No ano do quinquagésimo aniversário do
Hotel do Mar, celebramos a obra pioneira do arquitecto Francisco da Conceição Silva (1922-1982)
que, como autor e gestor de equipas multidisciplinares, promoveu profícuas colaborações com artistas plásticos, designers de comunicação e de interiores, na procura da concepção total e integrada de cada obra.
No seu Atelier, Conceição Silva implementou o cruzamento de disciplinas, fomentando o trabalho de várias equipas, na sedimentação progressiva de uma prática de contornos empresariais, onde uma visão global da obra dá lugar a múltiplas intervenções especializadas.
As encomendas comerciais permitiram-lhe desenvolver uma consciência programática e de experimentação, adequada a cada circunstância. Lojas e outros espaços comerciais, na sua maioria já desaparecidos ou profundamente alterados, como é o caso da Papelaria Progresso (1956) ou do café/loja Tofa (1961), ambos na Baixa Lisboeta, são bons exemplos de obras onde o desenho do mobiliário, da imagem corporativa ou da iluminação fazem parte da essência do projecto.
Estas práticas consolidar-se-ão na encomenda turística em expansão, potenciando o crescimento das várias áreas disciplinares do design e das artes decorativas nacionais.
O Hotel do Mar, em Sesimbra, inaugurado a 15 de Agosto de 1963, é considerado o primeiro integralmente desenhado, dando início uma nova abordagem na concepção de unidades hoteleiras em Portugal, que dominará a expansão do sector nos anos seguintes, culminando com a construção do Hotel da Balaia, na região de Albufeira, em 1967, igualmente da responsabilidade do atelier Conceição Silva.
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Hotel do Mar, Sesimbra, vista parcial. © CMP |
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Hotel do Mar, Sesimbra, vista aérea após a conclusão da segunda fase de construção, c.1966. Imagem publicada em Francisco da Conceição Silva, arquitecto 1922/1982, SNBA, 1987. |
Em 1957 Conceição Silva é eleito para a direcção da
SNBA e projecta o Hotel do Mar, cuja primeira fase de construção se concretizará entre 1960 e 1963. Esta fase considera apenas o corpo central do edifício, ainda sem as piscinas, edificadas na segunda fase, juntamente com a discoteca, situada abaixo da grande piscina circular e o restaurante panorâmico, concluídos em 1966.
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O primeiro hotel português excelentemente integrado no local - e primeiro hotel português projectado na sua totalidade" como afirmará J-A França. A ocupação da encosta é feita em socalcos, segundo elementos modulares repetitivos, respeitando a orgânica da paisagem, numa solução inovadora que propõe o diálogo directo com o mar, considerando ainda uma enorme embarcação desempenhando a função de praia flutuante.
A concepção e controlo total da obra e sua envolvente, recupera ideais de raiz
Bauhausiana, adaptando-os à conjuntura de expansão económica subsequente à Segunda Grande Guerra. Estes ideais serão plenamente atingidos com o projecto do Hotel da
Balaia, onde o Atelier é também responsável pela construção da obra, mantendo uma perspectiva comercial, dominada pela integração das
várias práticas artísticas em articulação com a produção industrial e a reprodução em série.
O Atelier Conceição Silva revela-se
um organismo em permanente transformação, renovando-se e adaptando-se
às necessidades de cada projecto. Sendo, no contexto português, o melhor
exemplo do retomar das propostas modernistas após a Guerra.
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Hotel do Mar - vista exterior do bar. © CMP |
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Hotel do Mar - patamar de acesso ao bar. © CMP |
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Hotel do Mar - vista do interior do bar. © CMP |
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Hotel do Mar - vista do interior do bar. © CMP |
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Hotel do Mar - vista da varanda do bar. © CMP |
O corpo principal do Hotel é dominado pelo pavilhão do Bar, cuja estrutura em madeira, remete para os sistemas construtivos tradicionais portugueses, bem como o uso da alvenaria, aliada a outros materiais reconhecíveis na arquitectura rural, tratados segundo uma perspectiva moderna.
Sensível às problemáticas levantadas pelo Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa, de que esteve muito próximo, Conceição Silva desenvolve uma abordagem informada, alinhada com as propostas internacionais, recusando os falsos regionalismos dos cânones promovidos pelo Estado Novo.
O equipamento e decoração de interiores serão dominados pela produção nacional, podemos encontrar peças desenvolvidas por artesãos, como José Franco (1920-2009); louça da fábrica SECLA; vidros da
Fábrica Escola Irmãos Stephens; gravuras e tapeçarias, produzidas respectivamente pela Cooperativa Gravura e pelo Centro Português de Tapeçaria, organismos dedicados à reprodução de obras de autores nacionais e internacionais, de que Conceição Silva foi fundador e presidente; escultura e pintura de vários autores, como João Cutileiro (n.1937) ou Pedro Leitão (1922-2009) e, evidentemente, todo o mobiliário desenhado para o local e produzido nas oficinas da casa JALCO.
Desta profusão de obras, destacamos as placas cerâmicas de Querubim Lapa (n. 1925), que, numa quantidade assinalável, pontuam interiores e exteriores, contribuindo para a definição dos traços identitários de cada espaço.
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Hotel do Mar - detalhe de um dos patamares de acesso ao Bar. © CMP |
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Querubim Lapa - placa cerâmica, Hotel do Mar, 1963. © CMP |
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Querubim Lapa - placa cerâmica, Hotel do Mar, 1963. © CMP |
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Querubim Lapa - placas cerâmicas, porta do Bar, Hotel do Mar, 1963. © CMP |
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Querubim Lapa - placa cerâmica, bar do Hotel do Mar, 1963. © CMP |
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Querubim Lapa - placa cerâmica, bar do Hotel do Mar, 1963. © CMP |
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Hotel do Mar - vista do interior do bar, com placas cerâmicas. © CMP |
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Querubim Lapa - placa cerâmica, bar do Hotel do Mar, 1963. © CMP |
Querubim Lapa, com formação em escultura pela
ESBAL, desenvolve uma profícua carreira de ceramista, sobretudo depois de 1954, ano em que lhe é concedido o espaço de trabalho na
Fábrica de Cerâmica Viúva Lamego
que conserva até à actualidade, tornando-se um dos mais importantes
ceramistas portugueses do século XX, colabora com vários arquitectos e mais regularmente com Conceição Silva.
Destas colaborações,
além do Hotel do Mar, devemos referir a loja Rampa, em 1955, entretanto destruída, cuja larga
fachada envidraçada era entrecortada pela moldura da porta revestida com
placas de cerâmica de sua autoria; os relevos realizados para o
pavilhão português, no
Comptoir Suisse, Lausana, em 1957,
que já aqui havíamos tratado;
a moradia do arquitecto, no Guincho, Cascais, para cujo o
interior o artista concebeu um painel recortado, em 1960 e em especial a
Casa da Sorte, no Chiado, Lisboa, 1962, onde a totalidade da fachada,
bem como grande parte dos interiores, são revestidos a
cerâmica, promovendo a organicidade do espaço.
As placas
cerâmicas do Hotel do Mar são de tamanhos e formatos variados,
representando sobretudo rostos, no entanto encontramos também registos abstractos ou abstractizantes e outros tipos de figuração, como aves ou peixes, remetendo para a produção avulsa de Querubim Lapa, da mesma época. Como uma sinalética poética, a sua distribuição ao longo de corredores, patamares e átrios, orienta-nos, conduzindo-nos na circulação entre os vários espaços.
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Hotel do Mar - vista do interior do bar. © CMP |
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Querubim Lapa - placa cerâmica, bar do Hotel do Mar, 1963. © CMP |
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Querubim Lapa - placa cerâmica, bar do Hotel do Mar, 1963. © CMP |
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Querubim Lapa - placa cerâmica, assinatura, bar do Hotel do Mar, 1963. © CMP |
Todos os detalhes dos interiores do Hotel foram cuidadosamente desenhados, adequando-se às suas localizações e funções, simultaneamente mantendo a possibilidade de serem utilizados em diferentes contextos.
Num tempo em que a oferta de objectos produzidos em série era ainda muito limitada em Portugal, equipas de arquitectos e artistas plásticos aplicavam-se no desenho total de cada projecto, demorando-se em cada detalhe.
Orientado por este espírito, o Atelier Conceição Silva procura conceber objectos que possibilitem a produção em série, podendo ser usados em múltiplas circunstâncias. Nascem assim no Hotel do Mar, várias tipologias de objectos, sobretudo mobiliário a iluminação, que serão mais tarde aplicadas em diferentes espaços e projectos.
Para o balcão do Bar foi pensado um revestimento composto por esferas de vidro transparente, semelhantes às bóias utilizadas nas redes de pesca, elemento que se repete no desenho dos candeeiros de parede, mais uma vez remetendo para a actividade piscatória da vila, inteligentemente evitando a literalidade das referências.
Dos vidros utilitários do Bar, copos e garrafas de vários formatos, resistem ainda alguns exemplares, que podemos observar nas imagens abaixo. Estas peças foram executadas na Marinha Grande, provavelmente na Fábrica Escola Irmãos Stephen, com quem Conceição Silva colaborou noutras ocasiões.
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Hotel do Mar - vidros utilitários do Bar, 1963. © CMP |
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Hotel do Mar - revestimento de vidro do balcão do Bar, detalhe. © CMP |
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Hotel do Mar - revestimento de vidro do balcão do Bar, detalhe. © CMP |
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Hotel do Mar - candeeiro de parede do Bar. © CMP |
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Hotel do Mar - candeeiros de parede, varandas e patamares. © CMP |
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Hotel do Mar - espelho, patamares e outras zonas de circulação. © CMP |
Tomando como referência um dos patamares de acesso ao Bar, deparamo-nos com um conjunto de elementos que reconheceremos em todo o edifício, segundo diferentes variações. Um espelho circular com moldura em madeira, suspenso por uma tira de cabedal; uma consola em pedra riscada; as cadeiras de braços, das quais veremos mais exemplares na próxima publicação; um vaso de barro; o revestimento de chão em tijoleira de terracota e a alvenaria texturada, elementos que encontraremos em diversos contextos ou sob diversas formas, sempre em diálogo com as peças de Querubim Lapa.
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Hotel do Mar - Patamar com placa cerâmica. © CMP |
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Querubim Lapa - placa cerâmica, Hotel do Mar, 1963. © CMP |
Parabéns por mais um excelente trabalho e respetiva partilha.
ResponderEliminarSilvia Jardim
Obrigada Sílvia!
EliminarPelo comentário e pelas imagens.
;-)
Absolutely beautiful ! Great post!
ResponderEliminarThanks Alexandre!
EliminarYou should visit the hotel :)
Fiquei muito feliz por ter encontrado tão detalhado artigo a proposito desta joia da arquitectura nacional. Obrigado !
ResponderEliminarMuito obrigada pelo simpático comentário!
EliminarVolte sempre :)
CMP*
Sou neta do João Alcobia e sinto um enorme orgulho pelo trabalho e investimento feitos pelo meu avô na concretização deste grande Hotel!
ResponderEliminarObrigada pela sua partilha!
Muito obrigada pelo seu comentário.
EliminarO trabalho do seu avô e o apoio que deu, também através da Casa Jalco, ao desenvolvimento das artes e design modernos em Portugal, são importantíssimos e merecem maior divulgação. Se tiver documentação da época (fotografias, catálogos, etc.) por favor contacte através de: ceramicamodernistaemportugal@gmail.com
Gostaríamos muito de colaborar nessa divulgação.
Saudações :)
CMP*