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domingo, 6 de outubro de 2013

Hotel do Mar, Sesimbra - Placas cerâmicas de Querubim Lapa I

No ano do quinquagésimo aniversário do Hotel do Mar, celebramos a obra pioneira do arquitecto Francisco da Conceição Silva (1922-1982) que, como autor e gestor de equipas multidisciplinares, promoveu profícuas colaborações com artistas plásticos, designers de comunicação e de interiores, na procura da concepção total e integrada de cada obra.
No seu Atelier, Conceição Silva implementou o cruzamento de disciplinas, fomentando o trabalho de várias equipas, na sedimentação progressiva de uma prática de contornos empresariais, onde uma visão global da obra dá lugar a múltiplas intervenções especializadas.
As encomendas comerciais permitiram-lhe desenvolver uma consciência programática e de experimentação, adequada a cada circunstância. Lojas e outros espaços comerciais, na sua maioria já desaparecidos ou profundamente alterados, como é o caso da Papelaria Progresso (1956) ou do café/loja Tofa (1961), ambos na Baixa Lisboeta, são bons exemplos de obras onde o desenho do mobiliário, da imagem corporativa ou da iluminação fazem parte da essência do projecto.
Estas práticas consolidar-se-ão na encomenda turística em expansão, potenciando o crescimento das várias áreas disciplinares do design e das artes decorativas nacionais.
O Hotel do Mar, em Sesimbra, inaugurado a 15 de Agosto de 1963, é considerado o primeiro integralmente desenhado, dando início uma nova abordagem na concepção de unidades hoteleiras em Portugal, que dominará a expansão do sector nos anos seguintes, culminando com a construção do Hotel da Balaia, na região de Albufeira, em 1967, igualmente da responsabilidade do atelier Conceição Silva.



Hotel do Mar, Sesimbra, vista parcial. © CMP
 


Hotel do Mar, Sesimbra, vista aérea após a conclusão da segunda fase de construção, c.1966. Imagem publicada em Francisco da Conceição Silva, arquitecto 1922/1982, SNBA, 1987.


O projecto do Hotel do Mar nasce de uma encomenda formulada por João Alcobia, proprietário e gerente da casa JALCO, a Conceição Silva.
O arquitecto havia já colaborado com a prestigiada casa de decoração de interiores, situada na Rua Ivens, Lisboa, em 1951, desenhando um conjunto de peças de mobiliário moderno e no ano seguinte promovendo a exposição dos Surrealistas, Fernando Lemos (n.1926), Fernando Azevedo (1923-2002) e Marcelino Vespeira (1925-2002).
Numa entrevista à revista Arquitectura, nº120, Março/Abril de 1971, Conceição Silva explica o surgimento deste projecto:
" (...) Eu tinha desenhado peças de mobiliário e conhecia o proprietário de uma casa de móveis. Propus-lhe fazer uma montra de móveis. Assim surgiu ao público um dos primeiros conjuntos de mobiliário moderno, na altura, desenhado em Portugal, e que foi, pelo menos, um escândalo... Já não digo um sucesso comercial, mas foi um escândalo, no momento. Como estava relacionado e tinha tempo disponível - e imaginação naturalmente para realizações - proporcionei que nessa mesma galeria Jalco se fizesse a primeira exposição de arte surrealista. Com intervenção do Vespeira, do Azevedo e do Lemos, que hoje está no Brasil. Foi realmente uma exposição que deu escândalo, chegou-se a formar uma grande bicha na rua para a visitar. Ora bem, embora eu não fosse organizador da exposição, fiquei-lhe inteiramente ligado. E também relacionado com a dita casa de móveis. Daí eu vir a fazer mais tarde, em Sesimbra, o Hotel do Mar, para o proprietário dessa loja. (...) Claro que o Hotel do Mar marca uma posição muito importante na minha vida de projectista. É um caso típico, em que me foi possibilitada a realização de um edifício dominando quase a sua totalidade. A firma proprietária era, como já lhe disse, uma casa de móveis, o que facilitou essa intervenção total."



Hotel do Mar - bilhete postal, segunda metade dos Anos 60.



Hotel do Mar - bilhete postal, segunda metade dos Anos 60.



Rótulo do Hotel do Mar, Anos 60.



Em 1957 Conceição Silva é eleito para a direcção da SNBA e projecta o Hotel do Mar, cuja primeira fase de construção se concretizará entre 1960 e 1963. Esta fase considera apenas o corpo central do edifício, ainda sem as piscinas, edificadas na segunda fase, juntamente com a discoteca, situada abaixo da grande piscina circular e o restaurante panorâmico, concluídos em 1966.
"O primeiro hotel português excelentemente integrado no local - e primeiro hotel português projectado na sua totalidade" como afirmará J-A França. A ocupação da encosta é feita em socalcos, segundo elementos modulares repetitivos, respeitando a orgânica da paisagem, numa solução inovadora que propõe o diálogo directo com o mar, considerando ainda uma enorme embarcação desempenhando a função de praia flutuante.
A concepção e controlo total da obra e sua envolvente, recupera ideais de raiz Bauhausiana, adaptando-os à conjuntura de expansão económica subsequente à Segunda Grande Guerra. Estes ideais serão plenamente atingidos com o projecto do Hotel da Balaia, onde o Atelier é também responsável pela construção da obra, mantendo uma perspectiva comercial, dominada pela  integração das várias práticas artísticas em articulação com a produção industrial e a reprodução em série.
O Atelier Conceição Silva revela-se um organismo em permanente transformação, renovando-se e adaptando-se às necessidades de cada projecto. Sendo, no contexto português, o melhor exemplo do retomar das propostas modernistas após a Guerra.



Hotel do Mar - vista exterior do bar. © CMP



Hotel do Mar - patamar de acesso ao bar. © CMP


Hotel do Mar - vista do interior do bar. © CMP


Hotel do Mar - vista do interior do bar. © CMP


Hotel do Mar - vista da varanda do bar. © CMP

O corpo principal do Hotel é dominado pelo pavilhão do Bar, cuja estrutura em madeira, remete para os sistemas construtivos tradicionais portugueses, bem como o uso da alvenaria, aliada a outros materiais reconhecíveis na arquitectura rural, tratados segundo uma perspectiva moderna.
Sensível às problemáticas levantadas pelo Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa, de que esteve muito próximo, Conceição Silva desenvolve uma abordagem informada, alinhada com as propostas internacionais, recusando os falsos regionalismos dos cânones promovidos pelo Estado Novo.
O equipamento e decoração de interiores serão dominados pela produção nacional, podemos encontrar peças desenvolvidas por artesãos, como José Franco (1920-2009); louça da fábrica SECLA; vidros da Fábrica Escola Irmãos Stephens; gravuras e tapeçarias, produzidas respectivamente pela Cooperativa Gravura e pelo Centro Português de Tapeçaria, organismos dedicados à reprodução de obras de autores nacionais e internacionais, de que Conceição Silva foi fundador e presidente; escultura e pintura de vários autores, como João Cutileiro (n.1937) ou Pedro Leitão (1922-2009) e, evidentemente, todo o mobiliário desenhado para o local e produzido nas oficinas da casa JALCO.
Desta profusão de obras, destacamos as placas cerâmicas de Querubim Lapa (n. 1925), que, numa quantidade assinalável, pontuam interiores e exteriores, contribuindo para a definição dos traços identitários de cada espaço.




Hotel do Mar - detalhe de um dos patamares de acesso ao Bar. © CMP



Querubim Lapa - placa cerâmica, Hotel do Mar, 1963. © CMP


Querubim Lapa - placa cerâmica, Hotel do Mar, 1963. © CMP


Querubim Lapa - placas cerâmicas, porta do Bar, Hotel do Mar, 1963. © CMP



Querubim Lapa - placa cerâmica, bar do Hotel do Mar, 1963. © CMP



Querubim Lapa - placa cerâmica, bar do Hotel do Mar, 1963. © CMP



Hotel do Mar - vista do interior do bar, com placas cerâmicas. © CMP



Querubim Lapa - placa cerâmica, bar do Hotel do Mar, 1963. © CMP


Querubim Lapa, com formação em escultura pela ESBAL, desenvolve uma profícua carreira de ceramista, sobretudo depois de 1954, ano em que lhe é concedido o espaço de trabalho na Fábrica de Cerâmica Viúva Lamego que conserva até à actualidade, tornando-se um dos mais importantes ceramistas portugueses do século XX, colabora com vários arquitectos e mais regularmente com Conceição Silva.
Destas colaborações, além do Hotel do Mar, devemos referir a loja Rampa, em 1955, entretanto destruída, cuja larga fachada envidraçada era entrecortada pela moldura da porta revestida com placas de cerâmica de sua autoria; os relevos realizados para o pavilhão português, no Comptoir Suisse, Lausana, em 1957, que já aqui havíamos tratado; a moradia do arquitecto, no Guincho, Cascais, para cujo o interior o artista concebeu um painel recortado, em 1960 e em especial a Casa da Sorte, no Chiado, Lisboa, 1962, onde a totalidade da fachada, bem como grande parte dos interiores, são revestidos a cerâmica, promovendo a organicidade do espaço.
As placas cerâmicas do Hotel do Mar são de tamanhos e formatos variados, representando sobretudo rostos, no entanto encontramos também registos abstractos ou abstractizantes e outros tipos de figuração, como aves ou peixes, remetendo para a produção avulsa de Querubim Lapa, da mesma época. Como uma sinalética poética, a sua distribuição ao longo de corredores, patamares e átrios, orienta-nos, conduzindo-nos na circulação entre os vários espaços.



Hotel do Mar - vista do interior do bar. © CMP



Querubim Lapa - placa cerâmica, bar do Hotel do Mar, 1963. © CMP


Querubim Lapa - placa cerâmica, bar do Hotel do Mar, 1963. © CMP



Querubim Lapa - placa cerâmica, assinatura, bar do Hotel do Mar, 1963. © CMP


Todos os detalhes dos interiores do Hotel foram cuidadosamente desenhados, adequando-se às suas localizações e funções, simultaneamente mantendo a possibilidade de serem utilizados em diferentes contextos.
Num tempo em que a oferta de objectos produzidos em série era ainda muito limitada em Portugal, equipas de arquitectos e artistas plásticos aplicavam-se no desenho total de cada projecto, demorando-se em cada detalhe.
Orientado por este espírito, o Atelier Conceição Silva procura conceber objectos que possibilitem a produção em série, podendo ser usados em múltiplas circunstâncias. Nascem assim no Hotel do Mar, várias tipologias de objectos, sobretudo mobiliário a iluminação, que serão mais tarde aplicadas em diferentes espaços e projectos.
Para o balcão do Bar foi pensado um revestimento composto por esferas de vidro transparente, semelhantes às bóias utilizadas nas redes de pesca, elemento que se repete no desenho dos candeeiros de parede, mais uma vez remetendo para a actividade piscatória da vila, inteligentemente evitando a literalidade das referências.
Dos vidros utilitários do Bar, copos e garrafas de vários formatos, resistem ainda alguns exemplares, que podemos observar nas imagens abaixo. Estas peças foram executadas na Marinha Grande, provavelmente na Fábrica Escola Irmãos Stephen, com quem Conceição Silva colaborou noutras ocasiões.



Hotel do Mar - vidros utilitários do Bar, 1963. © CMP



Hotel do Mar - revestimento de vidro do balcão do Bar, detalhe. © CMP




Hotel do Mar - revestimento de vidro do balcão do Bar, detalhe. © CMP



Hotel do Mar - candeeiro de parede do Bar. © CMP



Hotel do Mar - candeeiros de parede, varandas e patamares. © CMP



Hotel do Mar - espelho, patamares e outras zonas de circulação. © CMP



Tomando como referência um dos patamares de acesso ao Bar, deparamo-nos com um conjunto de elementos que reconheceremos em todo o edifício, segundo diferentes variações. Um espelho circular com moldura em madeira, suspenso por uma tira de cabedal; uma consola em pedra riscada; as cadeiras de braços, das quais veremos mais exemplares na próxima publicação; um vaso de barro; o revestimento de chão em tijoleira de terracota e a alvenaria texturada, elementos que encontraremos em diversos contextos ou sob diversas formas, sempre em diálogo com as peças de Querubim Lapa.



Hotel do Mar - Patamar com placa cerâmica. © CMP



Querubim Lapa - placa cerâmica, Hotel do Mar, 1963. © CMP



O Atelier Conceição Silva colaborou regularmente com o designer Manuel Rodrigues (1924-1965), responsável pela imagem gráfica do pavilhão português em Lausana, será ele o provável autor do logótipo do Hotel do Mar.
O desenho integra as iniciais 'H' e 'M' numa referência mais uma vez evocativa da actividade piscatória de Sesimbra, o 'M' é definido pelas formas triangulares dominantes das velas de uma embarcação, enquanto o 'H' assume o papel dos mastros, a composição é humoristicamente sublinhada pelo recorte rectilíneo de um pequeno peixe.



Logótipo do Hotel do Mar aplicado sobre o vidro da janela do bar. © CMP


Neste projecto, à semelhança do que aconteceu noutras situações, Conceição Silva trabalhou com a fábrica SECLA.
Como esclarece Alberto Pinto Ribeiro (1921-1989) em A Nova Cerâmica da Caldas (1989): 
"Na montagem do Hotel do Mar, em Sesimbra, desde o serviço de jantar de mesa feito de propósito para o Hotel, além de peças decorativas, cinzeiros e acessórios eram regularmente feitos pela SECLA."
Deste serviço, segundo ali nos informaram, já não existem peças no hotel, no entanto gostaríamos de o poder conhecer e divulgar, bem como outras peças cerâmicas concebidas para o empreendimento. 
Apelamos aos nossos leitores que possuam peças ou informações sobre elas, que partilhem imagens, contribuindo assim para completar esta publicação.



SECLA - cinzeiro com logótipo do Hotel do Mar. © Sílvia Jardim

SECLA - cinzeiro com logótipo do Hotel do Mar, marca de fábrica. © Sílvia Jardim


Dos cinzeiros "regularmente feitos pela SECLA" e infelizmente agora substituídos por outros em porcelana, mostramos quatro exemplares. 
O primeiro será provavelmente da década de 70, segundo indica a marca de fábrica, sendo completamente revestido a vidrado cor de mel, brilhante e transparente. 
Os segundos tiram partido do contraste entre o esmalte negro mate do exterior, que num deles se estende cobrindo o bordo superior, e o vidrado vermelho brilhante do interior, enfatizando o relevo do logótipo. E por último, uma versão que explora as tonalidades neutras, jogando sobretudo com a diferença de brilho  entre os esmaltes. Estes deverão ser de produção anterior.



SECLA - cinzeiro com logótipo do Hotel do Mar. © Sílvia Jardim

SECLA - cinzeiro com logótipo do Hotel do Mar.  © PMC

SECLA - cinzeiro com logótipo do Hotel do Mar.  © PMC


SECLA - cinzeiro com logótipo do Hotel do Mar.  © Miguel Sousa



Continuação em: Hotel do Mar, Sesimbra - Placas cerâmicas de Querubim Lapa II


CMP* agradece a hospitalidade e simpatia do Hotel do Mar, agradecendo também aos coleccionadores Sílvia Jardim, Miguel Sousa e P.M.C., pela cedência de imagens de peças das suas colecções.





segunda-feira, 29 de julho de 2013

Maria Keil - Duas mostras, 1955 e 2013

Maria Keil (1914-2012) a mais multifacetada artista do Modernismo em Portugal, vê finalmente a sua obra exposta de modo abrangente, ainda que não exaustivo, na mostra "De propósito, Maria Keil, Obra Artística".
A selecção de trabalhos inclui peças representativas das múltiplas áreas disciplinares exploradas pela artista: pintura; ilustração; azulejo; cenografia e figurinos; design gráfico; publicidade; mobiliário; decoração e tapeçaria mural. Sempre sob o signo do Desenho, disciplina orientadora de toda a produção artística da autora.
Desta exposição fica ainda a promessa da publicação de um catálogo raisonné, a sair até final de 2013, contribuição fundamental para a sistematização da surpreendente diversidade de uma obra profícua e multidisciplinar.
As imagens aqui apresentadas registam algumas das peças expostas, aproveitando para evocar outro momento expositivo, o primeiro dedicado pela artista inteiramente às artes decorativas. Decorreu na Galeria Pórtico, em Lisboa, de Maio a Junho de 1955, dando visibilidade à obra azulejar em desenvolvimento, que viria  mais tarde a culminar  nos painéis de grande escala para o Metropolitano de Lisboa.



Maria Keil - Combate de Galos, painel de azulejos, 102x171 cm, 1955, colecção particular. © CMP



A Galeria Pórtico abre, na Rua da Misericórdia 33, em 1955, ano precedente à última (X) Exposição Geral de Artes Plásticas e à criação da Fundação Calouste Gulbenkian, início de um novo ciclo na história da arte em Portugal.
Logo no ano de abertura mostra obras de Fernando Lemos (n.1926), Vespeira (1925-2002), Manuel Cargaleiro (n.1927), Valadas Coriel (n.1928), Júlio dos Reis Pereira (1902-1983), para além de Maria Keil, acima citada, realizando ainda exposições de gravura e de carácter didáctico.
Desempenhou um papel importante na divulgação de uma nova geração de artistas, então ainda estudantes de Belas-Artes, René Bertholo (1935-2005), Lourdes Castro (n.1930), José Escada (1934-1980) e Costa Pinheiro (n.1932), todos eles aí expondo, individual ou colectivamente entre 55 e 57. Este grupo será mais tarde, já em Paris, responsável pela criação da revista KWY (1958-1964).
A Pórtico promoveria ainda, em 57, a exibição de obras de Vieira da Silva (1908-1992), último ano em que manterá programação regular, acabando por encerrar em 1959.

 

Maria Keil - Combate de Galos, painel de azulejos, detalhe, 1955, colecção particular. © CMP


Maria Keil, teve obra pictórica apreendida pela PIDE na II Exposição Geral de Artes Plásticas, em 1947, juntamente com Júlio Pomar (n.1926), Rui Pimentel (Arco) (n.1924) e Manuel Ribeiro de Pavia (1910-1957), dedicando-se no ano seguinte à decoração de interiores da Pousada de S. Lourenço, na Serra da Estrela, projectada pelo arquitecto Rogério de Azevedo (1898-1983), desenhando mobiliário, actividade que vinha desenvolvendo desde meados da década de 40, tanto para encomendas públicas como privadas, muitas vezes em colaboração com o seu marido, o arquitecto Francisco Keil do Amaral (1910-1975).
A exposição na Pórtico, "Móveis de Maria Keil e Manuel Magalhães - Azulejos de Maria Keil", representa assim o amadurecer de um percurso de vários anos de actividade. Aliando às peças por si desenhadas e realizadas pelo mestre entalhador Manuel Magalhães, azulejos executados na fábrica Viúva Lamego, tanto em painéis como integrados em mobiliário.


Maria Keil - Combate de Galos, painel de azulejos, detalhe, 1955, colecção particular. © CMP


Maria Keil - Combate de Galos, painel de azulejos, detalhe, 1955, colecção particular. © CMP



Maria Keil - Combate de Galos, painel de azulejos, detalhe, 1955, colecção particular. © CMP



Maria Keil - Combate de Galos, painel de azulejos, detalhe, 1955, colecção particular. © CMP


Um dos exemplares mostrados em 1955 é o painel Combate de Galos, acima reproduzido, onde a espessa linha que define o desenho dos animais é esgrafitada sobre um fundo padronado, criando um efeito semelhante à técnica de corda-seca, mais tarde aplicada por Keil nos revestimentos da estação Rossio, do Metropolitano de Lisboa. Técnica semelhante foi utilizada no painel Os Papagaios, igualmente exposto em 55.
Este desenho, dinâmico e abstractizante, demonstra uma particular eficiência gráfica, sublinhada pela repetição de um módulo de desenho linear, tendo por base os alvéolos da rede de capoeira.
Esta abordagem, distancia-se claramente do registo ilustrativo, trabalhado com bastante à-vontade pela artista, em inúmeros livros infantis e escolares, como podemos verificar pelos estudos abaixo reproduzidos, de temática semelhante.



Maria Keil - estudo para ilustração do livro Histórias da Minha Rua, guache e tinta-da-china sobre papel, 1953, colecção da BNP. © CMP

Maria Keil - estudos para ilustração do livro O pau-de-fileira, tinta-da-china, grafite e guache, 1977, colecção da BNP. © CMP

Na exposição na Pórtico, foram mostrados dezasseis painéis de azulejo, incluindo excertos de revestimentos de parede, entretanto concebidos pela artista. Entre estes constava o painel Os Pastores, já aqui referido, a propósito da estação de Metro, Parque.
Abaixo podemos ver um projecto para um dos painéis apresentados, A Figueira, e um detalhe do projecto para uma parede na sede da TAP em Paris, da qual foi exibido um excerto, tal como aconteceu com a parede desenhada para a Aerogare de Luanda, realizada em 1954.


Maria Keil - estudo para painel de azulejos A Figueira, lápis sobre papel vegetal, 1955, colecção do MNAZ. © CMP

Maria Keil - painel de azulejos A Figueira, 1955, colecção particular. Imagem publicada no catálogo Maria Keil - Azulejos, edição do Museu Nacional do Azulejo, 1989.

Maria Keil - detalhe de painel de azulejos Rapariga da Fruta, 1955. Imagem publicada na revista Panorama, nº3, 1956, divulgando a exposição na galeria Pórtico, Lisboa.


Sobre os azulejos expostos, escreve Maria Keil, no catálogo de 1955, um texto exemplar que poderá ser entendido como manifesto da modernização da produção azulejar em Portugal: 
"Poucas artes aplicadas têm tradições tão portuguesas como a dos azulejos de revestimento e pouquíssimas contribuíram tanto para o que há de característico nas nossas edificações dos últimos séculos. E, no entanto, mercê de circunstâncias mal definidas, essa tradição magnífica quase se perdeu. Vem vegetando na execução de pequenos painéis com santos do mesmo nome dos donos de quintas e de casais, ou na repetição de motivos «à antiga portuguesa».
Parece-me que vale a pena, a vários títulos, insuflar vida nessa tradição decadente e que aos arquitectos cabe, necessariamente, um papel importante nessa tarefa: porque se não derem guarida aos azulejos nas suas obras, nada feito. Mas a nós, pintores e decoradores, cumpre fornecer aos arquitectos azulejos adequados para os edifícios e as soluções de hoje. Azulejos de espírito moderno para as obras de arquitectura moderna.
Na tradição do azulejo português há duas feições dominantes: a dos motivos pintados à mão, com um número de cores bastante reduzido, em que predomina o azul; e a dos elementos estampilhados em série, que se empregou, principalmente, para revestir fachadas de prédios e grandes superfícies interiores. Nessa tradição limitada, mas rica de possibilidades para quem tiver imaginação, procurei lançar as minhas raízes. Ela continua a ser, quanto a mim, perfeitamente adequada para valorizar a arquitectura. Para valorizar integrando-se nela discretamente, como é preciso.
Não permite, é certo, os requintes da cerâmica policromada, nem é rico e quente (bem pelo contrário) o material visto ao pé. Mas, assim mesmo, conseguiram os nossos maiores realizar coisas tão belas, tão certas para os locais e as funções a que se destinavam, tão simples, tão humildes, tão bem compreendidas, que me parece impensada vaidade desprezar a lição magnífica que encerram.
As minhas obras são apenas ensaios, tentativas, que a boa-vontade e simpatia dos que dirigem e dos que trabalham na Fábrica de Cerâmica Viúva Lamego tornou possível, com os seus ensinamentos e a sua ajuda. São, na maioria dos casos, troços de grandes superfícies já revestidas, ou a revestir. E como tal gostaria que fossem olhadas.



Maria Keil - detalhe do estudo para parede em azulejos na sede da TAP em Paris, tinta-da-china, guache e colagem sobre cartão, 1954, colecção particular. © CMP


Foram também mostradas peças de mobiliário integrando azulejo, como é o caso da Mesa dos Frutos, abaixo reproduzida, cujo tampo é composto por dezasseis azulejos. O motivo central combina pintura com desenho esgrafitado e a cercadura é composta por um conjunto de motivos avulso, figurando vários frutos, em tonalidades de verde e azul, envoltos num grafismo dinâmico, elemento agregador da composição.


Maria Keil - Mesa dos Frutos, 1955, colecção particular. © CMP



Maria Keil - Mesa dos Frutos, tampo, 1955, colecção particular. © CMP



Maria Keil - Mesa dos Frutos, detalhe do motivo central do tampo, 1955, colecção particular. © CMP



Maria Keil - Mesa dos Frutos, detalhe da cercadura do tampo, 1955, colecção particular. © CMP


A complexidade das peças de mobiliário expostas na Pórtico, afasta-se do trabalho desenvolvido, anos antes, para a Pousada de Manteigas, revelando uma maior sofisticação, tanto estrutural, como técnica. 
É um mobiliário de concepção moderna, longe da estilização folclórica proposta anos antes segundo os ditames da Campanha do Bom Gosto do SPN. Conjuga a utilização de vários materiais, como madeiras ou metais, onde o detalhe minucioso, não é rústico, nem é barroco, revelando um alinhamento pelas tendências internacionais, especialmente o desenho de mobiliário italiano, associado a uma primorosa execução técnica.



Maria Keil - Bar dos Cavalos, 1955, colecção particular. © CMP

Sobre as suas propostas de mobiliário diz a autora, no catálogo supracitado:
"Quanto à feição que pretendi imprimir-lhes, estes móveis constituem uma tentativa de resposta às seguintes perguntas que a mim mesma vinha fazendo com crescente frequência:
- Será que estamos realmente condenados, em Portugal, a recorrer às imitações pomposas de móveis antigos sempre que pretendemos arranjar uma casa nova com certa distinção, ou riqueza?
- Não haverá outro, ou outros caminhos? Não será possível fazer móveis de hoje, simples, mas enobrecidos e enriquecidos pela intervenção de artistas plásticos?
É certo que a feição característica do mobiliário contemporâneo é acentuadamente utilitária, com grande sobriedade de linhas e de volumes. É certo ainda que as vantagens resultantes do emprego de novas técnicas de produção em série devem colocar ao alcance do homem comum móveis de preço acessível, mas com modelos estudados cuidadosamente por especialistas de elevada categoria.
Contudo, creio bem que a par desses móveis (raríssimos ainda entre nós, infelizmente) há lugar para esse outro tipo de mobiliário cuja falta sinto - sóbrio e funcional mas valorizado pelo poder criador e pelo trabalho de artistas e artífices.
Os motivos de talha, de embutidos e de metais são, porventura, os mais constantes na tradição do mobiliário. E foi nessa tradição que lancei raízes. Variando mais uma vez o estilo do conjunto e dos motivos ornamentais, como era natural, mas procurando beneficiar dos ensinamentos da Tradição e respeitá-la no que ela tem de vivo e respeitável.
As peças expostas estudei-as e desenhei-as com a atenção que se dedica a uma esperança. Isso, porém, não seria bastante. Porque os móveis de arte têm que ser executados por quem os compreenda e sinta. De nada serviria ter concebido e desenhado as figurinhas para fazer em talha se não encontrasse quem as realizasse convenientemente. Neste ponto, porém, a Sorte acompanhou-me: o senhor Manuel Magalhães é um mestre entalhador de grandes recursos técnicos e de apurada sensibilidade. Com um carinho, uma perícia e uma compreensão invulgares soube transformar os meus desenhos a duas dimensões em pequenas esculturas. A ele se deve, portanto, muito do que possam valer as peças expostas."


Maria Keil - Papeleira dos Meninos e da Água, 1955, colecção particular. © CMP



Maria Keil - Papeleira dos Meninos e da Água, detalhe, 1955, colecção particular. © CMP


Para além dos exemplares referidos, estiveram ainda expostos na Pórtico, segundo o catálogo:
- Mesa dos Cavalos
- Armário dos Camponeses
- Papeleira dos Pescadores
- Móvel da Fonte


 




A exposição "De propósito, Maria Keil, Obra Artística", está patente no Palácio da Cidadela de Cascais, de 10 de Julho a 27 de Outubro, do ano corrente. É organizada pelo Museu da Presidência da República, sob a coordenação de Diogo Gaspar e tem curadoria de Alexandre Arménio Tojal e Rui Manuel Almeida.