um registo de pendor cezanneano, pré-cubista, pouco corajoso, apesar de consentâneo com as suas preferências pela geometrização da forma. Na imagem abaixo é reproduzida uma pintura de sua autoria publicada no catálogo da Exposição dos Artistas premiados pelo S.N.I., 1949. Fazendo uso da distorção da perspectiva, herdada das naturezas-mortas de Paul Cézanne (1839-1906) ou referenciando a obra Eduardo Viana (1881-1967), que na década de 1910 inclui nas suas obras muitos objectos de olaria popular, Júlio Santos opta pela representação de objectos de cerâmica industrial moderna, explorando as suas formas e decorações geométricas. Nesta pintura encontram-se representadas peças de produção nacional e internacional, numa composição clarificadora da proximidade do pintor à indústria cerâmica e ao conhecimento dos modelos internacionais.


Júlio Santos - Natureza Morta, catálogo da Exposição dos Artistas premiados pelo S.N.I., 1949.



A azulejaria de padrão, dominante na criação azulejar de Júlio Santos, desempenha um importante papel na qualificação dos espaços arquitectónicos modernos. No entanto, este papel parece não ter sido reconhecido pelos responsáveis pela intervenção da Parque Escolar no Agrupamento de Escolas D. Filipa de Lencastre, onde actualmente, privados da riqueza histórica do edifício que frequentam diariamente, os alunos realizam exercícios práticos de desenho de padrões, reproduzidos em papel e, ironia das ironias, colados nas paredes como se fossem verdadeiros azulejos.    
Teria sido fundamental que o projecto de remodelação do edifício considerasse a manutenção e conservação deste e outro património testemunho da história do edifício, em especial por se tratar de  uma escola, cuja função didáctica  implica consequências no futuro.
A esse propósito, fica a citação de uma entrevista realizada a José Berardo, um dos mais significativos coleccionadores de azulejaria em Portugal, realizada pela  Az - Rede de Investigação em Azulejo, no âmbito do seu blogue AzLab:

"3 perguntas | ao Comendador Berardo, a propósito da Colecção Berardo

Qual a história da origem da colecção?

A minha paixão pelos azulejos começou nos bancos da escola primária. Havia, junto à janela da sala de aula, um azulejo com a imagem de um cavaleiro com uma espada e umas grandes botas e eu ficava maravilhado a olhar para ele, a imaginar mil histórias e aventuras. Cresci, “percorri as sete partilhas do mundo” e às vezes, vinha-me à memória a figura do cavaleiro, como um sonho… Ao regressar a Portugal, vindo da África do Sul, descobri e naturalmente interessei-me e apaixonei-me pela azulejaria portuguesa. Fiquei fascinado pela história e cultura que os azulejos transmitem, pela sua beleza, pela variedade de desenhos e pela gama de azuis que possuem.  Foi, então, que aconselhado por colaboradores, historiadores de arte e consultores, como o meu amigo Manuel Leitão, pessoa fundamental neste processo, comecei a minha Colecção."



9H Arquitectos - Refeitório do pré-escolar, Agrupamento de Escolas D. Filipa de Lencastre, 2007-08. © CMP


Concluímos com uma imagem do actual refeitório do pré-escolar do Agrupamento de Escolas D. Filipa de Lencastre, construído aquando da intervenção da Parque Escolar: uma cave com fenestração elevada, não permitindo suficiente entrada de luz natural nem o acesso das crianças a uma vista do exterior. Este espaço é revestido com materiais frios: laminados plásticos, aço inoxidável e azulejos com vidrado mate de cor acinzentada. Sobre os muros foram aplicados desenhos aparentemente criados pelas próprias crianças, com execução débil em materiais precários, como o lápis de cera. Aqui tomam refeições quotidianamente cerca de duas centenas de crianças, permanecendo neste lúgubre interior cerca de uma hora e  meia por dia.
Evidentemente, questiona-se a qualidade do espaço (lumínica, visual e acústica), questionando essencialmente os efeitos a longo prazo de práticas que destroem interiores construídos com materiais nobres, executados por manufactura qualificada, pensados e desenhados para promover uma utilização tão prazerosa quanto educacional, substituindo-os por soluções deficientes, executadas com materiais pobres e com maus acabamentos.
Poderão estas crianças vir a apreciar, preservar, exigir qualidade ou até conceber os espaços públicos do futuro? É possível. Mas terá a escola contribuído para tal?



CMP* agradece ao Museu Virtual do Agrupamento de Escolas D. Filipa de Lencastre e ao coleccionador PMC, a cedência de imagens de peças das suas colecções.




terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Casa de Igrejas Caeiro | "Teatro" de Maria Keil

A habitação unifamiliar do actor, encenador e radialista  Francisco Igrejas Caeiro (1917-2012) é um projecto do arquitecto Francisco Keil do Amaral (1910-1975), datado de 1958. 
Situada no Alto do Lagoal, Caxias, foi na época descrita na imprensa como "vivenda de estilo hollywoodiano", à escala nacional. Ocupando uma área de 4500 metros quadrados, a habitação está implantada num promontório que domina todo o vale, a Oriente Lisboa, a Ocidente a saída da barra, de fronte uma vista privilegiada sobre o Tejo. Esta moradia e espaço envolvente, incluindo jardim, horta e capoeira, constituía, até há pouco tempo, uma das obras mais bem conservadas da autoria de Keil do Amaral, estando os interiores intactos, mantinha a sua concepção original, reflectindo o gosto moderno pelo conforto funcionalista, tão raro em Portugal, abraçado pelo casal Igrejas Caeiro e Irene Velez (1914-2004).
Deixada em testamento pelo seu proprietário à Fundação Marquês de Pombal, Oeiras, com a condição de ser musealizada e o seu valioso espólio documental colocado à disposição da comunidade, a casa de Igrejas Caeiro encontra-se ainda fechada, apesar de notícias publicadas em 2012 garantirem a sua abertura no ano seguinte.
Procura-se aqui alertar para a importância arquitectónica e artística deste legado no contexto do movimento moderno em Portugal, dando especial ênfase à integração das artes e design de interiores de que constitui testemunho exemplar, como pode observar-se nas fotos abaixo.





Igrejas Caeiro junto ao painel "Teatro" de Maria Keil, 1959. Fotografia Daniel Rocha, 2012 | Público



Nesta obra arquitectónica, a peça mais relevante no contexto da integração das artes será sem dúvida o painel azulejar da autoria de Maria Keil (1914-2012), "Teatro", 1959, revestindo uma parede da galeria envidraçada, com vista de mar, também usada como sala de jogos e espaço de trabalho. Produzido na Fábrica Viúva Lamego, como era habitual na obra da autora, este painel não vem referido em nenhum dos catálogos e monografias dedicados a Maria Keil.  
O painel é composto por um conjunto de figuras integrado num fundo de padrão geométrico, à semelhança do que acontece em "Pastores", 1955, pertencente à colecção do Museu Nacional do Azulejo. Como explica Igrejas Caeiro à revista Plateia, 10 de Maio, 1963, uma das figuras alegóricas representa a Tragédia, outra a Comédia e a Hidra, monstro de sete cabeças, representa o público. Há ainda a referir uma figuração circular geométrica, preenchida com cores primárias, que poderá evocar o Sol e a Lua/Dia e Noite, provavelmente numa analogia à Tragédia e à Comédia. 




Excerto do painel "Teatro", Maria Keil, 1959. Fotografia João Cunha - RR , 2017.



Igrejas Caeiro junto ao painel "Teatro" de Maria Keil, 1959. Fotografia Lobo Pimentel, in Plateia, nº 149, 1963.



Vista da sala de jogos com painel "Teatro" de Maria Keil, 1959. Fotografia in Arte e Decoração, nº 6, 1969.



Na casa do Alto do Lagoal todo o mobiliário e concepção dos interiores, pensados de forma integrada, tomam um valor essencial, revelando a articulação entre o pensamento do arquitecto e dos seus clientes. No atelier Keil do Amaral o design de mobiliário e objectos ficava muitas vezes a cargo de Maria Keil. É provável que neste projecto tal também possa ter ocorrido, uma vez que reconhecemos no desenho do mobiliário uma extensão do pensamento arquitectónico. Estantes, bancadas ou armários sublinham os espaços, racionalizando-os, num aproveitamento funcional e equilibrado.
Reconhecemos também um diálogo entre os objectos pessoais dos habitantes da casa e os espaços arquitectónicos, como se estes tivessem sido pensados para os acolher. Obras de arte, peças de cerâmica moderna e popular, livros, candeeiros, vasos com plantas e mobiliário relacionam-se de forma complementar, em dinâmica, sem a necessidade da criação de lugares determinados para cada coisa. 
A modernidade reflecte-se também na escolha dos objectos, dominada por uma colecção de arte moderna que inclui pinturas de Júlio Pomar (n.1926), Jorge de Oliveira (1924-2012) e Abel Manta (1888-1982), entre outros. O interesse pela cerâmica moderna revela-se não só através do painel de Maria Keil, mas também pela presença da cerâmica de autor de Jorge Barradas (1894-1971) ou do "Cristo" de Rosa Ramalho (1888-1977), ceramista popular da região de Barcelos, admirada e dada a conhecer pelo movimento moderno. Numa parede especialmente revestida por pastilhas cerâmicas da fábrica Tijomel, Caxarias, cria-se uma textura gráfica e lumínica, sobre a qual se destaca o desenho da chaminé da lareira e o Cristo em barro branco, não vidrado.




Vista da sala e biblioteca. Fotografia FMP



Rosa Ramalho, "Cristo", década de 1950. Fotografia MdS




Fábrica Tijomel, Caxarias, revestimento em pastilhas cerâmicas industriais. © CMP




Igrejas Caeiro e Irene Velez com o cão, o boxer Godot. Fotografia Lobo Pimentel, in Plateia, nº 149, 1963.




O desenho de mobiliário integrado é uma marca do movimento moderno, encontra-mo-lo em todas as áreas da casa de Igrejas Caeiro, embutido ou desenhado à medida do espaços, desde as zonas de estar, à cozinha. Teme-se particularmente pela conservação destes objectos, tão importantes para a história do design em Portugal, especialmente quando tanto já foi destruído neste campo. Seria fundamental que a Fundação Marquês de Pombal e o Município de Oeiras se articulassem com o Museu do Design ou integrassem nas equipas de trabalho técnicos especializados, de modo a conceber um projecto museológico fundamentado e didáctico. Só assim os visitantes poderão tomar consciência da importância da conservação das peças produzidas em meados dos século XX, zelando pelo que ainda resta deste período. 





Vista da sala e biblioteca. Fotografia FMP




Vista da sala e biblioteca. Fotografia in Arte e Decoração, nº 6, 1969.




Igrejas Caeiro e Irene Velez junto a uma das estantes. Fotografia Lobo Pimentel, in Plateia, nº 149,  1963.




Igrejas Caeiro e Irene Velez junto a uma das estantes. Capa da revista Arte e Decoração, nº 6, 1969.




Igrejas Caeiro e Irene Velez numa das zonas de estar. Fotografia Lobo Pimentel, in Plateia, nº 149, 1963.




Irene Velez na cozinha. Fotografia Lobo Pimentel, in Plateia, nº 149, 1963.



Vista da cozinha. Fotografia in Arte e Decoração, nº 6, 1969.



Ambas situadas na Rua Paulo da Gama, a casa de Igrejas Caeiro (assinalada a amarelo na imagem abaixo) articula-se com a moradia pertencente ao engenheiro Lino Gaspar, cuja família muitas vezes participava nas gravações radiofónicas orientadas pelo actor. 
Desenhada pelo arquitecto João Andresen (1920-1967), projecto de 1953-1955,  a Casa Lino Gaspar, incluindo jardim, está classificada como Monumento de Interesse Público, desde 2012. Este edifício alberga um painel cerâmico da autoria de Hein Semke (1899-1995), embora não referido na descrição do imóvel, na página da DGPC, configurando um exemplar modernista de ruptura. O projecto de Keil do Amaral para Igrejas Caeiro, ainda que menos radical que a proposta de João Andresen, seria igualmente merecedor desta protecção, tanto pela qualidade arquitectónica como pela coerência formal dos seus interiores. No entanto, não se encontrando classificado, está à mercê de alterações fortuitas, como as que decorrem na actualidade.




Casa de Igrejas Caeiro, Francisco Keil do Amaral, 1958; e Casa Lino Gaspar, João Andresen, 1953-55.




Aspecto exterior da casa de Igrejas Caeiro, Francisco Keil do Amaral, projecto de 1958. Fotografia FMP



Aspecto exterior da casa de Igrejas Caeiro, Francisco Keil do Amaral, projecto de 1958. Fotografia FMP



Aspecto exterior da casa de Igrejas Caeiro, Francisco Keil do Amaral, projecto de 1958. Fotografia FMP



A moradia de Caxias albergava também um estúdio de gravação profissional, uma enorme colecção de discos de vinil e uma completa biblioteca de teatro, permitindo a realização de programas de rádio a partir de casa. Assim, o programa publicitário e de teatro radiofónico, "Companheiros da Alegria", dirigido por Igrejas Caeiro e Irene Velez, era gravado nos seus estúdios privados, equipados com a mais moderna tecnologia da época.
As imagens seguintes mostram os ensaios gerais do programa de dia 24 de Dezembro de 1960, véspera de Natal, da rubrica "Parque Infantil", com texto de Mário Castrim, a decorrerem na sala de jogos onde se encontra o painel azulejar "Teatro".





Ensaio geral do programa "Parque Infantil", 1960. Fotografia Lobo Pimentel, in Plateia,  nº 73, 1961.



Ensaio geral do programa "Parque Infantil", 1960. Fotografia Lobo Pimentel, in Plateia,  nº 73, 1961.




Nestas imagens pode ver-se toda a equipa do programa "Parque Infantil, da esquerda para a direita, em primeiro plano, sentados: Guida Maria e Carlos Eduardo Lino Gaspar; em segundo plano, sentados: Elvira Velez, António Sacramento, Rui Furtado, Luís Cerqueira, Maria Alexandra Lino Gaspar, Irene Velez e Igrejas Caeiro; de pé: Jorge Arriaga de Oliveira, Henrique Pereira, Francisca Maria, Eduardo Canto e Castro, João Mota, E. Santo e Mário Castrim.
É também visível o ambiente de trabalho descontraído e como o mobiliário de estrutura tubular ou as almofadas em bunho de Santarém eram utilizados de forma lúdica.




Ensaio geral do programa "Parque Infantil", 1960. Fotografia Lobo Pimentel, in Plateia,  nº 73, 1961.



Ensaio geral do programa "Parque Infantil", 1960. Fotografia Lobo Pimentel, in Plateia,  nº 73, 1961.



Vista da sala de jogos. Fotografia in Arte e Decoração, nº 6, 1969.



A preocupação expressa nesta publicação é fortalecida pelos testemunhos e denúncias que circulam nas redes sociais sobre o facto de estarem a aparecer objectos integrantes do espólio de Igrejas Caeiro em leilões e feiras de velharias, bem como notícias da transformação do edifício em alojamento local, com obras profundas a decorrerem neste momento, colocando em causa a integridade deste valioso património. Sendo a Fundação Marquês de Pombal, Oeiras, responsável pela salvaguarda do legado cuidadosamente construído pelo doador, Igrejas Caeiro, não estará assim a desrespeitar a sua vontade, lesando o público a quem a fruição deste espólio manifestamente se destinava?
A Fundação organizou recentemente várias iniciativas de homenagem a Igrejas Caeiro, pelo sexto aniversário do seu falecimento: Homenagem a Francisco Igrejas CaeiroRomagem ao Cemitério – 6º Aniversário da Morte de Francisco Igrejas Caeiro.







Consideramos que a melhor forma de homenagem será respeitar a vontade de Igrejas Caeiro, preservando a sua memória. Abrir ao público a casa-museu devidamente preservada, disponibilizando o seu espólio para que este se possa conhecer e estudar.




segunda-feira, 1 de junho de 2015

Painéis da Casa da Sorte, Lisboa - Querubim Lapa

A Casa da Sorte, situada na confluência entre a Rua Ivens e a Rua Garret, no coração do Chiado, em Lisboa, consubstancia um dos mais completos e integrados projectos conjuntos, realizados por um arquitecto e um artista, no século XX, em Portugal. 
Resultante da colaboração do arquitecto Francisco Conceição Silva (1922-1982) com o ceramista Querubim Lapa (n.1925), este estabelecimento comercial está actualmente desocupado e prestes a ser reconvertido. 
Urge, uma vez mais, chamar à atenção para a sua importância no contexto da história da arte e da arquitectura portuguesas, pelo seu carácter único e excepcional. 
Defendendo a protecção deste edifício, em que exterior e interior constituem um todo, uno e indissociável, fazemos votos de que seja devidamente conservado e celebrado pelos seus novos proprietários.



Querubim Lapa - fachada da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP



Querubim Lapa - fachada da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963. Fotografia de Garcia Nunes, 1966  AML




A Casa da Sorte do Chiado, projectada em 1962 e inaugurada no ano seguinte, representa o culminar da colaboração entre artista e arquitecto, que vinha a ser desenvolvida e aprimorada desde 1955, com a participação de Querubim Lapa no projecto da loja Rampa, situada no Largo Rafael Bordalo Pinheiro e posteriormente destruída.
A fachada da Rampa, um corajoso rasgo de modernidade, era constituída por um plano envidraçado deixando ver todo o interior da loja, apenas seccionado pelo pórtico concebido pelo ceramista, um aro em betão revestido por placas cerâmicas policromadas que enquadrava uma porta igualmente em vidro, dando continuidade à restante fachada.
Querubim Lapa, cujo primeiro trabalho para arquitectura fora o desenho do revestimento azulejar de padrão para o Centro Comercial do Restelo, a convite do seu autor, o arquitecto Raul Chorão Ramalho (1914-2002), terá no pórtico da Rampa a sua primeira intervenção estrutural num projecto arquitectónico. Já que Conceição Silva pensará a fachada em função do pórtico, tal como este é concebido em função da sua integração na fachada.
Obra maior, a maturidade atingida na Casa da Sorte só é possível após um vasto conjunto de experiências, entre as quais podemos destacar os painéis relevados para os pavilhões portugueses no Comptoir Suisse; na Exposição Universal de Bruxelas e o grande mural da pastelaria Mexicana (actual motivo de preocupação). 



Querubim Lapa - pórtico da loja Rampa, Viúva Lamego, 1955. Imagem publicada na revista Atrium, nº1, 1959.



A instituição comercial Casa da Sorte foi fundada em Braga, em 1933, por António Augusto Nogueira da Silva (1901-1976), com a missão de desenvolver e expandir a Lotaria Nacional, transformando-se a longo prazo no maior requisitante oficial da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. 
A empresa cresceu rapidamente, abrindo lojas no Porto, Lisboa e Coimbra, em 1938, 1940 e 1948, respectivamente. Seguidamente expandiu-se para as províncias ultramarinas de Angola e Moçambique, com vários novos estabelecimentos, entre 1952 e 1970.
A primeira loja em Lisboa, inaugurada na Praça D. Pedro IV, em 1940, contém uma representação tridimensional de grande escala da Rainha D. Leonor, cerâmica da autoria de Jorge Barradas (1894-1971). No entanto, esta é uma peça independente, pensada como uma homenagem à fundadora das Misericórdias e acrescentada posteriormente, já na década de 60, sem relação directa com o projecto arquitectónico. Nogueira da Silva, apreciador de cerâmica, é responsável por várias encomendas de monta a Jorge Barradas, destinadas à sua habitação em Braga, actual Museu Nogueira da Silva, onde ainda se encontram expostas.
Assim, seria Barradas o natural escolhido para trabalhar no projecto do Chiado, tendo sido ele o responsável pela indicação do jovem Querubim Lapa, seu companheiro de trabalho na fábrica Viúva Lamego, onde ambos tinham ateliers individuais.




Querubim Lapa - fachada da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP


Com o projecto de Conceição Silva, a cerâmica irá alcançar um peso determinante na concepção do espaço. Na loja do Chiado, arquitecto e artista trabalham conjuntamente na criação de um objecto cuja orgânica assenta na expressão plástica dada pelo revestimento das paredes. Um espaço de pequenas dimensões, onde a fachada, sóbria de claros azuis e brancos, perfeitamente integrada num contexto de construção Pombalina, funciona em continuidade com o interior, através de uma suave transição cromática, enquadrando uma surpresa dominada por uma paleta de cores quentes e formas exuberantes. 
Na Casa da Sorte do Chiado, Querubim Lapa utiliza placas cerâmicas de grande formato em alternativa ao azulejo convencional. Numa sensível intervenção, suficientemente conservadora no exterior, de modo a evitar o conflito com a envolvente, propõe uma leitura moderna da paleta de cores herdada da azulejaria Pombalina, explorando as texturas e os vidrados em toda a superfície dos revestimentos exterior e interior.
Segundo explicações dadas pelo artista, a dimensão das placas cerâmicas terá sido a maior possível, 20 x 30 cm, respeitando as condicionantes de execução existentes na fábrica de cerâmica Viúva Lamego. O desenho do espaço foi concebido pelo arquitecto em função destas dimensões, tomadas como módulo no sentido clássico do termo, unidade de medida para a concepção do espaço. Não estamos portanto perante uma obra de fachada, pelo contrário, a articulação entre interior e exterior é determinante no entendimento do espaço, concebido como obra de arte total.



Querubim Lapa - fachada da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP



Querubim Lapa - detalhe da fachada da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP



Querubim Lapa - fachada da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP



Querubim Lapa - detalhe da fachada da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP



Querubim Lapa - detalhe da fachada da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP


A temática tratada na figuração desenvolvida nos revestimentos cerâmicos, está centrada em referências ao jogo, segundo uma leitura aberta e universal da ideia de destino, sorte ou azar. Os números, o pentagrama ou os signos zodiacais, são elementos facilmente identificáveis, tanto no exterior como no interior. 


Querubim Lapa - detalhe da fachada da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP



Querubim Lapa - detalhe da fachada da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP



Querubim Lapa - detalhe do revestimento do interior da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP


Querubim Lapa - detalhe do revestimento do interior da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP



Querubim Lapa - revestimento do interior da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP



Querubim Lapa - painel com espelhos, interior da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP



Querubim Lapa - detalhe do revestimento do interior da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP



Querubim Lapa - detalhe do revestimento do interior da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP



Querubim Lapa - detalhe do revestimento, com espelho, interior da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP



Querubim Lapa - detalhe do revestimento do interior da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP



Querubim Lapa - detalhe do revestimento do interior da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP



Querubim Lapa - detalhe do revestimento do interior da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP



Querubim Lapa - detalhe do revestimento do interior da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP



Atelier Conceição Silva - detalhe dos puxadores de porta, Casa da Sorte, 1963.  © CMP


A Casa da Sorte do Chiado, contém também a primeira experiência em cobre esmaltado realizada por Querubim Lapa, um painel executado nas oficinas da Escola de Artes Decorativas António Arroio, onde o artista leccionava.
Seguindo a temática tratada nos revestimentos das paredes, o número como alegoria do destino, este friso decorativo está suspenso na parede por de trás do balcão, ao nível do olhar dos espectadores que dele se aproximem.

A técnica da esmaltagem sobre placas de cobre, sofre nesta época uma renovação paralela à acontecida na cerâmica de autor, sendo particularmente utilizada em pormenores decorativos em arquitectura, mobiliário e objectos de menor escala. Um dos artistas que mais se destacou no seu uso foi Luís Ralha (1935-2008), autor de frisos decorativos, puxadores de portas e também de pequenos objectos que pontuavam os interiores modernos. A ele se devem os puxadores das portas do Hotel do Mar, 1963, ou as placas esmaltadas embutidas no mobiliário desenhado por Daciano da Costa (1930-2005) para a Reitoria da Universidade de Lisboa, em 1961.

Os esmaltes de Querubim Lapa para a Casa da Sorte, destacam-se pela densidade das cores e solidez das formas, constituindo um contraponto à fluidez e transparência cromática por si obtidas nos revestimentos das paredes. Esta intensidade de azuis ultramarinos e vermelhos estará, por sua vez, em perfeita consonância com os painéis em madeira de tonalidades quentes que revestem o balcão e a parede de fundo.



Querubim Lapa - painel em cobre esmaltado, Casa da Sorte, 1963.  © CMP



Querubim Lapa - detalhes do painel em cobre esmaltado, Casa da Sorte, 1963.  © CMP



Como afirma Rui Afonso Santos em "Querubim Lapa | Cerâmicas", Ed. Inapa, 2001: 
"Ao seu termo, a Casa da Sorte resultou num projecto notável de arquitectura e decoração, com perfeita unidade e integração plástica, ainda hoje intacta e felizmente preservada."
Esperemos que assim continue por muitos anos, a bem da conservação do património arquitectónico e artístico do século XX, em Portugal.





Nota: As fotografias que ilustram esta publicação foram obtidas em 2011, com a Casa da Sorte aberta ao público e em plena laboração. 
Abaixo podem ver-se imagens que ilustram o seu estado actual.



Querubim Lapa - fachada da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP



Querubim Lapa - fachada da Casa da Sorte, Viúva Lamego, 1963.  © CMP